Suélen… O bárbaro segredo de uma menina linda e meiga, assassina e inocente – Partes 1e2/15 (Leia)

suélen 1e2 

Anna Riglane

Suélen… O bárbaro segredo de uma menina linda e meiga, assassina e inocente – Partes 1e2/15 (Leia)

À dor que cada um de nós carrega em silêncio

Todos os direitos reservados

 ÍNDICE

A vida não tem índice, não tem sumário, não é dividida em capítulos, os acontecimentos não são estanques e tudo é uma sucessão de fatos alegres, tristes, tristes, alegres… que vão se entrelaçando.

Difícil entender a vida, como difícil é, também, compreender ou até mesmo saber os segredos que cada um carrega.



Parte 1

A vida consegue ser extremamente benevolente com algumas pessoas, e mais do que cruel com outras, e se existe um propósito nisso, bem que gostaríamos de descobrir.

Mas enquanto não descobrimos os propósitos da vida, escrevemos este livro, o primeiro, e, talvez, o único da nossa carreira de escritoras, pois não somos escritoras.

Não é um livro homenagem.

Nem é um livro agradecimento.

É um livro obrigação.

É um livro interrogação.

Obrigação para com uma pessoa que desde cedo conheceu a infelicidade, para não dizer as desgraças da vida, e mesmo assim empenhou a sua própria vida para que não tivéssemos nas nossas vidas a mesma sorte ruim.

Interrogação para com a vida, que escreve desgraças a quem apenas merecia ser feliz.

Devemos, sim, obrigação a essa pessoa.

E devemos, também, obrigação e agradecimentos ao nosso cunhado, Danilo, por tudo o que segue escrito… e vivido.

Suzana e Samanta

Maio de 2018


Parte 2

Era uma sexta-feira, dia 5 de maio do ano 2000.

A tarde de outono daquele dia logo seria substituída por mais uma noite de clima seco e abafado.

Os olhos de Danilo lacrimejavam, um tanto pela poluição acumulada sobre a grande cidade naqueles dias, quando o fenômeno da chamada inversão térmica impede que os poluentes se dissolvam com mais facilidade no ar, outro tanto devido à própria poeira da rua que se acumulava em seu rosto, depois de rodar praticamente o dia inteiro sobre sua moto, fazendo entregas de um canto a outro da cidade.

Usava capacete, mas como a viseira havia se partido e não pudera comprar outra, via-se na contingência de receber em sua face toda a poeira e fuligem, expelidas por veículos diversos, todos os dias.

Mas não reclamava.

Apesar de tudo, gostava do seu trabalho.

Fazia mais de ano que trabalhava como motoboy para uma das empresas do dono da casa onde morava.

Na verdade, o homem, Doutor Sérgio, era também patrão de seus pais, fazia anos; o pai como motorista, a mãe como empregada doméstica.

Danilo gostava de rodar pela cidade com sua moto, comprada com certo sacrifício e um tanto a contragosto dos pais, pelo perigo que representava, tanto pelo trânsito em si, quanto pela possibilidade de assaltos.

Mas ele se dizia um tanto mais cuidadoso que a maioria dos que exercem essa mesma profissão, e se gabava de nunca ter sofrido nenhum tipo de acidente, nem tampouco ter se indisposto com um ou outro motorista pelas ruas.

Preferia fazer seu trabalho de forma mais responsável.

Só lamentava um tanto o salário.

Chegava aos vinte anos, planejava ir para a faculdade, mas sabia que mesmo juntando os três salários, o seu, o de seu pai e da sua mãe, ainda assim não seria fácil arcar com esse tipo de despesa.

Fazia contas e planos, contava com o apoio dos pais, mas… no ano vindouro, talvez.

Desligou o motor da moto ainda no meio do quarteirão, como costumava fazer, deixando que o veículo completasse o caminho impulsionado apenas pela força da inércia e da gravidade, pois estava num declive.

Passou pelo vigia que ficava na guarita da esquina e se dirigiu para o portão de serviço que dava acesso à grande mansão. Abriu a fechadura e empurrou o portão com a roda dianteira, adentrando o quintal.

Fechou com a chave o portão e impulsionou novamente a moto, com os pés.

Todo esse procedimento, com o motor da moto desligado, era para não chegar fazendo barulho, pois acreditava que o Doutor Sérgio não gostaria de vê-lo entrando e saindo com a moto, fazendo barulho, já que todos os veículos da casa eram carros luxuosos. Nunca ouvira nenhuma reclamação, mas de qualquer forma, agia dessa maneira muito mais por uma preocupação sua.

