Quem nunca levou um galho que levante o chapéu (Leia)

Quem nunca levou um galho que levante o chapéu

André S. B. (2000) – São Paulo – SP

Transcrito por Anna Riglane

Seu Paschoal, dono da melhor padaria do bairro, usa sempre um chapéu que deve ser para esconder os galhos que anda levando… só que ele não tem a menor desconfiança disso, tão empenhado que vive com os seus lucros no estabelecimento.

Dona Zelinha, esposa do Seu Paschoal, professora, e agora, diretora da escola estadual, deu uma trepada tipo rapidinha com um diretor, na sala do almoxarifado, isso quando ela tinha 23 anos, três de casada, e estava ainda começando a dar aulas.

Dona Zelinha jura que aquele lance só aconteceu porque o diretor, um conquistador inveterado, a pegou de surpresa num dia em que ela estava muito chateada e triste por causa de uma briga com o marido. Jura que foi só aquela vez e que se arrependeu muito, a ponto de quase contar para o marido. E só não contou porque o que ele mais falava era que se soubesse de alguma traição, matava os dois.

Mas como é que eu sei de tudo isso?

Sei de tudo isso porque agora, com 37 anos, Don Zelinha está novamente colocando galhos no Seu Paschoal.

– É uma coisa difícil de compreender. – ela diz. – A gente casa cheio de paixão, imagina que vai ser assim a vida inteira, mas aí acontecem essas coisas de traição… e o pior é que daqui uns tempos, quando estivermos mais velhos, vamos continuar juntos, sossegados, e ele nunca vai saber que já foi traído muitas vezes.

– Nem você, não é?

– É… acho que sim. Nunca vi nada demais, mas sempre fiquei meio com a pulga atrás da orelha com aquelas moças que trabalham ou que já trabalharam na padaria dele…

– Ele com as moças sobre aqueles sacos de farinha… imagine o pão que muita gente tem comido.

– Nem me fala uma coisa dessas, menino.

Dona Zelinha me chama de menino, mas nem sei se é um elogio ou se é porque ela me acha mesmo um menino, mas tenho 32 anos de idade, apenas cinco a menos que ela, tenho um pequeno negócio no bairro e um grande negócio que ela adora. Mas essa parte eu conto mais logo.

Antes vou falar dos sacos de farinha, que não é exatamente uma invenção, mas, sim um caso contado pela Nayara, gerente da padaria na parte da manhã… e que ando comendo, mas só de vez em quando, porque ela é casada, tem uma filha, o marido vive de marcação, e das duas coisas que ela não quer, uma é estragar o casamento, a outra é perder o emprego na padaria. Diz que não ganha lá muito bem, porque o patrão é pão duro, mas é perto de casa, faz o que gosta e, além disso, consegue deixar a criança com a mãe nalgumas tardes e, assim, passar algumas horas comigo num motelzinho não muito longe daqui.

Antes que surjam indignações, deixa eu esclarecer que conheço, e como, a Nayara desde os tempos do colégio e só não fui o primeiro porque um tio dela sem vergonha pegou antes, na força. E foi nessa de consolar a menina que… as primeiras vezes foram só para tirar o trauma, mas depois, depois… faz uns quinze anos, ela namorou, casou. Sei lá se não é apenas por gratidão que ela transa comigo… mas acho que não é não. Ela gosta.

Bom… a Nayara me conta que o Seu Paschoal pode ser pão duro, ranzinza, só pensa em ganhar dinheiro, tem um medo desgraçado que lhe roubem alguma coisa na padaria, mas no que se refere ao casamento e à moral, é o que se pode chamar de homem perfeito. Perfeito até demais, na verdade, chega a ser chato e injusto.

– Pra você ter uma ideia, ele mandou embora a Silvana e o Duarte só porque…

– A Silvana, aquela balconista moreninha?

– Ela mesma, e o Duarte, um dos padeiros.

– Poxa! Por isso é que nunca mais a vi por lá. Mas o que eles fizerem, desviaram dinheiro, roubaram…?

