Suélen… O bárbaro segredo de uma menina linda e meiga, assassina e inocente – Partes 4/15 (Leia)

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Anna Riglane

Suélen… O bárbaro segredo de uma menina linda e meiga, assassina e inocente – Partes 4/15 (Leia)

À dor que cada um de nós carrega em silêncio

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 ÍNDICE

A vida não tem índice, não tem sumário, não é dividida em capítulos, os acontecimentos não são estanques e tudo é uma sucessão de fatos alegres, tristes, tristes, alegres… que vão se entrelaçando.

Difícil entender a vida, como difícil é, também, compreender ou até mesmo saber os segredos que cada um carrega.



Parte 4

Temeroso do que havia feito, parou por um instante, o tempo suficiente para que dona Marina tomasse a panela de suas mãos e começasse a golpeá-lo, enquanto ele tentava fugir e, ao mesmo tempo, pegar a menina, que já conseguira se levantar, ainda que mancando muito e gritando de dor, devido à cabeçada no fogão e aos chutes que o pai lhe dera.

Dona Marina acertou forte com a panela na cabeça de Danilo e este caiu.

Foi então que Suélen pegou uma faca e golpeou a mãe nas costas, várias vezes, com uma raiva tão forte que parecia mesmo querer matá-la.

Dona Marina caiu, mas Danilo viu Doutor Sérgio tirando a faca das mãos de Suélen e partindo para cima dela.

Quase cego, Danilo apanhou novamente a panela e golpeou a cabeça do homem, derrubando-o no chão.

Suélen tomou então a panela de suas mãos e começou a bater no pai com a mesma fúria com que antes havia esfaqueado a mãe.

Danilo não conseguia entender o porquê de tanta violência, de tanta ira, tanto por parte dos pais de Suélen, como por parte dela mesma.

Jamais poderia acreditar que Doutor Sérgio e dona Marina, com toda aquela passividade e bondade de que eram possuídos, pudessem, de repente, agir com tamanha fúria contra a própria filha.

Em relação a Suélen, por sua vez, também não entendia a sua raiva, principalmente pelo modo como a viu esfaqueando a mãe.

Mas percebeu que em tudo aquilo que acontecera naquele dia, desde o momento em que ela o convidou para sair, havia alguma coisa de estranho. E esse algo estranho se resumia agora naquela cena grotesca, descabida, de uma família se destruindo.

Segurou a mão da garota e correu com ela para o quintal. Ficaram sem saber o que fazer. Precisavam chamar alguém. Havia ainda um certo medo de que os dois pudessem segui-los e tentar alguma violência ainda maior.

Pensaram em correr para a casa dos fundos, chamar os pais de Danilo, mas só então o rapaz se deu conta de que não havia mais ninguém por ali, pois como era costume, as irmãs mais novas de Suélen haviam ido para a chácara e seus pais as acompanhavam.

Com medo, saíram para a rua e correram a pedir ajuda ao vigia, para que este chamasse a polícia.

– Mas o que está acontecendo? – perguntou o homem, um senhor de meia idade, bastante conhecido ali, pelo longo tempo que exercia aquela função. – O que é que vou dizer à polícia? – quis saber, enquanto pegava uma extensão de telefone que havia na guarita.

– Diga qualquer coisa! – falou apressado Danilo. Diga que é um assalto, uma briga, qualquer coisa. Mas que venham logo.

Enquanto falavam e aguardavam completar o chamado, Danilo e Suélen não tiravam os olhos do portão da casa, que ficara aberto. Temiam o momento em que Doutor Sérgio pudesse irromper para a rua, talvez com uma arma na mão.

Danilo abraçou Suélen, tentando acalmá-la.

Por outro lado, ele próprio não conseguia conter o seu nervosismo. Nervosismo e medo. Medo e dúvidas. O que havia acontecido, afinal? Por que aquele mistério todo de Suélen? Por que aquela ira toda entre eles três?

Por sorte a polícia chegou rápido.

Uma viatura que estava nas redondezas, pensando tratar-se de um assalto em andamento, acorreu ao local.

Apressadamente, atropelando-se um ao outro em suas palavras, falando quase que ao mesmo tempo, os dois contaram sobre a briga e disseram estar com medo de que os pais de Suélen pudesse sair de casa com alguma arma.