A moto não chegou a deslizar mais que cinco metros, quando Danilo teve de frear, por causa da figura que surgira à sua frente, praticamente fechando a estreita alameda cimentada e cortando o extenso gramado até a pequena casa dos fundos.

– Oi Danilo! – disse a moça, com voz suave e uma expressão de criança prestes a pedir alguma coisa.

– Oi Suélen! – retornou ele, um tanto surpreso, pois apesar da amizade que sempre os uniu, achou um tanto estranho a filha do patrão estar ali, no portão de serviço, como que à sua espera.

E de fato ela estava mesmo esperando por ele. Logo perguntou o que ele iria fazer, e quando ouviu ele dizer que estava a fim de um bom banho para tirar a poeira do corpo, foi mais surpreendente ainda.

– Me leva para passear!

– Passear?

E antes mesmo que ele terminasse de demonstrar seu embaraço ou sua surpresa, ela completou o seu pedido, enchendo-o com várias perguntas e dando suas próprias sugestões.

– Quero sair com você. Hoje, Agora. Podemos ia para qualquer lugar. Vamos jantar, sei lá…

– Mas jantar aonde? Eu não tenho dinheiro.

– Eu pago. É tudo por minha conta.

– Preciso tomar um banho.

– Você toma lá.

– No restaurante?

– Claro que não! Então me leva… me para um motel. – disse ela, encontrando uma saída rápida para o impasse criado. Lá você pode tomar banho.

– Como é que é? Espere um pouco, Su. Você está batendo bem da cabeça?

– Estou. Claro que estou. Mas também não pense… – interrompe sua fala, percebendo que se excedera em sua proposta. Depois retoma. – Podemos apenas ir lá, só isso. Você toma o seu banho e comemos alguma coisa, lá mesmo, jantamos. Entendeu?

– E por que ir lá, num motel?

– É que eu não conheço. É isso! Quero conhecer, mas só conhecer. Certo?

Por pouco o rapaz não argumenta que seria o mais correto então que ela fosse com o namorado. Mas parou a tempo, lembrando-se de que ela não tinha namorado.

Aliás, nunca vira Suélen com algum namorado sequer, mesmo já estando com dezoito anos.

Não tinha razões para dizer que como filha dos patrões ela não dava a mínima para ele, pois que sempre tiveram amizade, mas não conseguia entender o que estava passando na cabeça da menina para fazer tal convite.

Ela interrompeu seus pensamentos.

– E então? Vamos? Vamos no meu carro. Ele precisa mesmo andar um pouco, antes que fique sem bateria.

– Eu vou avisar minha mãe. – falou Danilo, ainda acreditando que a qualquer instante iria lhe cair sobre a cabeça uma das grandes folhas de palmeira ali existentes e fazê-lo acordar daquele sonho estranho que estava tendo.

Se ao menos tivesse tomado a cerveja que pensara em tomar antes de chegar, talvez pudesse acreditar que estava sob o efeito do álcool.

Mas estava perfeitamente sóbrio.

– Eu vou pegar as chaves e os documentos… e também o dinheiro.

Talvez fossem apenas dar uma volta. – pensava o rapaz, enquanto guardava a moto sob a cobertura ao lado da pequena casa, nos fundos do grande terreno, onde moravam, ele e os pais.

Talvez ela quisesse apenas fazer funcionar o carro que ganhara havia já algum tempo, mas que, nova na habilitação, ainda não tivera coragem de pegar para dirigir.

Avisou a mãe que ia com Suélen levar seu carro até o lava-rápido, engoliu às pressas um dos bolinhos de arroz que a mulher estava fritando, e foi ao encontro da menina, que já o aguardava, na porta da garagem.

Parecia um tanto ansiosa.

A mãe ainda o avisou de que quando voltassem talvez já não houvesse mais ninguém ali na casa, mas decerto ele não ouviu.

– Seus pais não vão bronquear com a gente? – perguntou Danilo, talvez suspeitando de que aquela vontade de sair de repente de casa tivesse alguma coisa a ver com eles, alguma desavença, talvez.

Ou seria algum capricho de Suélen?

– Claro que não! – respondeu a menina. Já avisei mamãe que íamos sair.

– Avisou que íamos sair?

– É. Falei que você iria me levar na casa de uma amiga.

– E onde é essa sua amiga? – perguntou o rapaz, já manobrando o carro na rua, enquanto o portão se fechava, sob a ação do controle remoto.

