Sobrenatural – O menino do trem… e a transa que não aconteceu (Leia)

O menino do trem… e a transa que não aconteceu

Cristina V. S. (1985) – Londrina – PR

Transcrito por Anna Riglane

 

Esta é uma história que muitos, exceto eu, conhece apenas pela metade, principalmente o meu marido, a quem não sei devo, se não devo, se posso contar o que realmente aconteceu. Eu tinha escrito aqui uma parte, a parte mais assustadora, mas me encorajo agora a contar a parte mais prazerosa ou, pelo menos, que podia ter sido mais prazerosa.


Uma coisa estranha que me aconteceu, e que até hoje me deixa arrepiada, foi nas férias de janeiro de 2000, um pouco antes de começar a pandemia, quando viajei com o meu marido e as crianças para a minha terra natal.

Vendo a casa onde eu morava praticamente igual ao que era na minha infância e adolescência, inclusive um barranco de pedra de onde se avistava o entroncamento das linhas de trens, contei ao meu marido uma paquera que tive por uns três anos ou mais.

Os trens, todos de carga e com muitos vagões, tinham de passar bem devagar pelo entroncamento, por causa dos aparelhos de mudança de via (que permitem aos trens mudar de uma linha para outra, conforme meu pai me explicava na época). a molecada aproveitava para pegar rabeira, se pendurar no trem e seguir até ele começar a ganhar velocidade.

Meu pai falava que aquilo era um perigo, eu ficava dando bronca nos meninos, mas sempre corria para o barranco para ver o trem passar. Mas não era o trem que eu queria ver, era um menino que sempre passava pendurado, vindo não sei de onde, mas indo para a escola da vila… eu sabia por causa do horário, sempre o mesmo, e também do embornal com os cadernos e livros que ele levava a tiracolo.

Ele estava sempre sozinho, me olhava, acenava, e eu, escondido da minha mãe, retribuía os acenos e, já mais mocinha, também os beijinhos.

Mas nunca passamos disso, ele nunca desceu do trem, eu nunca cheguei mais perto, e como não sabia nada sobre ele, também nunca fui atrás de procurar conhecê-lo. Verdade é que havia um outro menino de olho em mim, começamos a namorar, depois, já pelos meus 15 anos, vim para São Paulo, morar com uma tia, estudar, trabalhar, conheci o meu marido, e nunca mais vi o menino, nem lembrava mais dele.

Mas…

Estava um domingo de sol e o meu pai, meu marido, cunhados, primos e adjacências foram jogar bola e tomar cerveja no campo de futebol da vila. Acho que foram mais beber que jogar bola, e eu, ouvindo o apito do trem passando, juntei-me à minha filha de 11 anos e ao menino de 9, e fomos lá para o barranco, ver as composições que passavam.

Ver os trens e o menino… nem pude acreditar.

Só passava trem numa certa direção, mas toda vez que passava o menino lá estava, pendurado, acenando, sorrindo, e com o material de escola… ele só não jogava beijinhos.

– Quem é, mãe? – perguntou a minha filha.

– Verdade é que eu nem sei. conheço ele há tanto tempo, mas nem sei o nome, nem sei onde mora…

Fiquei lá conversando com os meus filhos e nem me dei conta do que estava acontecendo. Só comecei a perceber as coisas mais tarde, quando contei ao meu marido e ele achou estranho o menino passar em todos os trens sempre na mesma direção.

– Só se for um trem circular… Mas espera aí!

E foi aí que veio a primeira bomba, pois o meu marido lembrou que já havia se passado mais de vinte anos… não podia ser o mesmo menino.

– É mesmo. Deve ser outro… uma grande coincidência. – falei, meio aliviada.

Coincidência nada, alívio nada, pois a segunda bomba, a maior de todas, ainda estava por vir.

Meu pai, cunhados, primos, vizinhos e adjacências, ouvindo a história do trem, começaram a me zoar, dizendo que eu devia ter bebido mais do que eles e que tinha visto coisas.

– Mas eu nem bebi, e as crianças muito menos ainda… e elas também viram.

