Suélen… O bárbaro segredo de uma menina linda e meiga, assassina e inocente

Suélen… O bárbaro segredo de uma menina linda e meiga, assassina e inocente

À dor que cada um de nós carrega em silêncio

ÍNDICE

A vida não tem índice, não tem sumário, não é dividida em capítulos, os acontecimentos não são estanques e tudo é uma sucessão de fatos alegres, tristes, tristes, alegres… que vão se entrelaçando.

Difícil entender a vida, como difícil é, também, compreender ou até mesmo saber os segredos que cada um carrega.

Todos os direitos reservados

1

A vida consegue ser extremamente benevolente com algumas pessoas, e mais do que cruel com outras, e se existe um propósito nisso, bem que gostaríamos de descobrir.

Mas enquanto não descobrimos os propósitos da vida, escrevemos este livro, o primeiro, e, talvez, o único da nossa carreira de escritoras, pois não somos escritoras.

Não é um livro homenagem.

Nem é um livro agradecimento.

É um livro obrigação.

É um livro interrogação.

Obrigação para com uma pessoa que desde cedo conheceu a infelicidade, para não dizer as desgraças da vida, e mesmo assim empenhou a sua própria vida para que não tivéssemos nas nossas vidas a mesma sorte ruim.

Interrogação para com a vida, que escreve desgraças a quem apenas merecia ser feliz.

Devemos, sim, obrigação a essa pessoa.

E devemos, também, obrigação e agradecimentos ao nosso cunhado, Danilo, por tudo o que segue escrito… e vivido.

Suzana e Samanta

Maio de 2018

2

Era uma sexta-feira, dia 5 de maio do ano 2000.

A tarde de outono daquele dia logo seria substituída por mais uma noite de clima seco e abafado.

Os olhos de Danilo lacrimejavam, um tanto pela poluição acumulada sobre a grande cidade naqueles dias, quando o fenômeno da chamada inversão térmica impede que os poluentes se dissolvam com mais facilidade no ar, outro tanto devido à própria poeira da rua que se acumulava em seu rosto, depois de rodar praticamente o dia inteiro sobre sua moto, fazendo entregas de um canto a outro da cidade.

Usava capacete, mas como a viseira havia se partido e não pudera comprar outra, via-se na contingência de receber em sua face toda a poeira e fuligem, expelidas por veículos diversos, todos os dias.

Mas não reclamava.

Apesar de tudo, gostava do seu trabalho.

Fazia mais de ano que trabalhava como motoboy para uma das empresas do dono da casa onde morava.

Na verdade, o homem, Doutor Sérgio, era também patrão de seus pais, fazia anos; o pai como motorista, a mãe como empregada doméstica.

Danilo gostava de rodar pela cidade com sua moto, comprada com certo sacrifício e um tanto a contragosto dos pais, pelo perigo que representava, tanto pelo trânsito em si, quanto pela possibilidade de assaltos.

Mas ele se dizia um tanto mais cuidadoso que a maioria dos que exercem essa mesma profissão, e se gabava de nunca ter sofrido nenhum tipo de acidente, nem tampouco ter se indisposto com um ou outro motorista pelas ruas.

Preferia fazer seu trabalho de forma mais responsável.

Só lamentava um tanto o salário.

Chegava aos vinte anos, planejava ir para a faculdade, mas sabia que mesmo juntando os três salários, o seu, o de seu pai e da sua mãe, ainda assim não seria fácil arcar com esse tipo de despesa.

Fazia contas e planos, contava com o apoio dos pais, mas… no ano vindouro, talvez.

Desligou o motor da moto ainda no meio do quarteirão, como costumava fazer, deixando que o veículo completasse o caminho impulsionado apenas pela força da inércia e da gravidade, pois estava num declive.

Passou pelo vigia que ficava na guarita da esquina e se dirigiu para o portão de serviço que dava acesso à grande mansão. Abriu a fechadura e empurrou o portão com a roda dianteira, adentrando o quintal.

Fechou com a chave o portão e impulsionou novamente a moto, com os pés.

Todo esse procedimento, com o motor da moto desligado, era para não chegar fazendo barulho, pois acreditava que o Doutor Sérgio não gostaria de vê-lo entrando e saindo com a moto, fazendo barulho, já que todos os veículos da casa eram carros luxuosos. Nunca ouvira nenhuma reclamação, mas de qualquer forma, agia dessa maneira muito mais por uma preocupação sua.

A moto não chegou a deslizar mais que cinco metros, quando Danilo teve de frear, por causa da figura que surgira à sua frente, praticamente fechando a estreita alameda cimentada e cortando o extenso gramado até a pequena casa dos fundos.

– Oi Danilo! – disse a moça, com voz suave e uma expressão de criança prestes a pedir alguma coisa.

– Oi Suélen! – retornou ele, um tanto surpreso, pois apesar da amizade que sempre os uniu, achou um tanto estranho a filha do patrão estar ali, no portão de serviço, como que à sua espera.

E de fato ela estava mesmo esperando por ele. Logo perguntou o que ele iria fazer, e quando ouviu ele dizer que estava a fim de um bom banho para tirar a poeira do corpo, foi mais surpreendente ainda.

– Me leva para passear!

– Passear?

E antes mesmo que ele terminasse de demonstrar seu embaraço ou sua surpresa, ela completou o seu pedido, enchendo-o com várias perguntas e dando suas próprias sugestões.

– Quero sair com você. Hoje, Agora. Podemos ia para qualquer lugar. Vamos jantar, sei lá…

– Mas jantar aonde? Eu não tenho dinheiro.

– Eu pago. É tudo por minha conta.

– Preciso tomar um banho.

– Você toma lá.

– No restaurante?

– Claro que não! Então me leva… me leva para um motel. – disse ela, encontrando uma saída rápida para o impasse que havia criado. – Lá você pode tomar banho.

– Como é que é? Espere um pouco, Su. Você está batendo bem da cabeça?

– Estou. Claro que estou. Mas também não pense… – interrompe sua fala, percebendo que se excedera em sua proposta. Depois retoma. – Podemos apenas ir lá, só isso. Você toma o seu banho e comemos alguma coisa, lá mesmo, jantamos. Entendeu?

– E por que ir lá, num motel?

– É que eu não conheço. É isso! Quero conhecer, mas só conhecer. Certo?

Por pouco o rapaz não argumenta que seria o mais correto então que ela fosse com o namorado. Mas parou a tempo, lembrando-se de que ela não tinha namorado.