Logo uma outra viatura de polícia chegou no local e os policiais se dividiram, alguns ficando ali com aqueles dois jovens em estado de pânico, enquanto outros adentraram a casa.

Mas estes logo retornaram, com a notícia de que os pais de Suélen estavam mortos.

Danilo não podia acreditar que houvesse participado de um assassinato, que havia ajudado a matar os pais de Suélen, Doutor Sérgio e dona Marina, os patrões de seus pais, seu próprio patrão.

Havia ajudado a deixar sem pai nem mãe, três garotas com as quais praticamente crescera junto.

O interior da casa, o quintal, a rua, logo se transformaram num verdadeiro reboliço. Viaturas de polícia, policiais fardados ou à paisana, repórteres, câmeras de televisão, máquinas fotográficas.

Todos queriam saber tudo ao mesmo tempo, e vinham fazer perguntas aos dois.

Sentados numa mureta que margeava o jardim da casa, Danilo e Suélen permaneciam abraçados, tendo a moça aninhado sua cabeça no peito do rapaz, mas sem manifestar qualquer indício de choro.

Não podiam conversar entre si, tamanha era a profusão de policiais e principalmente de repórteres, que tentavam obter alguma informação, qualquer informação.

Não respondiam a nada.

Mais tarde, Suélen levantou-se puxou Danilo para o interior da casa, para uma sala onde podiam ficar longe dos olhares de todos, até mesmo dos tios da menina que, naquele exato momento, chegavam ao local, depois de avisados por algum dos vizinhos ou, talvez, pelo vigia.

O tio de Suélen ainda chegou até à menina, tentando saber o que havia acontecido, mas foi logo afastado dali por um policial que parecia estar comandando todas as operações ali realizadas. Quis fazer algumas perguntas, dar início à apuração dos fatos.

Foi nesse momento que Suélen conseguiu falar, finalmente. E fez um pedido a Danilo.

– Não diga que você estava junto. Está bem? – falou a menina, olhando para o rapaz, ainda com os olhos cheios de lágrimas.

– Como não? – perguntou ele. – Eu estava com você, nós fizemos…

– Não! – quase gritou ela, de modo autoritário. – Você não sabe de nada. Você só chegou até aqui porque eu fui te chamar lá nos fundos.

– Mas… – tentou argumentar Danilo, não entendendo onde a menina queria chegar.

– Escuta! Por pavor, escuta! – pediu ela, segurando suas mãos, olhando-o nos olhos. Só eu estava aqui, está certo? A gente saiu, foi no motel, tudo bem, pode confirmar isso para a polícia. Mas não diga que participou da… você sabe.

– Mas por que isso Su? Você vai assumir… E por que tudo isso aconteceu? O que foi que aconteceu?

– Por favor! É melhor assim. Você pode fazer isso por mim?

– Mas você vai ser presa. Não está certo.

– Tudo bem. Não me importo.

Suélen apertava as mãos do rapaz, enquanto seu olhar suplicava que ele aceitasse atender ao seu pedido. Danilo tentou entendê-la.

– Mas Su… por que não contamos a verdade?

– Que verdade? Você por acaso sabe da verdade? Deixa que eu conto a verdade. Não se envolva nisso, por favor.

– Tudo bem! Mas… Eu bem queria saber a verdade.

– Eu só queria te pedir um favor. – interrompeu Suélen.

– Fale!

– Cuida das minhas irmãs. Você cuida delas? Veja que elas fiquem bem?

– Claro!

– Se bem que agora eu sei que elas vão ficar bem. – falou a menina, quase que para si mesma.

– O que você disse? – perguntou o rapaz, tentando, mais uma vez, entender a menina, agora mais sua amiga do que nunca.

Mas não puderam conversar mais.

O tio de Suélen retornou, querendo saber do ocorrido.

Alguns policiais se aproximaram, outros traziam blocos de anotações.

Repórteres tentavam furar o cerco que a polícia havia montado em torno do casal.

A casa foi se esvaziando, e Suélen foi levada para a delegacia, para prestar depoimento.

Danilo tentou ir junto, mas foi seguro pelo tio de Suélen, que queria saber do seu envolvimento no caso.

A pedido da menina, ele negou que tivesse alguma coisa a ver, mas não conseguia entender onde ela queria chegar ao assumir só para si a autoria daquele crime que, aliás, pensava ele, nem crime era, pois os dois agiram em legítima defesa.