– Só se for um trem fantasma. – alguém falou, pois faz mais de dez anos que o entroncamento foi desativado, lá só tem mato e dormentes podres, sem contar que já andaram até roubando pedaços de trilhos.

Pois não acreditei, achei que era gozação comigo, ainda mais que eu tinha os meus filhos como testemunhas… eles também tinham visto, e nem sabiam da história da paquera com o menino.

No dia seguinte, juntei novamente as crianças, o meu marido, e mais duas cunhadas que também estavam me zoando, e fomos lá olhar o entroncamento das linhas de trens… estava tudo exatamente como eles haviam falado, não passava trem ali fazia muitos anos.

E foi então que uma das cunhadas explicou que haviam mudado o entroncamento para um outro lugar por causa da brincadeira dos meninos de pegar rabeira.

– Mudaram para um lugar mais próximo do armazém da companhia, lá perto da vila, onde fica mais fácil pra eles vigiar. Aqui estava muito perigoso, teve muitos acidentes… está vendo aquela cruz ali?

– Cruz!? Estou vendo, mas… O que tem a cruz, vai dizer que morreu algum dos meninos aqui?

– Morreu. Um menino, rapazinho já. E o pior é que ele não se pendurava no trem para brincar, era para ir estudar na vila. Mas um dia, não se sabe porque, caiu e rolou para debaixo do trem… só juntaram os pedaços.

Gelei. Meu marido me amparou, contou a história para os outros, ninguém mais fez gozação comigo, nem tinham como. Pedi para virmos embora logo no dia seguinte.

Até hoje, nem eu nem ninguém soube explicar o que aconteceu.


 

A parte que ninguém sabe

Penso assim, se o menino voltou para mim, ainda que momentaneamente, depois de já haver passado para a outra vida, talvez seja porque ele quer me ouvir contando o que realmente aconteceu entre a gente naqueles tempos que já vão longe.

E o que aconteceu foi mais ou menos assim.

Por vários dias eu corria até o barranco para ver o menino passar pendurado no trem, trocávamos acenos, sorrisos, e um dia ele me jogou um beijinho. Voltei para casa saltitante de alegria e felicidade.

No dia seguinte, mal ele me viu, saltou do trem na minha direção, e corri para casa assustada, sem que a minha mãe entendesse a razão do meu susto.

Fiquei vários dias sem aparecer no barranco, com vergonha do menino, até que um dia, vendo que o trem já havia passado, fui até lá, só para olhar e imaginar que algum dia eu teria coragem de esperar por ele ali.

Levei um susto mais desgraçado ainda quando o menino apareceu por detrás de uns arbustos, e eu nem tive como correr. Troquei com ele algumas palavras no mais puro nervosismo, falei que precisava voltar para casa, e me apressei em deixá-lo.

Dessa vez, o que a minha mãe não entendia era o meu estado de leveza.

– Viu passarinho verde, menina?

Desde então, dia após dia, eu ficava cada vez mais leve, mais apaixonada, vivia cantarolando, sonhando, e relembrando aquelas conversinhas bobas de adolescentes, até que um dia ele pegou na minha mão, no dia seguinte trocamos um beijo, o meu primeiro beijo.

Dias e dias foram se passando e acho que fui perdendo a inocência, pois sua boca já procurava por outras partes do meu corpo além da minha boca, e suas mãos… suas mãos foram me devassando, enchendo-me de emoções e desejos… até que um dia nos prometemos.

– Eu quero você. – ele me disse. – Quero você como mulher.

– Quero ser sua. – respondi, fui respondendo, fui me angustiando.

Parte da angustia era porque passamos por alguns dias, mais de uma semana, sem poder nos ver, por causa do tempo de chuva que se formou e até o tráfego de trem chegou a ser interrompido.

Outra parte da angústia, a maior e mais devastadora, foi a notícia de que já estava tudo arranjado para eu vir para São Paulo.

Chorei por alguns dias, depois me alegrei com a ideia de conhecer um lugar novo, diferente, até tentei ver o menino mais uma vez, mas não dei sorte, sim embora, fui esquecendo…

 

 

 


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