Aliás, nunca vira Suélen com algum namorado sequer, mesmo já estando com dezoito anos.

Não tinha razões para dizer que como filha dos patrões ela não dava a mínima para ele, pois que sempre tiveram amizade, mas não conseguia entender o que estava passando na cabeça da menina para fazer tal convite.

Ela interrompeu seus pensamentos.

– E então? Vamos? Vamos no meu carro. Ele precisa mesmo andar um pouco, antes que fique sem bateria.

– Eu vou avisar minha mãe. – falou Danilo, ainda acreditando que a qualquer instante iria lhe cair sobre a cabeça uma das grandes folhas de palmeira ali existentes e fazê-lo acordar daquele sonho estranho que estava tendo.

Se ao menos tivesse tomado a cerveja que pensara em tomar antes de chegar, talvez pudesse acreditar que estava sob o efeito do álcool.

Mas estava perfeitamente sóbrio.

– Eu vou pegar as chaves e os documentos… e também o dinheiro.

Talvez fossem apenas dar uma volta. – pensava o rapaz, enquanto guardava a moto sob a cobertura ao lado da pequena casa, nos fundos do grande terreno, onde moravam, ele e os pais.

Talvez ela quisesse apenas fazer funcionar o carro que ganhara havia já algum tempo, mas que, nova na habilitação, ainda não tivera coragem de pegar para dirigir.

Avisou a mãe que ia com Suélen levar seu carro até o lava-rápido, engoliu às pressas um dos bolinhos de arroz que a mulher estava fritando, e foi ao encontro da menina, que já o aguardava, na porta da garagem.

Parecia um tanto ansiosa.

A mãe ainda o avisou de que quando voltassem talvez já não houvesse mais ninguém ali na casa, mas decerto ele não ouviu.

– Seus pais não vão bronquear com a gente? – perguntou Danilo, talvez suspeitando de que aquela vontade de sair de repente de casa tivesse alguma coisa a ver com eles, alguma desavença, talvez.

Ou seria algum capricho de Suélen?

– Claro que não! – respondeu a menina. Já avisei mamãe que íamos sair.

– Avisou que íamos sair?

– É. Falei que você iria me levar na casa de uma amiga.

– E onde é essa sua amiga? – perguntou o rapaz, já manobrando o carro na rua, enquanto o portão se fechava, sob a ação do controle remoto.

– Mas que amiga? – perguntou Suélen. – Não vamos para um motel?

– Está bem! – disse ele. – Vamos para um motel. Mas e daí… vamos fazer o que lá?

– Eu já não disse? Você pode tomar um banho, podemos lanchar ou jantar. Eu pago um belo jantar para você. E se você quiser… podemos transar, por que não?

Danilo não teve tempo de ficar surpreso ou admirado com essa proposta, agora feita de modo mais direto. Ao virarem uma esquina deram de frente com o carro que trazia o pai de Suélen, dirigido pelo seu próprio pai. Pensou em buzinar, parar para conversar, dizer qualquer coisa. Mas percebeu, pela aflição de Suélen, que devia seguir em frente, fingir que não os tivesse visto.

Também desistiu de perguntar à menina o que estava acontecendo de fato. Talvez a ideia de ter aquele corpinho bonito e gostoso na cama o tenha feito esquecer de procurar entender seja lá o que fosse.

Mas foi a própria Suélen quem começou a responder às dúvidas que o assaltavam e que ele não tinha coragem de perguntar.

– Não me chame de doida, não. Nem tente me entender. Depois eu te explico tudo. Por ora só quero que você me leve até lá e que tenhamos uma noite bem gostosa.

– Uma noite?

– Bem que eu queria. Mas pode ser pelo menos por algumas horas. Só quero voltar para casa depois da meia noite. Você faz isso, me traz para casa depois da meia noite?

– O que é agora… história de conto de fadas?

– Antes fosse. – resmungou a menina. – Mas está mais para contos de terror.

– Como é? – perguntou ele.

– Nada. Esquece! Vamos lá nos curtir um pouco, vamos! É melhor nem conversar muito.

Mas depois de algum tempo, foi ela própria quem recomeçou a falar.

– Minha irmã faz aniversário dia 17, sabia?

– Sei. Claro que sei. Por acaso não sei quando você, a Suzana e a Samanta fazem aniversário.

– Vai fazer 14 anos.

– É. E está tão bonita! Igual à irmã. – diz ele, acreditando que devesse mesmo fazer pelo menos um elogio para a garota que o havia convidado a ir para cama.

– Pois devia ser feia e horrorosa.

– De novo? O que está acontecendo? Tudo isso é raiva da irmã.

– Claro que não! Muito pelo contrário. Eu a amo demais.

– Então o que é?

– Nada. Nada. Só estou a fim de encher o saco. Não estou muito legal hoje.

– Percebe-se.

O que estava acontecendo com Suélen? – perguntava-se Danilo.

Conviviam, praticamente juntos, na mesma casa ou, pelo menos, no mesmo quintal. Brincaram juntos nos seus tempos de infância, mas não podia dizer que a conhecia direito.

Enquanto menina, ainda moleca sapeca, como o pai de Danilo costumava chamá-la, Suélen vivia pelo quintal, sempre chamando o garoto para brincar junto com ela e as irmãs, ainda muito pequenas.

Em tempos de calor brincavam na piscina, em outros tempos permaneciam em algum canto qualquer da casa.

Nunca houve nenhuma interferência na amizade entre eles, sequer pelos pais de Suélen, os patrões.

Na comemoração dos treze anos de Suélen, houve uma grande festa, e a casa ficou cheia.

Danilo pensou que estaria de fora, pois os convidados eram outros, gente da estirpe do Doutor Sérgio e de Dona Marina, ambos médicos com um certo sucesso na profissão.

Não haveria lugar para o filho do motorista e da empregada ali.

Mas foram convidados.

Em nenhum momento os donos da casa pareciam fazer esse tipo de discriminação, muito menos as meninas.

Como o Senhor Ricardo, pai de Danilo, costumava dizer, eram gente rica porém simples, não tinham orgulho no coração.

Naquele dia da festa, Suélen estava ainda mais linda do que sempre fora, e já se podia perceber em seu corpo as marcas de uma mulher em crescimento. Os seios, as pernas, as nádegas, tudo começava a ganhar forma de menina-moça.

Danilo não podia negar que, naqueles tempos, a mocinha Suélen chegou a ser objeto de seus desejos, motivos para suas fantasias.

