Suélen… O bárbaro segredo de uma menina linda e meiga, assassina e inocente – Partes 6/15 (Leia)

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Anna Riglane

Suélen… O bárbaro segredo de uma menina linda e meiga, assassina e inocente – Partes 6/15 (Leia)

À dor que cada um de nós carrega em silêncio

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 ÍNDICE

A vida não tem índice, não tem sumário, não é dividida em capítulos, os acontecimentos não são estanques e tudo é uma sucessão de fatos alegres, tristes, tristes, alegres… que vão se entrelaçando.

Difícil entender a vida, como difícil é, também, compreender ou até mesmo saber os segredos que cada um carrega.

 



Parte 6

 

Não foram muitas as vezes em que puderam se entregar um ao outro dessa maneira.

Talvez até conseguissem lembrar-se de cada uma dessas vezes. Mas sempre se amaram. Antes ou, mesmo depois, da primeira vez, aprenderam e acostumaram a dar prazer um ao outro apenas através de suas carícias.

Danilo gostava de masturbar Cátia, depois que esta perdeu o medo, e gostava também de ser masturbado pelas delicadas mãos da namorada, por sua boca.

Por isso é que, mesmo estando num motel, na cama, como dizia a mãe de Cátia, ainda assim não abriam mão dessa parte tão gostosa do amor.

Cátia, depois que sua última peça de roupa foi pousar no chão, junto com as demais, ajeitou-se no meio da grande cama e esperou pelo amor de Danilo, pelos seus lábios, sua língua.

Seu sexo latejava, pedia para ser tocado, beijado, e o namorado a atendia.

Depois faria o mesmo para ele, colocaria em sua boca o sexo do namorado, extrairia dele todo o prazer que lhe sujava a boca, o rosto, os seios.

Mas antes era ela quem receberia o calor, quem daria gemidos incontidos do mais puro êxtase, quem unharia as dobras do lençol, as costas do parceiro, quem puxaria seus cabelos como a querer engoli-lo todo em seu sexo.

O gozo de Cátia era o gozo de Danilo.

O rapaz gostava de ver a namorada naquele estado de quase morta, ofegante, puxando-o para cima do seu corpo, pedindo para parar, para deixá-la descansar.

Cátia descansava.

Danilo observava a companheira, a menina que amava, a única menina que teve.

Logo seria sua vez.

Deram-se várias vezes naquela tarde.

Depois daquelas carícias e dos orgasmos iniciais, ainda tinham energia para muito mais prazer, prazeres.

Danilo iria penetrar Cátia, cavalgar seu corpinho de menina.

Cátia iria cavalgar Danilo, brincar sobre ele, sentir seu membro pulsando em seu ventre.

Iriam repetir infinitas vezes que se amam.

Suélen, em nenhum momento disse a Danilo que o amava. Não se diz “eu te amo” para alguém que se está usando.

– Em qual motel vocês estiveram? – perguntou Cátia, num daqueles momentos em que tudo parece estar longe, quando o corpo parece esvair-se sem mais nenhuma energia.

– Quem? – respondeu Danilo, um tanto surpreso, mas ao mesmo tempo sentindo-se traído pelos seus próprios pensamentos, como se a garota os tivesse adivinhado.

– Pode falar! – insistiu ela. – Eu não me importo. Não ligo se você esteve com ela aqui, nesse mesmo motel, nessa mesma cama. O que me importa é saber que você me ama, é meu, e que com ela foi apenas uma aventura.

Danilo sentiu que aquele era o momento para falar toda a verdade, mas não sabia o quanto iria se arrepender depois por não tê-lo feito, por não ter a coragem de olhar de frente para o rosto lindo e meigo de Cátia e dizer que estivera com outra numa cama, ainda que essa outra não lhe tivesse trazido nenhum prazer maior que o de uma masturbação.

– Nunca fui com nenhuma outra menina a motel algum. – disse ele, de modo enfático, como a querer apagar de vez as dúvidas de Cátia.

– Não prefere falar a verdade? – insistiu ela, mais uma vez.

E mais uma vez ele perdeu a oportunidade.

– Essa é a verdade. Esquece aquela menina. Nunca tive nada com ela, não tenho culpa pelo que ela fez e não vou estragar minha vida mais do que já está estragada, só por causa da esquisitice dela.