Suélen se foi, de cabeça baixa, sem ao menos lhe dar um olhar de despedida.

Danilo foi arrastado pelo tio, pela multidão, pela noite, pelas pessoas que tudo queriam saber.

Seus pais chegaram, as irmãs de Suélen chegaram.

Ninguém podia acreditar no que havia acontecido, e todos procuravam entender como e por que aquilo havia acontecido.

Os corpos do casal foram levados em caixões de aço, já de manhã, com o sol raiando timidamente sob um céu enevoado.

Danilo precisava dormir, mas não conseguia.

Sua mãe lhe dava algum tipo de chá, seu pai permanecia como que desconsolado, andando de um lado para o outro naquele imenso quintal, talvez a se perguntar o mesmo que estava perguntando todo mundo.

O que havia acontecido afinal?

As primeiras notícias dos jornais explicavam tudo:

“Garota confessa ter assassinado os pais”. Motivo teria sido a não aceitação do seu namoro.

“Crime foi planejado”. A meiga menina com ar de anjo confessa ter planejado detalhadamente o assassinato dos pais.

“Amor proibido”. Romance entre rica menina e o filho do caseiro acaba em tragédia.

“Essa menina matou os pais”. É difícil acreditar, mas o anjo da foto acima é uma assassina fria e macabra.

“Matou os pais quando chegava do motel”. O romance da menina rica com o empregado foi a causa do brutal assassinato.

Danilo não conseguia entender aquelas manchetes.

Da mesma forma que as pessoas não conseguiam entendê-lo, conforme as liam.

Nem mesmo Suzana e Samanta, as irmãs de Suélen, quiseram mais estar ao seu lado, depois que souberam ser ele o motivo daquilo tudo, daquela tragédia.

As estampas nos jornais eram claras, e as notícias davam os mínimos detalhes. A garota assassina havia confessado à polícia como arquitetara aquela saída com o namorado, dando um pretexto aos pais para uma discussão, momento que estava reservado para matá-los.

Estava tudo calculado, a faca, a panela, deixara tudo devidamente arranjado na cozinha.

Isso tudo é mentira! – pensava Danilo.

Mas ao mesmo tempo calava-se, pois não conseguia entender as razões de Suélen para estar dando essas declarações.

Talvez tudo não passasse de uma tentativa de inocentá-lo primeiro, para depois tratar de arrumar as coisas para o lado dela.

Nas “confissões” de Suélen, ela dizia que seus pais eram contra o namoro dela com Danilo, por ele não passar de um simples filho de um empregado.

Contou à polícia que havia saído com ele já com o propósito de acabar com a vida de seus pais. Sua intenção era mesmo a de acabar com tudo, já que não podia estar ao lado de quem amava.

Disse mais, que na briga que tiveram na cozinha, ela esfaqueou a mãe enquanto o pai havia saído para ir ao banheiro, e que depois bateu com a panela na cabeça dele, assim que ele voltou.

Contou ainda que, depois disso, foi chamar Danilo na casa dos fundos, talvez um tanto assustada pelo que tinha acabado de fazer.

Mas não demonstrava arrependimento

(…)

Nos dias seguintes, os jornais e a televisão continuaram noticiando a monstruosidade da filha que assassinara os pais por causa do seu namoro com o filho do motorista.

Danilo pouco entendia daquilo tudo, exceto que, uma semana depois, foram expulsos daquela casa, pelos tios de Suélen. Nem suas irmãs puderam mais ver. Tentou visitar Suélen na cadeia, mas quase fui linchado por uma pequena multidão que gritava ser ele o culpado, o rapaz viciado que tinha desviado a menina do bom caminho e a induzido ao uso de drogas.

E nem fumar ele fumava.

Junto com seus pais, tiveram de fugir, esconderem-se.

Estavam os três desempregados, e sem casa para morar, de um momento para outro.

Por que Suélen fizera aquilo com eles? Se sua intenção fosse a de protegê-lo, conseguiu o efeito exatamente contrário.

Foram se ajeitar por uns tempos numa casa da periferia, no quintal da casa de um tio de Danilo, irmão de sua mãe.

Praticamente preso dentro daquela casa, Danilo teve tempo de sobra para pensar sobre o ocorrido, sobre Suélen, sobre as razões para ela querer mentir daquele jeito.