Mas era a filha do patrão, rica…

Assim como o corpo, os interesses da menina também iriam começar a mudar.

No ano que se seguiu, os garotos da escola, da rua ou dos lugares que frequentava, começaram a se tornar mais importantes que as brincadeiras.

Mas nem por isso a amizade de Suélen para com Danilo havia diminuído.

Algumas vezes chegou até mesmo a fazer comentários sobre algum menino, uma paquera, coisas de garota enfim.

Danilo sentia-se feliz por participar desses pequenos segredos da garota, e com isso, acabou também substituindo eventuais desejos por uma amizade sincera.

Mas em algum momento qualquer tudo isso iria mudar.

Danilo não conseguia lembrar exatamente quando e nem como, mas sabia que alguma mudança havia ocorrido no modo de ser de Suélen.

Não que ela passasse a tratá-lo mal ou a ser indiferente, mas, sim, no seu próprio modo de ser, no seu semblante, nas suas palavras, muitas vezes evasivas, como aquelas que acabara de pronunciar ali, no banco do carro.

Mas ele nunca dera atenção a isso.

Interessado em sua própria vida, e também em suas próprias paqueras, apenas mantinha a amizade com Suélen, na forma como podem ser amigos a filha dos patrões com o filho dos empregados.

Apenas naquele momento, revendo e repensando as coisas passadas, é que Danilo se apercebeu de que nunca havia visto Suélen em companhia de algum namorado. Aqueles seus comentários dos tempos de 13 ou 14 anos haviam cessados, e ela nunca mais falara sobre meninos ou sobre namoro.

Será que já não se interessava por meninos?

Se assim fosse, então por que procurá-lo naquele dia?

Por que a ele e não a outro garoto qualquer?

Com os seus 18 anos, completados em janeiro daquele ano, a sua beleza ímpar, e as amizades que já devia ter feito nos seus primeiros meses de faculdade, ela bem que poderia ter à sua escolha qualquer menino.

Seria problema de timidez?

Mas se fosse, teria ela ficado tímida de repente? Quer dizer, da moleca sapeca que era até os 13 anos, teria, de um momento para outro, se transformado numa moça tímida, problemática?

Não! Por certo Suélen não era problemática, não tinha problemas de relacionamento, e nem mesmo era lésbica, pois se fosse não estaria querendo sair com ele e, sim, com uma menina.

– E a Cátia? – perguntou repentinamente Suélen, interrompendo os pensamentos de Danilo.

– Como é que é? – respondeu com uma pergunta o rapaz, um tanto surpreso por ela estar se lembrando da sua namorada naquele exato momento. Talvez ela tivesse mesmo alguma queda por meninas.

– Como assim, como é que é? – retrucou rapidamente Suélen. – Só perguntei da Cátia, sua namorada. Ou não se lembra mais dela?

– Mas claro que me lembro. Só que esse não é exatamente o melhor momento para lembrar dela, não acha?

– E por que não? Ela é tão bonita! Eu gosto dela.

– Certo. – disse o menino, agora já mais confuso sobre o que pensar da garota que estava ao seu lado, e que o havia convidado para sair. – Mas você está me levando para um motel e vai me fazer lembrar da minha namorada? – perguntou ele.

Mas Suélen mudou completamente o rumo da conversa.

– Ela é feliz com os pais dela?

– Claro que é? Por que? Você não é?

– Sou. Claro que sou. Por isso é que estou perguntando. Já disse que gosto dela, e então me interesso em saber. Quero saber se eles vivem bem, se não brigam com ela.

– Bom… brigar, eu acho que todo mundo briga. Até eu brigo com meus pais, mas são briguinhas bobas. Hoje briga, amanhã está tudo bem. Vocês também não são assim?

– Acho que somos. Sei lá!

– Como assim, sei lá? Você não sabe?

Realmente, Suélen não era mais aquela menina de alguns anos atrás, que ainda habitava a memória de Danilo.

Percebeu então que esteve ausente durante muito tempo da sua verdadeira companhia, a ponto de não notar por completo essas transformações.

Aqueles encontros casuais e superficiais no quintal ou mesmo quando iam todos para a chácara, deixaram de ser suficientes para que ele continuasse a conhecer a garota com quem cresceu junto.

De fato, tinha na lembrança que Suélen tratava bem e até demonstrava uma certa amizade por sua namorada Cátia, desde que a conhecera. Chegara mesmo a fazer convites para que algum dia ela fosse junto à chácara, mas isso nunca aconteceu.

Estaria ela interessada em sua namorada?

A cabeça de Danilo girava entre a atenção no trânsito e o matutar sobre esses pensamentos.

Mais uma vez Suélen o interrompeu.

– Qual foi a maior briga de Cátia com os pais dela, você sabe? – perguntou, depois de algum tempo, em que pareceu não ter dado a mínima atenção à pergunta que ele havia feito.

– Sei lá! – respondeu ele. – Acho que eles nunca brigaram de verdade.

– Os pais dela nunca pegaram no pé, por causa do vosso namoro?

– Que eu saiba não. Só a mãe é que ficou meio cismada quando descobriu que a gente já estava dormindo juntos.

– Dormindo juntos? – perguntou ela, como se não tivesse entendido o que ele estava querendo dizer.

– É. – respondeu ele. – Dormindo juntos, transando. Mas eu acho que ela nem ficou brava, apenas preocupada, com medo de acontecer alguma coisa.

– Que coisa?

– Sei lá! Gravidez, doença. Mas acho que não foi uma preocupação tão grande assim. Sabe como é, pai e mãe sempre se preocupam com os filhos. Principalmente com as filhas. – completou, rindo. – Por isso, eu acho que quando a Cátia contou para ela…

– Ela contou? Mas por que? Não é uma boba? Há quanto tempo vocês transam?

– Uma pergunta de cada vez, por favor.

– Conta como foi a primeira vez, a sua primeira vez.

Danilo diminuiu a marcha do carro e permaneceu um longo tempo olhando para Suélen, como a tentar entender ou, então, a perguntar o que estava passando na cabeça da menina, e por que aquele papo tão confuso.

Ela se embaraça e rejeita aquela situação.

– O que é? Vai ficar me olhando ao invés de dirigir. Lá no motel você pode me olhar à vontade. Aqui, faça o favor de prestar atenção no trânsito e não bater o meu carro… presente de…

Não completou a frase.

Desviou seu olhar para algumas casas à margem da rua por onde passavam. Foi Danilo quem concluiu o que ela não dissera.