– Treparam.

– Treparam? Mas, o que tem o Seu Paschoal a ver com isso? Ele comia ela, por acaso?

– Claro que não! Não estou falando que o homem é um puritano, um certíssimo? Ele não faz nada de errado e também não quer que ninguém faça, principalmente dentro da sua padaria.

– Vixe! A coisa foi lá? Mas ela não era casada, era?

– Ela não, só tinha um namorado, mas o Duarte é casado.

– Me conta essa história, vai!

– Mas não é o que estou fazendo? Então… eu sempre chego na padaria por volta das cinco e meia, por aí, o restante do pessoal chega por volta das seis horas, quando abre a padaria. Mas o padeiro, como precisa já deixar o pão pronto, faz o turno das dez da noite às seis, passa a noite na padaria, entendeu?

– Sim… e onde entra a Nayara nessa história?

– Ela devia entrar às seis, também, chegar um pouco antes. Mas, um dia, por ter pegado uma carona com o meu marido, cheguei na padaria bem antes do meu horário, entrei normalmente pela portinha lateral, que não faz barulho, ouvi uns gemidos estranhos… quer dizer, estranhos ao ambiente, fui até a sala de estoque, e o que vejo…?

– O estoque.

– Gracinha! O que eu vi foi a Nayara deitada sobre os sacos de farinha com as partes íntimas expostas e o Duarte em cima dela.

– Jesuis! Imagino o sufoco. Mandou embora no ato.

– Eu não. Jamais faria isso, só pedi que procurassem outro local, fora da padaria. Mas o que eu não sabia, o que ninguém sabia, é que o miserável do Seu Paschoal tinha mandado instalar câmeras, com medo de ser roubado, e todos os dias ele conferia os vídeos. Por pouco não me manda embora também, por eu ter encobertado o caso.

– Que história!

– Pra você ver… mas agora… mais uma ou me preparo para ir embora?

– Embora, é… deixa eu passar um gelzinho no bruto, vai virando aí… quer de quatro…?

De quatro é a posição que a Nayara mais gosta, como gosta também de umas enrabadinhas, coisa que não faz com o marido porque ele acha que isso não fica bem para uma mulher direita.

Então… se ele não gosta… como eu.

(…)

Mas falando em história… quer dizer, deixando a história da trepada nos sacos de farinha e falando da Dona Zelinha, cujo nome é Zélia, mas que tem esse apelido por ser pequenininha, bundudinha, gostosinha, certo que a conheço de muito tempo, mas conhecer, conhecer mesmo, foi depois que ela virou diretora e, cheia de disposição para transformar a escola, fazer reformas, instalar equipamentos de internet… me contratou.

– Tenho uma verba que foi concedida para instalar equipamentos na escola, mas ao invés de contratar uma dessas empresas de grande porte, prefiro dar para alguém do bairro…

– Prefere, é?

E já começamos mal, pois ela não gostou muito da brincadeira insinuante que fiz, não falou nada, mas mudou de assunto, tratou de entrar logo nas questões do negócio, dos serviços, dos horários para eu trabalhar, e uma semana depois, estávamos tratando dos detalhes.

– Mas os trabalhos não podem ser feitos com a escola em funcionamento, com os alunos por lá.

– Então… ou fazemos durante a noite, ou nos finais de semana, ou esperamos as férias.

– Esperar as férias não posso, tenho urgência, fazer à noite também não posso, o marido não vai gostar nem um pouco, só restam os finais de semana.

– Mas espere aí… quem vai fazer o serviço sou eu, você não precisa estar junto.

– Como não? Que graça tem tu fazeres sozinho?

Confesso que não entendi nada.

Uma semana antes a mulher tinha me ignorado por causa de uma brincadeira que eu havia feito, pensei até que eu nem me fosse mais dar o serviço, e então, uma semana depois, ela me vem com essa indireta direta…

Ou era eu que estava entendendo errado?