– Mas que amiga? – perguntou Suélen. – Não vamos para um motel?

– Está bem! – disse ele. – Vamos para um motel. Mas e daí… vamos fazer o que lá?

– Eu já não disse? Você pode tomar um banho, podemos lanchar ou jantar. Eu pago um belo jantar para você. E se você quiser… podemos transar, por que não?

Danilo não teve tempo de ficar surpreso ou admirado com essa proposta, agora feita de modo mais direto. Ao virarem uma esquina deram de frente com o carro que trazia o pai de Suélen, dirigido pelo seu próprio pai. Pensou em buzinar, parar para conversar, dizer qualquer coisa. Mas percebeu, pela aflição de Suélen, que devia seguir em frente, fingir que não os tivesse visto.

Também desistiu de perguntar à menina o que estava acontecendo de fato. Talvez a ideia de ter aquele corpinho bonito e gostoso na cama o tenha feito esquecer de procurar entender seja lá o que fosse.

Mas foi a própria Suélen quem começou a responder às dúvidas que o assaltavam e que ele não tinha coragem de perguntar.

– Não me chame de doida, não. Nem tente me entender. Depois eu te explico tudo. Por ora só quero que você me leve até lá e que tenhamos uma noite bem gostosa.

– Uma noite?

– Bem que eu queria. Mas pode ser pelo menos por algumas horas. Só quero voltar para casa depois da meia noite. Você faz isso, me traz para casa depois da meia noite?

– O que é agora… história de conto de fadas?

– Antes fosse. – resmungou a menina. – Mas está mais para contos de terror.

– Como é? – perguntou ele.

– Nada. Esquece! Vamos lá nos curtir um pouco, vamos! É melhor nem conversar muito.

Mas depois de algum tempo, foi ela própria quem recomeçou a falar.

– Minha irmã faz aniversário dia 17, sabia?

– Sei. Claro que sei. Por acaso não sei quando você, a Suzana e a Samanta fazem aniversário.

– Vai fazer 14 anos.

– É. E está tão bonita! Igual à irmã. – diz ele, acreditando que devesse mesmo fazer pelo menos um elogio para a garota que o havia convidado a ir para cama.

– Pois devia ser feia e horrorosa.

– De novo? O que está acontecendo? Tudo isso é raiva da irmã.

– Claro que não! Muito pelo contrário. Eu a amo demais.

– Então o que é?

– Nada. Nada. Só estou a fim de encher o saco. Não estou muito legal hoje.

– Percebe-se.

O que estava acontecendo com Suélen? – perguntava-se Danilo.

Conviviam, praticamente juntos, na mesma casa ou, pelo menos, no mesmo quintal. Brincaram juntos nos seus tempos de infância, mas não podia dizer que a conhecia direito.

Enquanto menina, ainda moleca sapeca, como o pai de Danilo costumava chamá-la, Suélen vivia pelo quintal, sempre chamando o garoto para brincar junto com ela e as irmãs, ainda muito pequenas.

Em tempos de calor brincavam na piscina, em outros tempos permaneciam em algum canto qualquer da casa.

Nunca houve nenhuma interferência na amizade entre eles, sequer pelos pais de Suélen, os patrões.

Na comemoração dos treze anos de Suélen, houve uma grande festa, e a casa ficou cheia.

Danilo pensou que estaria de fora, pois os convidados eram outros, gente da estirpe do Doutor Sérgio e de Dona Marina, ambos médicos com um certo sucesso na profissão.

Não haveria lugar para o filho do motorista e da empregada ali.

Mas foram convidados.

Em nenhum momento os donos da casa pareciam fazer esse tipo de discriminação, muito menos as meninas.

Como o Senhor Ricardo, pai de Danilo, costumava dizer, eram gente rica porém simples, não tinham orgulho no coração.

Naquele dia da festa, Suélen estava ainda mais linda do que sempre fora, e já se podia perceber em seu corpo as marcas de uma mulher em crescimento. Os seios, as pernas, as nádegas, tudo começava a ganhar forma de menina-moça.

Danilo não podia negar que, naqueles tempos, a mocinha Suélen chegou a ser objeto de seus desejos, motivos para suas fantasias.

Mas era a filha do patrão, rica…

Assim como o corpo, os interesses da menina também iriam começar a mudar.

No ano que se seguiu, os garotos da escola, da rua ou dos lugares que frequentava, começaram a se tornar mais importantes que as brincadeiras.

Mas nem por isso a amizade de Suélen para com Danilo havia diminuído.