– Presente de seu pai, quer dizer, dos seus pais.

– Acho que nunca vou dirigir isso! – disse Suélen, cortando rispidamente a frase do rapaz.

– Não? E por quê?

– Você ainda não me falou da sua primeira vez.

– E por que você quer ouvir?

– Fale da sua primeira vez com a Cátia.

– Mas a minha primeira vez foi com ela. Aliás, sempre foi com ela, apenas com ela. E você? Fale de você? – perguntou Danilo, como se de repente ela fosse mostrar a ele todos aqueles anos em que ele não havia acompanhado sua vida.

– Perguntei primeiro. Eu é que quero saber de você.

– Está bem. Não sei por que querer saber isso agora, mas não vejo porque não contar… foi normal, numa boa.

– Não é isso! Estou perguntando como foi que rolou como é que vocês chegaram lá.

– Lá aonde?

– Como é que vocês decidiram fazer? Como foi que rolou?

Suélen parecia um tanto irritada ao não ver-se atendida em seu pedido, mas logo assumiu aquele seu ar de ternura, encarando o olhar de Danilo.

– Conta como foi.

– Bom. – disse ele. – Começamos a namorar logo que ela fez 14 anos…

– Você é o primeiro namorado dela?

– Não. Ela já tinha namorado ou ficado com um menino lá da escola. Mas ela me dava mole, me olhava…

– Que danada! Sacaneando o outro. Mas ela é sua primeira namorada, não é? Disso eu sei.

– Claro que sabe. Já te falei.

– Você nunca ficou com outra?

– Nunca. – respondeu Danilo, talvez até com uma certa ponta de orgulho, por mostrar sua dedicação à namorada.

– Então está tudo bem. Fica empatado.

– O que é que fica empatado?

– Se ela já ficou com outro, então não tem problema você ficar comigo hoje. Mas conta logo como foi! Você só está enrolando.

– Eu estou enrolando? – pergunta ele, quase rindo. – Você é que não me deixa falar.

– Então fala logo! – disse ela, virando-se no banco, ficando de frente para ele, com uma das pernas dobrada, deixando aparecer a maior parte das suas coxas e, talvez, até mesmo a calcinha.

Danilo não pode conter o olhar e ela volta-se para a posição anterior, ordenando a ele que continuasse a falar, ou que começasse.

– Já disse que lá no motel você me olha o quanto quiser. Agora você dirige, e me conta.

– Então. – retomou Danilo. – Namoramos há quase quatro anos, mas não faz nem dois que tivemos nossa primeira vez.

– Então ela tinha 16 anos?

– É. Na verdade, foi logo depois do aniversário dela.

– E como foi que rolou?

– Se você deixasse eu falar…

Trocaram um olhar como que de censura, e depois Suélen se justificou.

3

– É que gosto de saber os detalhes. Continue! Foi assim, de repente, ou houve algum papo antes?

– Bom… primeiro quase que foi de repente, mas depois rolou um papo.

Suélen não o interrompeu com novas perguntas, mas seu olhar inquisidor demonstrava sua ansiedade pela continuação da narrativa.

Ele continuou.

– Um dia estávamos sozinhos em sua casa. Já tínhamos aquelas coisas de brincar… você sabe, passar a mão e tudo o mais, sem que nunca tivesse acontecido nada de mais sério. Mas eu tinha uma grande vontade de fazer masturbação para ela, fazer com que ela tivesse um orgasmo. Entende? Então, naquele dia, enquanto eu brincava com ela, no sofá, ela foi ficando excitada, até que achou que iria perder o controle e começou a pedir para eu parar. Mas eu não parei, continuei brincando com a mão nela e dizia para ela ir até o fim.

– Mas ela não gozou. – disse Suélen, convicta, e usando a palavra que Danilo havia evitado usar.

– Não! Mas como você sabe? Ela te contou?

– E desde que quando eu fico conversando essas coisas com ela?

– Sei lá? Mas por que você diz que ela não gozou?

– Por nada. Apenas pensei. Nós mulheres costumamos ficar nervosas nessas horas.

– Pois é! Queremos acalmar, mas vocês não deixam.

– Não é desse nervosismo que estou falando. Mas me conta logo o que rolou depois.

– Ela me fez parar, e então tivemos uma longa conversa. Ela dizia que até já havia pensado em transar comigo, sabia que eu queria e que se não fizesse com ela, talvez fosse fazer com uma outra qualquer…

– Como eu.

– E você é outra qualquer? Estou falando de prostitutas, essas mulheres por aí.

– Então ela deu para você só para você não ir com outras?

– Que história é essa de deu? Ela não deu nada. Nós conversamos bastante, naquele dia e em outros. Eu ainda sugeri a ela que a gente podia ficar só nas brincadeiras, na masturbação, que era tão gostoso como a transa. Mas ela dizia que essa história de masturbação iria nos levar a fazer quando menos esperávamos. E se era para fazer, então que fosse algo pensado, planejado, com todos os cuidados.

– Menina consciente, ela!

– E não é? Ela sempre foi…

– Mas é o que estou dizendo. – cortou Suélen. – Estou falando no bom sentido. Ela sempre me pareceu consciente, do tipo que sabe o que faz. Mas vá contado… aí um dia vocês foram para um motel.

– Não! Foi no mesmo sofá, na casa dela.

– Não foram para um motel?

– Só em outras vezes. Ela nem podia ir, era menor de idade. Naquela vez foi na sua casa, num sábado em que seus pais haviam saído para um casamento. Eu já havia arranjado tudo.

– Tudo? Tudo o quê?

– Você deve saber. E combinamos então dar um nó nos velhos.

– Um nó?

– Enganamos eles. Como o casamento era de um colega de serviço do pai dela, e que nem conhecíamos, não nos vimos obrigados a ir. Falamos que iríamos sair, jantar em algum lugar, mas não saímos. Ficamos em sua casa.

– E eles deixaram vocês lá, numa boa?

– Claro! Sempre deixavam. Eles não cuidavam muito disso. Em compensação a mãe de Cátia vivia sempre dizendo a ela para tomar cuidado, para não ir antes do tempo, essas coisas. Mas como ela, ou eles sempre gostaram de mim, e também tinham confiança, talvez não viam razão para ficar cuidando tanto.

– Se soubessem…

– Não fizemos nada demais. Um dia ou outro iria acontecer mesmo.

– Mas e depois, como foi?

– Foi!

– Fala!