Arrisquei mais uma vez.

– Se você quiser fazer comigo..

– Esteja na escola sábado de manhã e a gente conversa.

Acho que entrei meio em parafuso, até evitei ir tomar cerveja na padaria naquele dia, com medo que o seu Paschoal me olhasse torto, mas fui nos dois dias seguintes, quinta e sexta, só par olhar a cara dele… olhar e pensar que eu ia comer a mulher dele.

Mas será que eu ia comer mesmo?

Ainda tinha as minhas dúvidas quando, no sábado de manhã, juntei algumas ferramentas e fui para a escola. Logo vi que tinha mais gente e que eu não ia comer nada, mas o pessoal que estava lá era apenas alguns entregadores com quem ela havia combinado de levarem os equipamentos mais caros só no sábado. Estavam até bronqueados por causa disso e logo foi embora.

Mal saíram, e a Dona Zelinha me chamou a caminhar com ela, me mostrando a escola, até que chegamos numa sala bem no final de um longo corredor, e que estava abarrotada de tranqueiras.

– Foi aqui. – ela disse.

– Foi aqui ou vai ser aqui? – perguntei, pensando que ela estava falando do local que eu devia transformar em sala de informática.

– Se quiseres, pode ser aqui mesmo, mas tenho um local melhor… a minha sala.

– Na sala da diretoria… mas vamos instalar na diretoria?

– Instalar o quê, menino?

– Como assim, instalar o quê? Não viemos aqui para instalar equipamentos de informática?

– Você veio, você vai instalar, mas eu vim para outra coisa.

– Que outra coisa?

– Bom… quando eu disse que foi aqui, nessa sala, eu estava me referindo à primeira e única vez que traí o meu marido, há muito tempo atrás…

– Anh!?

– Mas quando falei que pode ser lá sala da diretoria, estou falando da segunda vez que vou trair o meu marido.

– Segunda vez… você vai trair… mas porque está me contando que traiu e que vai trair.

– Porque tu vai me ajudar. Sozinha eu não consigo trair ele.

– Você é doidinha. – falei.

– Acho que sou… não sei… mas não me faça juízo agora, me faça amor, eu preciso, e muito. Prometo que depois conversamos, e te explico tudo.

– Mas aqui não tem sacos de farinha. – brinquei.

– Mas tem um sofá lá na minha sala… vamos!

Ainda dividido entre a surpresa e a incredulidade, acompanhei a Dona Zelinha até a sala da diretoria e, se eu pretendia começar o serviço naquele dia, tive de esquecer, porque pela manhã toda eu tinha outros serviços pra fazer, muito mais urgentes, muito mais prazerosos.

A mulher estava realmente muito necessitada, até parecia que fazia anos que não via um pau, que não pegava na mão, que não chupava, que não engolia na xana… começou se oferecendo para um papai e mamãe, logo ficou de cavalinho por cima de mim, gozou duas vezes, quis de quatro… e só quando estávamos naquele longo descanso, esperando voltar as energias para recomeçarmos, é que ela me contou da sua primeira e única transa com o diretor, logo no começo de casada, e também que não tinha nem ideia de voltar a trair o marido, mas que se viu tentada, depois que falei aquela brincadeira dela dar par alguém do bairro.

– Na hora me deu raiva de ti, mas depois fui sendo dominada por pensamentos ruins, fui me envolvendo com ideia…

– Vou demorar uns três anos para terminar toda a instalação. – eu falava.

Ela saiu da escola por volta da uma hora da tarde e eu saí uma hora depois, só para disfarçar.

Esse é o horário em que costumo fechar a minha loja de informática e ir até a padaria comer um bom almoço, tomar cerveja, ver a Nayara, que já está quase no horário de sair, conversar com os amigos, com o Seu Paschoal… mas, não sei exatamente porque, naquele sábado preferi preparar uma comidinha em casa, ficar longe do homem.

Vai que ele levanta o chapéu e a coisa aparece!


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