Cátia ainda aceitou amá-lo mais uma vez naquele dia, antes de ser conduzida novamente para casa. Aceitou recebê-lo em seu corpo, mas já não sabia dizer se havia o mesmo desejo de antes nessa aceitação.

Talvez o seu menino já não fosse mais tão seu, por mais que ele insistisse em falar o contrário.

Na semana seguinte, depois de um mês desempregado, ao mesmo tempo em que arranjara um novo emprego, com a ajuda de seu tio, Danilo era chamado a depor na delegacia.

Estranho, pensava ele, que só haviam tomado seu depoimento informalmente, no dia do crime, que depois o chamaram para a reconstituição e que só então é que o chamavam a depor oficialmente, depois de tanto tempo.

Teria Suélen resolvido falar a verdade?

Fosse assim, a polícia sabia da sua participação e as coisas podiam se complicar para o seu lado.

Estranho, como aquela sua vontade e força inicial de contar tudo, de repente havia sumido. Bastou pensar em ser preso para mudar completamente sua opinião, perder sua coragem.

O fato é que pilotou sua moto até a delegacia sem ter mais a certeza de que o melhor seria revelar toda a verdade e assim livrar Suélen de uma incriminação que, na verdade, ela não devia, pelo menos não devia sozinha, e muito menos da maneira como havia declarado à polícia.

Por outro lado, a frieza com que Suélen o tratou naquele dia na casa, sem lhe dar a mínima atenção, já havia provocado no garoto um certo sentimento de aversão pela menina, ou pela sua conduta.

Mesmo que descontasse a imensa pressão psicológica que ela devia estar sentindo naquele dia, ainda assim ficava difícil não considerar sua frieza.

Mas topou com ela na delegacia.

Por alguns instantes esteve frente a frente com Suélen, ali no corredor, enquanto aguardava. A menina estava sendo conduzida por um policial, algemada com as mãos para trás, cabeça baixa.

Danilo não resistiu e a chamou pelo nome.

– Suélen!

Desta vez ela levantou a cabeça, sorriu, deixou sair algumas palavras, ainda que abafadas, enquanto o policial parava sua marcha e a deixava em contato com o rapaz.

– Oi! – tentou sorrir. – Como você está?

– Eu estou bem mas…

Suélen o interrompeu.

Porém, mesmo que não fosse ela, a própria torrente de pensamentos de Danilo o fez parar.

Estava para dizer que precisavam conversar, esclarecer as coisas direito, dizer que queria ouvir dela as razões porque se negava a contar a verdade.

Mas sabia que não podia falar tudo aquilo na frente do policial e das demais pessoas que estavam ali, que pararam para ver a menina, o reencontro dos dois.

Pessoas que ele nem sabia quem eram.

Por isso, até agradeceu quando Suélen o fez parar.

– E a Su e a Samanta?

Da mesma forma que Danilo costumava abreviar o nome de Suélen para Su, ela também abreviava o nome da irmã Suzana, exatamente a irmã que parecia lhe causar maiores preocupações.

A irmã que fizera aniversário alguns dias antes, sem festa alguma. Pelo menos era assim que ele imaginava.

– Não sei. – respondeu Danilo, como que a pedir desculpas por não saber das meninas. – Mas justificou-se. – Não me deixam vê-las.

Sabia que isso era uma mentira. Mas sabia também que era mentira apenas em parte, pois pensara nas meninas, apenas não tentou encontrá-las por saber que não iriam permitir nenhum encontro.

Diante do olhar triste de Suélen, pensou em tomar seus ombros, beijar-lhe a face, mas o policial a afastou, conduzindo-a para detrás de uma porta, para uma cela, com certeza.

Em seu depoimento não foi feita nenhuma pergunta que já não havia sido feito antes. Não havia nada de novo, o que indicava que Suélen continuava irredutível no seu desejo de manter aquela versão dos fatos que havia criado desde o momento do crime.

Mais uma vez, diante do delegado, Danilo sentiu vontade de falar tudo. Mas temia. Porém, não sabia mais se temia pelas razões de Suélen ou por razões próprias, pelo medo de ficar preso.

Não disse nada.

Ao sair, quando já estava dando partida na moto, no pátio da delegacia, ouviu chamarem seu nome.

Era o mesmo policial que antes estava conduzindo Suélen.