A noite começava a tomar conta da cidade, naquele lusco-fusco que é uma mistura de melancolia, convite, tudo ao mesmo tempo. Já estavam rodando próximos a uma grande e larga avenida onde eram vários os motéis, para se escolher.

Danilo não conhecia o interior de nenhum deles, nunca tivera dinheiro para trazer Cátia até ali. Mesmo quando fez 18 anos, e que podia, portanto, frequentar esses lugares, a menina teve de se contentar com motéis, ou mesmo hotéis, mais baratos. Mas foram poucas vezes, pois na maioria delas acontecia em sua própria casa.

– Então. – continuou ele. – Esperamos seus pais sair e ficamos ali mesmo. Brincamos, nos pegamos e transamos.

– Só isso? Mas não é assim que quero saber. Conta tudo!

– Mas o que é tudo? Transar não é tudo? E você acha que é fácil contar essas coisas?

– Vocês tiraram a roupa? – pergunta Suélen, mais uma vez sem dar atenção à pergunta do amigo.

– Não. Ela estava de vestido, não foi preciso.

– Não ficou nua, pelada?

– Não. Já disse que…

– A calcinha, pelo menos, ela tirou, não? – interrompe Suélen.

– Claro, não é?

– Mas por que não tiraram toda a roupa? Não é melhor?

– Pode ser! Mas não estávamos à vontade ali, na sua casa. E além disso, ela não estava tão solta para se mostrar.

– Menina recatada.

– Não é recato. Você deve saber como é essa coisa de primeira vez.

– Não sei de nada! Mas quer dizer que vocês nunca… você nunca tinha visto o corpo dela, o sexo.

– A periquita, você quer dizer?

– Periquita? – fez Suélen, rindo.

Ou muito Danilo se enganava ou era a primeira vez naquele dia que a via sorrir. Pelo menos sorrir daquela maneira, solta e com prazer na expressão.

– É! Periquita. Não é isso que você está perguntando? Você não tem periquita?

– Não. A minha é pombinha.

– Pombinha? – debocha o rapaz. – É pior ainda do que periquita. De onde você tirou isso?

– Não sei. Acho que era minha avó que falava assim, quando eu era pequena.

– Já ouvi perereca, xana, xoxota, mas pombinha…

– É… – fez Suélen, e depois parou pensativa.

– O que foi? – perguntou Danilo, diante do longo silêncio da menina.

– Acho que não vou mais chamá-la de pombinha. Aliás nem sei se ela merece ter nome.

– Iiiihhh… – fez o garoto. – O que foi agora?

– Foi nada. Mas conta o resto! – ordenou ela, com uma certa vivacidade no olhar e voltando a ficar de lado para ele, com as pernas à mostra.

– Eu hem! – fez o garoto, e depois de uma certa pausa, voltou a falar, a contar como ficou brincando com a namorada, os dois sentados no sofá, ele passando a mão em sua… pombinha… enquanto ela pegava o seu pênis. E que depois, quando já estavam bastante excitados, colocou a camisinha e transaram.

– Deitados?

– Não. Ela estava um tanto com medo. Temia que eu fosse machucá-la. Então, continuei sentado no sofá e deixei que ela viesse por cima, ajoelhada. Foi ela quem controlou tudo.

– E machucou muito?

– Não! Sangrou normal, mas ela disse que não sentiu dor alguma, disse que apenas ardeu um pouco no começo.

– E depois?

– Depois… depois foi só legal. Mas agora chega. Quem tem de contar é você.

Mas ela não contou nada. Estavam chegando ao último motel da avenida, e Danilo não estava a fim de fazer todo o caminho novamente, para escolher em qual ficar.

Resolveu entrar naquele mesmo.

– Você trouxe dinheiro suficiente? – ele perguntou, para depois completar que estava sem nenhum. Aliás, nunca tinha nenhum.

– Acho que sim – disse ela. – Quanto é?

– Você não sabe?

– Como vou saber?

– Vai me dizer que nunca veio a um motel?

– Pois eu já não disse? Nunca vim mesmo. Eu trouxe quinhentos. É suficiente?

– É quase o meu salário do mês.

– Mas é suficiente?

Já estavam na portaria.

O rapaz escolheu uma suíte que custava menos da metade do que ela dizia haver carregado, embora para ele, ainda fosse uma fortuna.

E não pode deixar de notar o olhar de curiosidade da garota, com tudo o que aparecia à sua frente.

Já descendo do carro, e adentrando o ambiente a eles reservado. Perguntou novamente.

– É mesmo verdade que você nunca veio a um lugar desses?

– Por que não acredita em mim? Estou dizendo que não.

Danilo ainda pensou, mas não se atreveu a comentar que nunca a tinha visto com algum namorado ou nem mesmo ficado com alguém.

Alguns minutos depois estavam isolados do mundo, numa suíte sem muito luxo, porém muito mais custosa que os quartinhos onde ele costumava levar a própria namorada.

Suélen não deixava de manifestar sua curiosidade por tudo o que via.

Danilo achava aquilo surpreendente, mas lembrou-se de que precisava de um bom banho.

Ela o acompanhou até a porta do box, onde ele abriu o chuveiro, começando, logo em seguida, a despir-se.

– Vai tomar banho também? – perguntou ele.

– Vou não. Tomei ainda há pouco. Eu te espero.

– Aí? Me olhando?

– Qual o problema? Tem vergonha?

Danilo, completamente nu, entrou sob a água morna do chuveiro e não pode deixar de exclamar a satisfação que era sentir aquela água, depois de um dia inteiro rodando com a moto pelas ruas da cidade, engolindo poeira, poluição.

Deixou escorrer a água e ensaboou-se.

Naquele momento nem pensava ou lembrava da garota ali, na sua frente, assistindo-o. Suélen, a filha dos patrões de seus pais, a menina com quem cresceu junto. A garota que agora já era uma mulher e que o convidara para sair, assim, de repente, sem nenhum envolvimento anterior.

Danilo não pensava em nada disso naquele momento. A água morna parecia ser mais gostosa que tudo no mundo.

Mas os olhos de Danilo se abriram.

E quando se abriram perceberam a presença de Suélen, ali, parada na porta, olhando, curiosa, começando a tirar o vestido.

Assistiu a menina, a amiga Suélen, puxar o vestido sobre a cabeça, depositá-lo em algum lugar qualquer, e depois livrar-se do sutiã e da calcinha. Ficou nua.