Não contou aos pais a verdade. Pensava que se o fizesse, eles logo iriam contar para os tios de Suélen ou, então, para a polícia. Achou melhor esperar, raciocinar sobre as razões de Suélen, para só então pensar tomar uma atitude sobre o que fazer.

Mas uma pessoa, pelo menos, precisava saber da verdade.

Quinze dias depois, em outra sexta-feira, Danilo apanhou sua moto quase que escondido dos pais, e quando estes o interpelaram, saiu para a rua, dizendo que precisava ver Cátia.

Afinal, em todos aqueles dias, ele não tinha visto a namorada, nem dado explicação alguma a ela, e já lá se iam duas semanas desde o trágico episódio.

O que estaria ela pensando, ao ler todas aquelas notícias nos jornais ou vê-las na televisão? Estaria ela acreditando realmente que ele e Suélen fossem namorados?

Ela não lhe telefonara e nem tinha como, pois haviam ficado sem o telefone da casa, e ele sem o celular, recolhido pela empresa, de onde fora demitido.

Passava das oito da noite quando moto e piloto cortaram as agora quase tranquilas ruas da cidade, de um bairro a outro, até que chegou próximo à casa de Cátia.

Não quis chegar com a moto, como sempre fazia. Temia que os vizinhos pudessem criar alguma confusão. Mesmo estando ele inocentado do crime pelas próprias palavras de Suélen naquilo que contava à polícia, ainda assim era visto como o pivô maldoso da tragédia.

Deixou a moto numa rua próxima, chegou a pé até o portão e tocou a campainha, esperando ser atendido. Foi o pai de Cátia quem apareceu para destrancar e recebê-lo até mesmo com uma certa euforia, pois sempre gostou do rapaz. Em seguida veio a mãe, demonstrando o mesmo afeto e, já na sala é que trocou o primeiro olhar com Cátia, que parecia tentar demonstrar pouca animação em vê-lo, muito embora estivesse longe de conseguir seu intento.

Conversaram por um bom tempo. Danilo explicou a situação em que agora se encontrava, negou que tivesse qualquer coisa a ver com Suélen, mas não contou sua participação no crime. Achou que não devia.

Todos se perguntavam, e perguntavam, então, o porquê da menina envolvê-lo como pivô amoroso do crime, e Danilo tentava justificar sua atitude como a de alguém que precisava de um motivo uma razão. Então ele fora esse motivo.

Algumas perguntas começaram a surgir, como, por exemplo, se a menina tinha algum problema de comportamento, se não era doente.

Cátia, com uma certa aspereza na voz, lembrou que, pelo pouco que conhecia de Suélen, não via nela nenhum problema de comportamento. Por certo ela deveria estar falando a verdade.

Danilo percebeu então que seria difícil convencer a namorada de que não tinha nenhum envolvimento com a filha dos falecidos patrões. Mas não se sentiu à vontade para falar que se viu compelido a analisar o comportamento de Suélen dos últimos anos, e que ela havia mudado muito, de uns tempos para outro, que não tinha namorado. Preferiu reservar essas revelações apenas para Cátia, quando ficaram a sós, na varanda da casa.

– Você não está acreditando em mim, não é? – perguntou o rapaz, tentando encará-la de frente.

– E deveria acreditar? – perguntou ela, desviando o olhar. – Ela é uma menina rica, pode lhe dar muito mais que eu.

– Que besteira Cátia! Não é nada disso.

– E o que é então? Paixão verdadeira? Amor puro?

– Nenhuma coisa nem outra. Eu nunca tive nada com ela. Acredite em mim.

– É difícil. – disse a menina, talvez querendo dizer exatamente o contrário. Talvez desejando abraçá-lo e obter dele a prova de que ainda era o amor da sua vida. Mas permaneceu paralisada, na voz e no semblante.

Danilo achou que deveria se abrir, contar a verdade, dizer que estava junto com Suélen, que a razão para o crime era outra. Mas nem ele sabia que razão era. Tampouco achou que devia confiar em Cátia sobre toda a verdade. Ainda precisava esperar que Suélen desdissesse todas as mentiras que havia contado à polícia, que revelasse a verdade.

Mas que verdade?

