Seu Nonô e os buraquinhos eletrônicos (Assine)

Seu Nonô e os buraquinhos eletrônicos

Ricardo M. S. (1975)

Butantã – São Paulo – SP

Quando as coisas se juntam elas se juntam… dahnnn!

Mas vejam se não é verdade.

Eu, um jovem homem já não muito jovem, 42 anos de idade… Seu Nonô já no fim da picada.

Eu saindo de um casamento que durou quase dez anos sem que eu saiba como, tamanha era a minha desconfiança-certeza de que levava galhos… Seu Nonô vindo de uma viuvez pela qual ele ainda lamentava, por conta dos muitos anos de convivência.

Eu procurando um cantinho qualquer para morar e trabalhar, depois de deixar a casa, e também a minha oficina, para a ex mulher e o ex sogro, também separado, e que há muito já havia ali se encostado… Seu Nonô dono de uns trinta quarto e cozinhas para alugar, que eram a sua fonte de sustento na velhice.

Eu técnico em eletrônica, quase engenheiro, na verdade, consertador e montador-construtor de tudo quanto é parafernália que envolve circuitos elétricos, transistores, integrados, capacitores, câmeras de vigilância… Seu Nonô, assim que descobriu a minha vocação, logo revelou a sua própria vocação, mostrando-se super interessado nos meus dotes a ponto, inclusive, de amansar o aluguel que me cobrava.

Eu um tanto mais sossegado, depois de tantos anos remoendo chifres que eu sabia que existiam, mas que não conseguia nunca comprovar que existiam… Seu Nonô sem sossego algum, de olho, literalmente de olho na mulherada e nos acontecimentos que envolviam as mulheres que habitavam as suas propriedades.

Eu instalado em três cômodos, quarto, sala e cozinha, mais banheiro e lavanderia, contíguos a um pequeno salão que dava para a rua, e onde antes funcionava um salão de beleza, e onde, então, eu me dedicava a trabalhar e recuperar a freguesia perdida com a mudança… Seu Nonô trabalhando o dia todo, com os olhos, com os ouvidos, e com a boca.

Eu, ainda que ressentido pela eterna dúvida sobre ter sido corneado ou não, mas já pouco me importando, já que estávamos separados e ela que funhenhasse com quem ela quisesse… Seu Nonô atento a qualquer ventinho que soprasse meio diferente na sua pequena cidade.

– Aquela ali, do 37… o marido que abra os olhos ou vai levar igual o do 19.

– Levar igual… como assim, Seu Nonô?

– Vai dizer que não sabe, meu rapaz? A do 19 é tão sem vergonha que anda trazendo o outro para dentro da própria casa… passa a noite com ele, enquanto o marido trabalha, qual dia o homem chega mais cedo e eu perco os inquilinos.

– Perde os inquilinos… – eu ria.

E seu Nonô não perdoava ninguém, não deixava escapar ninguém, casadas, descasadas, solteironas, solteiras, mocinhas… nem mesmo as mais jovens adolescentes escapavam do seu olhar, da sua curiosidade e, eu já começava a entender, da sua inveja.

– Ah… se no meu tempo fosse assim! – ele vivia dizendo, enquanto passava horas e horas ali comigo, quase atrapalhando o meu trabalho.

E eu precisava trabalhar e muito, pois estava com a vida financeira desfeita e ainda tinha a pensão da filha, que havia ficado com a mulher. Não havia ainda nenhuma sentença sobre a pensão, na verdade, a mulher nem havia entrado com o pedido, mas, mesmo assim, eu fazia de tudo para contribuir com a formação da menina. Sorte que logo começou a entrar serviços e fui me estabilizando.

E foi assim, já mais tranquilo, que pude começar e comecei a dar um pouco mais de atenção às observações do Seu Nonô… às suas fofocas, na verdade.

E fui descobrindo coisas. Não me interessava pelo que descobria, mas ia descobrindo.

E uma grande descoberta que fiz, depois de algumas deduções resultantes das conversas com o Seu Nonô, e também de algumas vistorias em uma das paredes do salãozinho onde eu trabalhava, é que naquela parede haviam alguns orifícios que, acreditem, permitam alguma visão do outro cômodo contíguo, outro quarto e cozinha que ele alugava.

Me perguntei, então, e perguntei ao Seu Nonô, se, por acaso, aqueles buraquinhos foram feitos por ele, para poder espiar os inquilinos a partir do salão.

– Não tinha como, nem tem. – ele falou. – Com o salão sempre cheio de gente, cheio de mulheres, como é que posso ficar aqui olhando o que acontece do outro lado da parede? E além disso, o cômodo ao lado esteve em reforma por um bom tempo, eu mesmo fiz todo o serviço.

– Sei… o senhor mesmo fez todo o serviço, e também fez os buraquinhos para ficar olhando aqui, o salão…

– O salão, não. As mulheres, não é?

– Mas o senhor, hem! E continua olhando, me vigiando?

– E por que vou querer vigiar você? Se ao menos você vestisse saia…!

– Sei… mas vigia quando recebo alguma cliente, não é?

– De jeito nenhum… tá morando gente aí, agora… um homem e uma moça… pai e filha.

Pai e filha!

Essa relação me chamou a atenção, mas nem liguei muito, pelo menos até os dois acontecimentos seguintes.

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