Com a mesma naturalidade com que o esperou e o parou no portão de serviço da grande mansão, ela agora se apresentava nua para o rapaz.

Era linda!

Mas Danilo se encabulava, esperava que ela fosse também entrar sob a água do chuveiro, mas não entrou. Apenas assistiu ao seu banho, e quando ele fechou a água, foi para a borda da cama, ficando ali sentada, com um preservativo na mão, pronta a oferecer-lhe, tão logo ele se desfizesse da toalha com a qual se enxugava.

– Ainda bem que aqui tem. – disse ela.

Danilo então percebeu que ela se referia ao preservativo.

E percebeu também, e só naquele momento, que ela não havia carregado bolsa, telefone, nada.

Mas diante daquele lindo corpinho nu à sua frente, não tinha mais cabeça para se preocupar com qualquer pensamento que não fosse o de apreciá-lo, tocá-lo, possuí-lo.

Muitas vezes já havia visto Suélen de biquíni, na piscina de sua casa. Seu corpinho, pode-se dizer, não era novidade para o garoto.

Mas aquele mesmo corpinho, inteiramente nu, e ainda prontinho para ser seu, era algo bem diferente.

O menino simplesmente vibrou por dentro.

Mas o gesto da menina, rasgando o envelope do preservativo e depois oferecendo a ele, de certa forma o surpreendeu.

– Calma menina! – disse ele. – Você não vai querer que eu coloque agora, quer?

– Por que? A gente não vai transar? Você não me quer?

– Claro que quero! Mas antes vamos brincar um pouco, vamos…

– Eu não quero brincar! – disse ela, de modo quase seco, surpreendente. Depois tentou se corrigir. – Eu quero que você me possua, agora.

– Por que tanta pressa?

– Você me quer?

Por Deus que ele adoraria antes tocar, beijar e lamber cada parte do corpinho de Suélen, antes de finalmente possuí-la, se é que tudo isso já não era uma forma de posse.

Mas, de alguma forma, ela mostrava que não devia ser daquela maneira.

Postou-se deitada na cama, pronta para recebê-lo, e ele só pode então deitar-se sobre o corpo da garota e penetrá-la.

Ela correspondeu à penetração, mas parecia muito diferente da sua namorada quando transavam.

Aliás, podia perceber Danilo, ela talvez fosse diferente de qualquer mulher, mesmo não tendo ele nenhuma experiência com outra mulher que não fosse a sua própria namorada.

Brincou no corpo de Suélen. Sentiu um certo prazer mais do que sexual, por estar sobre o corpo a filha do patrão, da menina rica, teve seu orgasmo, mas esperou ou, melhor, começou a fazer para que a menina rica também tivesse o dela.

Mas ela não quis.

– Depois. Agora não. – disse ela, empurrando-o de sobre o seu corpo.

Sentado ao seu lado, enquanto ela permanecia ainda deitada, Danilo tentava falar o que estava pensando, mas sentia muito medo de ofendê-la.

– Por que você quis vir comigo aqui Su?

– Já não disse que estava a fim? Precisa de mais explicação?

– Acho que sim. Se você estava a fim, então… então por que não me quer? Por que não quer brincar, não quer gozar?

– Depois. Acho que estou um tanto nervosa agora.

– É a sua primeira vez?

– É.

– Não parece.

– Por que não?

– Bom. Tirando o fato de você estar nervosa… você… a penetração… foi sem problemas.

– E daí. Tem mulher que é assim mesmo, sabia? Não sangram. Têm hímen complacente, ou então já nascem sem ele. Mas eu posso te garantir que sou virgem. Ou pelo menos era até agora há pouco.

– Calma! – brincou Danilo. – Não estou te cobrando pela virgindade, isso…

Suélen sequer esperou que ele concluísse. Respondeu apressada e com uma certa carga emotiva na voz.

– Mas as pessoas cobram. Todo mundo cobra.

Sem perceber o estado emocional em que a garota estava mergulhada, Danilo vai mais a fundo no seu questionamento.

– Você é lésbica?

– Não quero falar sobre isso.

E ameaça chorar.

– Tudo bem! Diz Danilo, afagando-a, procurando acalmá-la. Não precisa falar mais nada. Mas acho que não há problema algum se você falar.

– Então está bem. – disse ela, sentando-se na cama. – Digamos que eu não sei ainda se sou ou não. Sou virgem. Nunca transei com mulher nem com homem.

– E por isso quis fazer um teste comigo?

– Exatamente! – disse ela, mostrando uma certa vivacidade no olhar, como se estivesse mesmo desejando que ele fizesse uma pergunta assim.

A conversa continuou e ela perguntou se o garoto não estava chateado por ter sido usado dessa maneira. Ele, por sua vez, respondeu que se fosse para ser usado assim, que ela podia usar sempre, mas que também deveria dar uma chance de que ele desse prazer a ela.

– Vou tentar na próxima vez. – disse ela.

Mas a próxima vez aconteceu alguns minutos depois, e novamente o menino percebeu que Suélen não estava à vontade para ter prazer, muito embora quisesse que ele tivesse.

Ofereceu seu corpinho tal como uma mulher costuma oferecer para agradar seu parceiro, mas interrompeu-se, como da primeira vez, tão logo Danilo teve seu orgasmo.

O menino tentou ainda conversar mais um pouco, entender melhor o que acontecia com Suélen, mas ela procurava sempre fugir do assunto e tudo o que dizia é que estava tentando descobrir sua própria sexualidade, sua preferência sexual.

E mais, pedia sempre desculpas por tê-lo usado. Insistia que tinha sido virgem até aquele dia, mesmo quando o assunto era outro.

Porém parecia não querer ir embora.

Quis entrar na banheira de hidromassagem, comer um lanche, ouvir música e só depois de muito tempo é que aceitou saírem de lá.

Estava uma noite linda!

Danilo dirigia pelas ruas da cidade, com a mesma leveza no corpo que costumava sentir quando se dedicava, juntamente com Cátia, a alguns momentos de prazer.

Mas não sentia remorso por haver traído a namorada de quem tanto gostava.

Na verdade, não se sentia envolvido com Suélen, não parecia ter visto na garota uma parceira, uma companhia para o amor.

Suélen era uma garota que precisou de alguns momentos de fuga, de prazer… e ele fora o garoto a quem ela escolhera para esses momentos.

Não se sentia um amante de Suélen, apenas seu amigo.

O pequeno relógio no painel do carro marcava quase uma hora da manhã, quando Danilo fez acionar o grande portão, que começou a abrir-se lentamente.