Algumas vezes chegou até mesmo a fazer comentários sobre algum menino, uma paquera, coisas de garota enfim.

Danilo sentia-se feliz por participar desses pequenos segredos da garota, e com isso, acabou também substituindo eventuais desejos por uma amizade sincera.

Mas em algum momento qualquer tudo isso iria mudar.

Danilo não conseguia lembrar exatamente quando e nem como, mas sabia que alguma mudança havia ocorrido no modo de ser de Suélen.

Não que ela passasse a tratá-lo mal ou a ser indiferente, mas, sim, no seu próprio modo de ser, no seu semblante, nas suas palavras, muitas vezes evasivas, como aquelas que acabara de pronunciar ali, no banco do carro.

Mas ele nunca dera atenção a isso.

Interessado em sua própria vida, e também em suas próprias paqueras, apenas mantinha a amizade com Suélen, na forma como podem ser amigos a filha dos patrões com o filho dos empregados.

Apenas naquele momento, revendo e repensando as coisas passadas, é que Danilo se apercebeu de que nunca havia visto Suélen em companhia de algum namorado. Aqueles seus comentários dos tempos de 13 ou 14 anos haviam cessados, e ela nunca mais falara sobre meninos ou sobre namoro.

Será que já não se interessava por meninos?

Se assim fosse, então por que procurá-lo naquele dia?

Por que a ele e não a outro garoto qualquer?

Com os seus 18 anos, completados em janeiro daquele ano, a sua beleza ímpar, e as amizades que já devia ter feito nos seus primeiros meses de faculdade, ela bem que poderia ter à sua escolha qualquer menino.

Seria problema de timidez?

Mas se fosse, teria ela ficado tímida de repente? Quer dizer, da moleca sapeca que era até os 13 anos, teria, de um momento para outro, se transformado numa moça tímida, problemática?

Não! Por certo Suélen não era problemática, não tinha problemas de relacionamento, e nem mesmo era lésbica, pois se fosse não estaria querendo sair com ele e, sim, com uma menina.

– E a Cátia? – perguntou repentinamente Suélen, interrompendo os pensamentos de Danilo.

– Como é que é? – respondeu com uma pergunta o rapaz, um tanto surpreso por ela estar se lembrando da sua namorada naquele exato momento. Talvez ela tivesse mesmo alguma queda por meninas.

– Como assim, como é que é? – retrucou rapidamente Suélen. – Só perguntei da Cátia, sua namorada. Ou não se lembra mais dela?

– Mas claro que me lembro. Só que esse não é exatamente o melhor momento para lembrar dela, não acha?

– E por que não? Ela é tão bonita! Eu gosto dela.

– Certo. – disse o menino, agora já mais confuso sobre o que pensar da garota que estava ao seu lado, e que o havia convidado para sair. – Mas você está me levando para um motel e vai me fazer lembrar da minha namorada? – perguntou ele.

Mas Suélen mudou completamente o rumo da conversa.

– Ela é feliz com os pais dela?

– Claro que é? Por que? Você não é?

– Sou. Claro que sou. Por isso é que estou perguntando. Já disse que gosto dela, e então me interesso em saber. Quero saber se eles vivem bem, se não brigam com ela.

– Bom… brigar, eu acho que todo mundo briga. Até eu brigo com meus pais, mas são briguinhas bobas. Hoje briga, amanhã está tudo bem. Vocês também não são assim?

– Acho que somos. Sei lá!

– Como assim, sei lá? Você não sabe?

Realmente, Suélen não era mais aquela menina de alguns anos atrás, que ainda habitava a memória de Danilo.

Percebeu então que esteve ausente durante muito tempo da sua verdadeira companhia, a ponto de não notar por completo essas transformações.

Aqueles encontros casuais e superficiais no quintal ou mesmo quando iam todos para a chácara, deixaram de ser suficientes para que ele continuasse a conhecer a garota com quem cresceu junto.

De fato, tinha na lembrança que Suélen tratava bem e até demonstrava uma certa amizade por sua namorada Cátia, desde que a conhecera. Chegara mesmo a fazer convites para que algum dia ela fosse junto à chácara, mas isso nunca aconteceu.

Estaria ela interessada em sua namorada?

A cabeça de Danilo girava entre a atenção no trânsito e o matutar sobre esses pensamentos.

Mais uma vez Suélen o interrompeu.

– Qual foi a maior briga de Cátia com os pais dela, você sabe? – perguntou, depois de algum tempo, em que pareceu não ter dado a mínima atenção à pergunta que ele havia feito.