     O homem se apresentou como investigador Odair e perguntou se Danilo podia conversar com ele um pouco, mas não naquele local.

– Vamos tomar uma cerveja juntos. – disse o homem. – Hoje não, porque estou de plantão, mas amanhã à tarde… à noite.

– E sobre o que vamos conversar? – perguntou Danilo.

– Não é nada formal. – disse o investigador. – É que eu sinto que há alguma coisa estranha nesse caso, algo que não foi revelado, que não querem revelar, entendeu?

Se entendia?

Com certeza Danilo entendia mais que ninguém, exceto talvez a própria Suélen. Mas não se arriscou a ir em frente, a abrir o jogo, não sabia das intenções do homem.

Marcaram o encontro, uma padaria próxima ao local da casa de Suélen, ou da antiga casa de Suélen e também dele próprio. Marcaram para o cair da noite do dia seguinte, após o horário de serviço de Danilo.

Não queria ficar faltando no seu novo emprego, ainda que fosse um emprego apenas do tipo quebra-galho, pois ganhava muito menos que no anterior e sequer tinha registro em carteira.

Mas como já havia faltado naquela tarde, aproveitou para ir até o emprego de Cátia, pensando em oferecer-lhe uma carona até sua casa. Perdeu a viagem. Informaram-lhe que ela já havia saído de carona com alguém, provavelmente com uma colega.

Rumou então até a casa da namorada, esperando, talvez, chegar lá antes dela, pois que de moto andava muito mais rápido no trânsito.

E de fato chegou antes, mas a mãe de Cátia lhe informou que ela não estava vindo para casa, pois havia marcado com uma colega de serviço para visitarem uma outra colega que acabara de sair da maternidade.

Um tanto frustrado, ofereceu à mulher o telefone da casa do tio, onde estavam morando, e também do seu serviço, este apenas para recado. Pediu que Cátia ligasse para a casa de seu tio assim que chegasse, pois precisava muito falar com ela.

Despediu-se da mulher e foi para casa.

Esperou ansiosamente até por volta das onze horas, horário em que seus tios costumavam dormir, mas ninguém ligou.

Mas por que lhe acendera aquela vontade imensa de falar com Cátia?

Sabia que tinha necessidade de vê-la, que gostava dela, mas a razão dessa sua vontade era outra. Precisava falar do seu pequeno encontro com Suélen.

Ligou para o emprego de Cátia na tarde seguinte. Ela o atendeu com alegria, e pedindo desculpas por não ter ligado na noite anterior, pois chegara muito tarde e achou que iria incomodar seus tios.

– Mas onde a moça foi para chegar assim tão tarde? – perguntou Danilo, em tom de brincadeira.

– Nem foi tão tarde, acho que era uma dez horas. Sabe como são essas visitas, uma quer conversar, outra quer contar as novidades, tem café, bolo. A gente vai sair nesse fim de semana? – pergunta repentinamente, como querendo mudar o rumo da conversa.

– Acho que sim. – responde Danilo. – Se você quiser.

– Mas claro que quero.

– Mas porque só no fim de semana? Não posso nem mesmo ir na sua casa?

– Mas claro que pode, seu bobo. Aliás, deve. Mas isso não é sair. Você vem hoje? – pergunta.

Ele então explica que não, que há um investigador de polícia querendo falar com ele sobre Suélen.

– Eu a vi hoje, mas não conseguimos conversar. Ela só perguntou das irmãs.

– Sei. – diz Cátia, demonstrando pouco interesse na conversa.

Danilo percebe, e resolve mudar de assunto, desligar, dizer que depois conversavam melhor. Mas é Cátia, então, quem resolve continuar no mesmo assunto.

– E era por isso que você estava tão aflito em falar comigo? – pergunta. – Para falar dela?

Depois de algumas palavras evasivas e outras pequenas trocas de acusações, Danilo desliga, dizendo que daquela maneira não seria possível continuar a conversar.

Mais tarde vai ao encontro do investigador.

Era uma sensação estranha estar ali, tão perto do lugar onde nasceu e cresceu. Mas aquelas ruas e aquela padaria agora pareciam longínquas para Danilo, num outro mundo.

Foi reconhecido na padaria, cumprimentado, mas ninguém fez qualquer pergunta sobre o caso.

Por sorte, logo o investigador Odair chegou, sentando-se ao seu lado.

Pediram cerveja.