O vigia, que se postava na esquina, olhou atentamente até que o carro adentrasse a garagem e que o portão baixasse, fechando a muralha. Voltou para o seu radinho de pilha, para as músicas suaves das programações noturnas das rádios.

Deixaram o carro na garagem e caminharam até a porta da cozinha da grande casa, onde a garota, a doce Suélen, deveria entrar, enquanto ele seguia para a casa dos fundos.

Ela pediu desculpas por tudo, dizendo que depois conversariam mais, mas sequer ofereceu-se para um beijo de despedida, como o seu até então parceiro esperava.

Danilo percebeu a luz da cozinha acesa, mas achou isso normal, pois com a menina fora de casa, seus pais talvez até estivessem mesmo preocupados.

Não acreditava que Suélen os tivesse avisado sobre aquela saída, assim repentina.

Parou, no quintal, quando ouviu os gritos furiosos do Doutor Sérgio e da dona Marina. Queriam saber onde ela estivera, com ordem de quem havia saído e se ela não sabia dos seus compromissos.

O rapaz percebeu que deveria permanecer por ali, pois a garota iria precisar de ajuda.

Foi então que ouviu Suélen gritando que nunca mais iria fazer nada com eles, que eles não iriam arrastar suas irmãs para o mesmo caminho.

Mas Danilo não teve tempo de pensar sobre essas palavras, o pai de Suélen a chamava de nomes feios e o garoto sentia que havia muito mais ali do que uma simples preocupação de pais para com a filha.

Entrou na cozinha, tentando argumentar alguma coisa, explicar que não houvera nada demais, mas fui colocado para fora, enquanto Suélen pedia pelo amor de Deus para ele não sair, não deixá-la a sós com os dois.

E depois de alguma discussão ainda, ela resolveu que iria com Danilo lá para a casa dos fundos. Foi quando seu pai a puxou com violência e a jogou para trás de si, derrubando-a, fazendo com que batesse a cabeça no fogão.

Danilo sentiu uma ira que nunca na vida havia antes sentido e foi para cima do Doutor Sérgio, tentando derrubá-lo para então pegar Suélen e sair com ela dali.

Não entendia porque tanta violência, mas não iria admitir que a maltratassem.

Mas o pai de Suélen o empurrou, fazendo-o bater com as costas na pia. Isso só fez aumentar ainda mais o nervosismo do menino.

Mas este nervosismo ficou ainda maior quando Doutor Sérgio começou a chutar Suélen, que tentava se levantar, mas não conseguia.

Danilo juntou então uma panela de pressão e começou a bater nas costas do Doutor Sérgio, enquanto a mãe de Suélen tentava segurar seu braço.

Mas num dado momento, Danilo acertou a cabeça do homem e ele caiu de joelhos.

4

Temeroso do que havia feito, parou por um instante, o tempo suficiente para que dona Marina tomasse a panela de suas mãos e começasse a golpeá-lo, enquanto ele tentava fugir e, ao mesmo tempo, pegar a menina, que já conseguira se levantar, ainda que mancando muito e gritando de dor, devido à cabeçada no fogão e aos chutes que o pai lhe dera.

Dona Marina acertou forte com a panela na cabeça de Danilo e este caiu.

Foi então que Suélen pegou uma faca e golpeou a mãe nas costas, várias vezes, com uma raiva tão forte que parecia mesmo querer matá-la.

Dona Marina caiu, mas Danilo viu Doutor Sérgio tirando a faca das mãos de Suélen e partindo para cima dela.

Quase cego, Danilo apanhou novamente a panela e golpeou a cabeça do homem, derrubando-o no chão.

Suélen tomou então a panela de suas mãos e começou a bater no pai com a mesma fúria com que antes havia esfaqueado a mãe.

Danilo não conseguia entender o porquê de tanta violência, de tanta ira, tanto por parte dos pais de Suélen, como por parte dela mesma.

Jamais poderia acreditar que Doutor Sérgio e dona Marina, com toda aquela passividade e bondade de que eram possuídos, pudessem, de repente, agir com tamanha fúria contra a própria filha.

Em relação a Suélen, por sua vez, também não entendia a sua raiva, principalmente pelo modo como a viu esfaqueando a mãe.

Mas percebeu que em tudo aquilo que acontecera naquele dia, desde o momento em que ela o convidou para sair, havia alguma coisa de estranho. E esse algo estranho se resumia agora naquela cena grotesca, descabida, de uma família se destruindo.

Segurou a mão da garota e correu com ela para o quintal. Ficaram sem saber o que fazer. Precisavam chamar alguém. Havia ainda um certo medo de que os dois pudessem segui-los e tentar alguma violência ainda maior.

Pensaram em correr para a casa dos fundos, chamar os pais de Danilo, mas só então o rapaz se deu conta de que não havia mais ninguém por ali, pois como era costume, as irmãs mais novas de Suélen haviam ido para a chácara e seus pais as acompanhavam.

Com medo, saíram para a rua e correram a pedir ajuda ao vigia, para que este chamasse a polícia.

– Mas o que está acontecendo? – perguntou o homem, um senhor de meia idade, bastante conhecido ali, pelo longo tempo que exercia aquela função. – O que é que vou dizer à polícia? – quis saber, enquanto pegava uma extensão de telefone que havia na guarita.

– Diga qualquer coisa! – falou apressado Danilo. Diga que é um assalto, uma briga, qualquer coisa. Mas que venham logo.

Enquanto falavam e aguardavam completar o chamado, Danilo e Suélen não tiravam os olhos do portão da casa, que ficara aberto. Temiam o momento em que Doutor Sérgio pudesse irromper para a rua, talvez com uma arma na mão.

Danilo abraçou Suélen, tentando acalmá-la.

Por outro lado, ele próprio não conseguia conter o seu nervosismo. Nervosismo e medo. Medo e dúvidas. O que havia acontecido, afinal? Por que aquele mistério todo de Suélen? Por que aquela ira toda entre eles três?

Por sorte a polícia chegou rápido.

Uma viatura que estava nas redondezas, pensando tratar-se de um assalto em andamento, acorreu ao local.

Apressadamente, atropelando-se um ao outro em suas palavras, falando quase que ao mesmo tempo, os dois contaram sobre a briga e disseram estar com medo de que os pais de Suélen pudesse sair de casa com alguma arma.

Logo uma outra viatura de polícia chegou no local e os policiais se dividiram, alguns ficando ali com aqueles dois jovens em estado de pânico, enquanto outros adentraram a casa.