– Sei lá! – respondeu ele. – Acho que eles nunca brigaram de verdade.

– Os pais dela nunca pegaram no pé, por causa do vosso namoro?

– Que eu saiba não. Só a mãe é que ficou meio cismada quando descobriu que a gente já estava dormindo juntos.

– Dormindo juntos? – perguntou ela, como se não tivesse entendido o que ele estava querendo dizer.

– É. – respondeu ele. – Dormindo juntos, transando. Mas eu acho que ela nem ficou brava, apenas preocupada, com medo de acontecer alguma coisa.

– Que coisa?

– Sei lá! Gravidez, doença. Mas acho que não foi uma preocupação tão grande assim. Sabe como é, pai e mãe sempre se preocupam com os filhos. Principalmente com as filhas. – completou, rindo. – Por isso, eu acho que quando a Cátia contou para ela…

– Ela contou? Mas por que? Não é uma boba? Há quanto tempo vocês transam?

– Uma pergunta de cada vez, por favor.

– Conta como foi a primeira vez, a sua primeira vez.

Danilo diminuiu a marcha do carro e permaneceu um longo tempo olhando para Suélen, como a tentar entender ou, então, a perguntar o que estava passando na cabeça da menina, e por que aquele papo tão confuso.

Ela se embaraça e rejeita aquela situação.

– O que é? Vai ficar me olhando ao invés de dirigir. Lá no motel você pode me olhar à vontade. Aqui, faça o favor de prestar atenção no trânsito e não bater o meu carro… presente de…

Não completou a frase.

Desviou seu olhar para algumas casas à margem da rua por onde passavam. Foi Danilo quem concluiu o que ela não dissera.

– Presente de seu pai, quer dizer, dos seus pais.

– Acho que nunca vou dirigir isso! – disse Suélen, cortando rispidamente a frase do rapaz.

– Não? E por quê?

– Você ainda não me falou da sua primeira vez.

– E por que você quer ouvir?

– Fale da sua primeira vez com a Cátia.

– Mas a minha primeira vez foi com ela. Aliás, sempre foi com ela, apenas com ela. E você? Fale de você? – perguntou Danilo, como se de repente ela fosse mostrar a ele todos aqueles anos em que ele não havia acompanhado sua vida.

– Perguntei primeiro. Eu é que quero saber de você.

– Está bem. Não sei por que querer saber isso agora, mas não vejo porque não contar… foi normal, numa boa.

– Não é isso! Estou perguntando como foi que rolou como é que vocês chegaram lá.

– Lá aonde?

– Como é que vocês decidiram fazer? Como foi que rolou?

Suélen parecia um tanto irritada ao não ver-se atendida em seu pedido, mas logo assumiu aquele seu ar de ternura, encarando o olhar de Danilo.

– Conta como foi.

– Bom. – disse ele. – Começamos a namorar logo que ela fez 14 anos…

– Você é o primeiro namorado dela?

– Não. Ela já tinha namorado ou ficado com um menino lá da escola. Mas ela me dava mole, me olhava…

– Que danada! Sacaneando o outro. Mas ela é sua primeira namorada, não é? Disso eu sei.

– Claro que sabe. Já te falei.

– Você nunca ficou com outra?

– Nunca. – respondeu Danilo, talvez até com uma certa ponta de orgulho, por mostrar sua dedicação à namorada.

– Então está tudo bem. Fica empatado.

– O que é que fica empatado?

– Se ela já ficou com outro, então não tem problema você ficar comigo hoje. Mas conta logo como foi! Você só está enrolando.

– Eu estou enrolando? – pergunta ele, quase rindo. – Você é que não me deixa falar.

– Então fala logo! – disse ela, virando-se no banco, ficando de frente para ele, com uma das pernas dobrada, deixando aparecer a maior parte das suas coxas e, talvez, até mesmo a calcinha.

Danilo não pode conter o olhar e ela volta-se para a posição anterior, ordenando a ele que continuasse a falar, ou que começasse.

– Já disse que lá no motel você me olha o quanto quiser. Agora você dirige, e me conta.

– Então. – retomou Danilo. – Namoramos há quase quatro anos, mas não faz nem dois que tivemos nossa primeira vez.

– Então ela tinha 16 anos?

– É. Na verdade, foi logo depois do aniversário dela.

– E como foi que rolou?

– Se você deixasse eu falar…

Trocaram um olhar como que de censura, e depois Suélen se justificou.


Continua… em breve

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