– Se quiser um lanche, pode pedir. – disse o investigador. – É por minha conta. Sei que sua situação financeira não deve ser das melhores, depois de tudo que houve.

– É – suspirou Danilo. – Meus pais estão aguardando ainda o dinheiro da rescisão do contrato. O advogado do tio de Suélen é quem está cuidando disso. Mas ainda não estamos passando fome. Minha mãe me espera para jantar.

– Então me diga o que foi que aconteceu exatamente naquela casa, naquele dia? – pergunta Odair, demonstrando querer ir direto ao assunto.

– O que houve é o que todo mundo sabe.

– Você conhecia muito bem aquela garota, não conhecia?

– Claro! Ou pelo menos eu pensava que conhecia.

– Mas vocês não eram namorados.

Essa afirmação pega Danilo de Surpresa e ele não sabe exatamente o que dizer.

Se confirmasse, então ficaria claro para o investigador que a história contada por Suélen não era exatamente aquela que constava dos autos oficiais.

Se negasse, perderia mais uma vez a chance de começar a esclarecer definitivamente a estranha situação que Suélen havia criado.

Preferiu encontrar outra saída.

– Posso saber por que exatamente você ou o senhor…?

– Pode me chamar de você. Tenho apenas quarenta e oito anos.

– Certo. Mas posso saber o porquê dessa conversa?

– Você está escondendo alguma coisa, não está? – pergunta o investigador.

– Sou obrigado a responder?

– Não! Claro que não. Da mesma forma que também não sou obrigado a te perguntar. Isto não é um interrogatório. Eu podia muito bem estar em minha casa agora, junto da minha mulher, dos meus filhos. Tenho duas filhas, sabia? E gosto muito delas. São dois tesouros que tenho e faço tudo por elas.

– Meus pais também gostam muito de mim. – diz Danilo, enquanto bebe um longo gole da cerveja gelada.

– Os pais sempre gostam dos filhos. – diz o investigador. – Tanto gostam que podem até mesmo tomar certas atitudes que contrariam a vontade dos filhos. Mas os pais sabem o que é bom, e por isso tentam proteger seus pequenos. Infelizmente, chegam a proteger demais e acaba acontecendo coisas como o que aconteceu com essa menina. Com ela e com alguém mais que estava junto com ela naquele dia.

– Eu estava com ela naquele dia.

– Na hora do crime?

– Não.

Só Danilo podia entender o quanto era grande sua vontade de ter dito sim, mas continuava na dúvida sobre o ponto onde o investigador queria chegar.

Mas o homem parecia entender muito mais da situação do que ele supunha. Talvez Suélen tivesse dito algo, mesmo que não intencionalmente.

Odair tomou da sua cerveja e depois falou calmamente, enquanto olhava para a rua.

– Aquela menina precisa de um pai. Precisa de uma mãe, de um amigo, de alguém que a entenda.

– Por que está dizendo isso?

– Você não tem vontade de entendê-la, protegê-la, fazer alguma coisa por ela?

– Sinceramente, eu não sei.

– Que belo namorado é você então! Não é mesmo?

Danilo havia caído na armadilha que o homem preparara com as palavras. Tentou consertar as coisas, inventando uma mentira.

– Talvez um namorado abandonado. Nos últimos tempos a gente…

– Será que ela o abandonou quando descobriu que você tinha outra? – interrompeu o investigador.

– Que outra?

– Uma tal de Cátia, por exemplo?

O investigador Odair não era páreo para a inteligência de Danilo. Não que o rapaz não fosse inteligente. Era até demais. Mas acontece que a longa experiência de Odair o fazia, por assim dizer, tirar leite das pedras. Por isso ele conduzia a conversa de forma a obter certas verdades mesmo quando estava ouvindo mentiras.

Talvez, ou provavelmente, tivesse usado essa mesma experiência com Suélen e tinha assim obtido da menina confissões que não constavam das anotações oficiais.

Mas essa mesma experiência do investigador o fez parar com as perguntas, encerrar a conversa, mudar de assunto. Percebera, provavelmente, que naquele dia não iria conseguir arrancar mais verdades de Danilo ou, então, as que tinha arrancado já eram suficientes, pelo menos por enquanto.

Mudou de assunto, mas não deixou de plantar uma semente nas reflexões de Danilo, uma semente destinada a germinar, crescer e dar frutos em momentos seguintes.