– Por que então ela matou os pais? – perguntou Cátia, como que a adivinhar os pensamentos de Danilo.

– Pois é o que eu gostaria de saber. – disse ele. – Deixa eu te contar uma coisa. Tínhamos saído, eu e ela.

– Isso eu já imaginava, ou já sabia. – disse a moça.

– Não! – quase gritou Danilo. – Mas não é nada disso. Deixa eu te contar.

Se a vontade do rapaz era realmente falar toda a verdade, logo essa vontade esmaeceu. Como Cátia iria ouvir isso? Preferiu mentir.

– Quando cheguei em casa naquela sexta-feira. – começou ele. – Ela estava no portão, me esperando. Pediu para que eu fizesse o carro dela funcionar, pois estava quase sem bateria, de tanto ficar encostado. Você sabe que ela ainda não dirige.

– Sim. E daí? O mocinho foi correndo atender ao pedido da mocinha.

– Pare com essa ironia. Ela é minha patroa, caso você não saiba. Aliás, era minha patroa.

– Certo. E como patroa ela pode te solicitar no momento que quiser.

– Não é isso. Aliás, meus pais é que eram seus empregados, não eu. Mas deixa eu continuar. Eu logo percebi que o problema dela não era com o carro…

– Claro que não! Isso até eu sei.

– Pare! Por favor. Você está ironizando com coisa séria. Ela estava esquisita, com algum problema. Não sei qual era. Mas parecia que ela queria fugir daquela casa, queria sair, ir para longe, sei lá.

– E então vocês foram para longe. Para o primeiro motel que encontraram.

– Não fomos em motel algum.

– Não? – sorriu ironicamente Cátia. – E espera que eu acredite nisso?

– Não fomos! – disse de forma decisiva Danilo, porém dando uma pausa, talvez pressentindo que o melhor fosse mesmo contar toda a verdade. Cátia não merecia sua mentira. Mas não se abriu. – Ficamos rodando pelas ruas. Ela me pediu que ficássemos rodando. Dizia que precisava andar pela cidade, respirar alguma coisa diferente do ar da sua casa.

– E você ficou rodando com ela a noite toda?

– Não foi a noite toda. Como eu não tinha jantado, paramos numa pizzaria, comemos alguma coisa. Depois ficamos um tempão sentados no banco de uma praça que havia em frente…

– Sentados num banco de uma praça, de noite, com todo o risco de assalto que existe por aí?

– Acho melhor não falar mais nada. – disse ele. – Se você não está acreditando. Não vou ficar perdendo meu tempo.

Danilo saiu, sem dar sequer um beijo ou abraço na namorada, nem tampouco se despedir de seus familiares, como havia prometido fazer quando fosse embora.

Ela abriu o portão, talvez ansiosa por um beijo, por alguma palavra a mais, mas sem a coragem suficiente para pedir.

Ou seria sua mágoa que a impedia de fazê-lo?

Ele nem olhou para trás.

Caminhou a distância que o separava da moto, deu partida e rumou de volta para casa. A noite já estava firmada, o trânsito tranquilo. Danilo se dividia entre a vontade de chegar logo em casa ou então rodar o mais devagar possível para pensar em tudo o que estava acontecendo.

A pequena raiva que sentira de Cátia pouco antes de deixá-la, havia se transformado em arrependimento. Ela estava certa. Ele era o mentiroso. Por que não podia contar a verdade? Por que não dizer à namorada que estivera realmente num motel com a outra, mas que não havia, nunca houve e nem haveria nenhum envolvimento entre os dois?

Por que não contar a ela exatamente a mesma surpresa que ele teve quando recebeu o convite de Suélen naquele dia?

Sentiu vontade de dar meia volta. Sentiu mais que isso. Sentiu que estava sozinho no mundo, que precisava de alguém em quem confiar, para quem poder dizer o que realmente havia acontecido, o que estava acontecendo. Nem mesmo para a pessoa que mais amava ou, na verdade, para ela, podia ele falar de si, dos fatos.

Seus pais estavam preocupados e o receberam com alegria no portão. Os pais eram amigos, podia se abrir com eles. Mas nem isso conseguiu. Não sabia porque, mas assumira firmemente um compromisso com Suélen. Não iria contar nada a ninguém, enquanto não pudesse falar com ela, saber das suas razões, das suas verdades.

Continua… em breve

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