Falou, com voz pausada, e ainda olhando para a rua, enquanto segurava na mão o seu copo.

– Aquela menina não é uma assassina. Não é ruim. Não é cruel. Não deve ter feito tudo aquilo por causa de uma simples paixão boba. Muito menos uma paixão por alguém que é dividido por outra. Mas não vamos mais falar sobre isso. Você conheceu Suélen muito melhor do que eu. Se alguém pode saber de tudo isso que estou dizendo é verdade ou não, esse alguém e você. Seus pais e até mesmo as irmãs dela também poderiam, mas você é quem sabe mais. Mas se você não quer ir a fundo para entender tudo isso, não sou eu quem vai te obrigar.

Você está enganado. – pensava Danilo. – Quem mais poderia conhecer Suélen se não ela própria ou, então, suas irmãs? Suzana, talvez. – pensava.

Decidiu ir embora. Não tinha mais nada a conversar com o investigador, nem esse parecia interessado em fazer mais perguntas ou afirmações que confundiam sua cabeça.

Pilota de volta para casa, tenta pensar em tudo, raciocinar sobre a conversa com o policial, a certeza daquele homem de que Suélen não estava falando a verdade.

Mas o pouco de cerveja que havia tomado deixa seus pensamentos leves e sem coordenação. Tudo passa e acontece ao mesmo tempo, a noite, o trânsito, uma pequena garoa, talvez mais uma névoa que tenta desfazer aquele ar seco do inverno já adiantado da cidade grande e poluída.

Sentir os pensamentos vagar sem coordenação pode ser algo agradável quando se tem algum tipo de peso, principalmente quando esse peso vem na forma de um pensamento fixo que não se consegue afastar e muito menos dominar.

E o seu pensamento era Suélen.

Já havia se arrependido alguns dias antes por não ter percebido a mudança de Suélen quando se fez moça, quando deixou de ser aquela moleca sapeca que vivia invadindo sua casa em busca dos doces que sua mãe fazia, para então se transformar em alguém frio, distante.

Por que não notara essas mudanças em Suélen?

Agora tinha mais uma razão para se arrepender.

Também nos últimos dias chegou mesmo a pensar que se Suélen estava lá presa, e se fosse ficar pelo resto da sua vida, isso era problema dela, e não seu. Chegou a acreditar que Suélen devia ter suas boas razões para querer eliminar os pais, que tramou tudo aquilo, armou aquela saída com ele, e nem precisava ser num motel.

E até mesmo acreditou que ela esperava contar com sua ajuda na hora de dar fim aos pais.

Mas não conseguiu acreditar nisso por muito tempo.

O mistério de Suélen era maior do que o medo que ele próprio sentia de confessar a verdade e ficar preso também, tal como ela.

Arrependia-se por não ter tido a coragem de falar a verdade, nas várias vezes que teve oportunidade.

Ainda tinha oportunidade, faltava a coragem.

E agora vinha aquele homem, um senhor de olhar calmo, de voz inteligente, que faz perguntas certeiras.

Mas esse homem não estava odiando Suélen como todos estavam. Não estava usando suas palavras inteligentes para incriminar ainda mais a menina. Pelo contrário, tentava arrancar dela ou de alguém ligado a ela, a verdade salvadora.

Mas que verdade era essa?

A duas quadras da casa de seus tios, agora sua casa, havia uma pequena padaria, um balcão, uma dose de conhaque puro, virada quase que de uma única vez, queimando a garganta, ferindo o mais fundo da alma.

Que seus pensamentos voassem mais descoordenados do que já estavam.

Danilo precisava disso.

Ainda teve tempo de pilotar os dois quarteirões faltantes e guardar a moto na mesma garagem onde o tio guardava o carro, antes que a bebida começasse o seu efeito devastador, curador.

Sua mãe percebeu seu estado, enquanto procurava auxiliá-lo com a preparação de um prato. Queria esquentar melhor a comida ainda morna, mas não insistiu muito. Sabia que o filho era assim mesmo, acostumado a fazer o seu próprio prato e não se preocupar muito com a temperatura do alimento.

Sentou-se com ele na mesa, contou que seu pai ainda não chegara e que estava trabalhando numa obra ali perto, assentando tijolos, ajudando na construção de uma casa.

Continua… em breve

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