Mas estes logo retornaram, com a notícia de que os pais de Suélen estavam mortos.

Danilo não podia acreditar que houvesse participado de um assassinato, que havia ajudado a matar os pais de Suélen, Doutor Sérgio e dona Marina, os patrões de seus pais, seu próprio patrão.

Havia ajudado a deixar sem pai nem mãe, três garotas com as quais praticamente crescera junto.

O interior da casa, o quintal, a rua, logo se transformaram num verdadeiro reboliço. Viaturas de polícia, policiais fardados ou à paisana, repórteres, câmeras de televisão, máquinas fotográficas.

Todos queriam saber tudo ao mesmo tempo, e vinham fazer perguntas aos dois.

Sentados numa mureta que margeava o jardim da casa, Danilo e Suélen permaneciam abraçados, tendo a moça aninhado sua cabeça no peito do rapaz, mas sem manifestar qualquer indício de choro.

Não podiam conversar entre si, tamanha era a profusão de policiais e principalmente de repórteres, que tentavam obter alguma informação, qualquer informação.

Não respondiam a nada.

Mais tarde, Suélen levantou-se puxou Danilo para o interior da casa, para uma sala onde podiam ficar longe dos olhares de todos, até mesmo dos tios da menina que, naquele exato momento, chegavam ao local, depois de avisados por algum dos vizinhos ou, talvez, pelo vigia.

O tio de Suélen ainda chegou até à menina, tentando saber o que havia acontecido, mas foi logo afastado dali por um policial que parecia estar comandando todas as operações ali realizadas. Quis fazer algumas perguntas, dar início à apuração dos fatos.

Foi nesse momento que Suélen conseguiu falar, finalmente. E fez um pedido a Danilo.

– Não diga que você estava junto. Está bem? – falou a menina, olhando para o rapaz, ainda com os olhos cheios de lágrimas.

– Como não? – perguntou ele. – Eu estava com você, nós fizemos…

– Não! – quase gritou ela, de modo autoritário. – Você não sabe de nada. Você só chegou até aqui porque eu fui te chamar lá nos fundos.

– Mas… – tentou argumentar Danilo, não entendendo onde a menina queria chegar.

– Escuta! Por pavor, escuta! – pediu ela, segurando suas mãos, olhando-o nos olhos. Só eu estava aqui, está certo? A gente saiu, foi no motel, tudo bem, pode confirmar isso para a polícia. Mas não diga que participou da… você sabe.

– Mas por que isso Su? Você vai assumir… E por que tudo isso aconteceu? O que foi que aconteceu?

– Por favor! É melhor assim. Você pode fazer isso por mim?

– Mas você vai ser presa. Não está certo.

– Tudo bem. Não me importo.

Suélen apertava as mãos do rapaz, enquanto seu olhar suplicava que ele aceitasse atender ao seu pedido. Danilo tentou entendê-la.

– Mas Su… por que não contamos a verdade?

– Que verdade? Você por acaso sabe da verdade? Deixa que eu conto a verdade. Não se envolva nisso, por favor.

– Tudo bem! Mas… Eu bem queria saber a verdade.

– Eu só queria te pedir um favor. – interrompeu Suélen.

– Fale!

– Cuida das minhas irmãs. Você cuida delas? Veja que elas fiquem bem?

– Claro!

– Se bem que agora eu sei que elas vão ficar bem. – falou a menina, quase que para si mesma.

– O que você disse? – perguntou o rapaz, tentando, mais uma vez, entender a menina, agora mais sua amiga do que nunca.

Mas não puderam conversar mais.

O tio de Suélen retornou, querendo saber do ocorrido.

Alguns policiais se aproximaram, outros traziam blocos de anotações.

Repórteres tentavam furar o cerco que a polícia havia montado em torno do casal.

A casa foi se esvaziando, e Suélen foi levada para a delegacia, para prestar depoimento.

Danilo tentou ir junto, mas foi seguro pelo tio de Suélen, que queria saber do seu envolvimento no caso.

A pedido da menina, ele negou que tivesse alguma coisa a ver, mas não conseguia entender onde ela queria chegar ao assumir só para si a autoria daquele crime que, aliás, pensava ele, nem crime era, pois os dois agiram em legítima defesa.

Suélen se foi, de cabeça baixa, sem ao menos lhe dar um olhar de despedida.

Danilo foi arrastado pelo tio, pela multidão, pela noite, pelas pessoas que tudo queriam saber.

Seus pais chegaram, as irmãs de Suélen chegaram.

Ninguém podia acreditar no que havia acontecido, e todos procuravam entender como e por que aquilo havia acontecido.

Os corpos do casal foram levados em caixões de aço, já de manhã, com o sol raiando timidamente sob um céu enevoado.

Danilo precisava dormir, mas não conseguia.

Sua mãe lhe dava algum tipo de chá, seu pai permanecia como que desconsolado, andando de um lado para o outro naquele imenso quintal, talvez a se perguntar o mesmo que estava perguntando todo mundo.

O que havia acontecido afinal?

As primeiras notícias dos jornais explicavam tudo:

“Garota confessa ter assassinado os pais”. Motivo teria sido a não aceitação do seu namoro.

“Crime foi planejado”. A meiga menina com ar de anjo confessa ter planejado detalhadamente o assassinato dos pais.

“Amor proibido”. Romance entre rica menina e o filho do caseiro acaba em tragédia.

“Essa menina matou os pais”. É difícil acreditar, mas o anjo da foto acima é uma assassina fria e macabra.

“Matou os pais quando chegava do motel”. O romance da menina rica com o empregado foi a causa do brutal assassinato.

Danilo não conseguia entender aquelas manchetes.

Da mesma forma que as pessoas não conseguiam entendê-lo, conforme as liam.

Nem mesmo Suzana e Samanta, as irmãs de Suélen, quiseram mais estar ao seu lado, depois que souberam ser ele o motivo daquilo tudo, daquela tragédia.

As estampas nos jornais eram claras, e as notícias davam os mínimos detalhes. A garota assassina havia confessado à polícia como arquitetara aquela saída com o namorado, dando um pretexto aos pais para uma discussão, momento que estava reservado para matá-los.

Estava tudo calculado, a faca, a panela, deixara tudo devidamente arranjado na cozinha.

Isso tudo é mentira! – pensava Danilo.

Mas ao mesmo tempo calava-se, pois não conseguia entender as razões de Suélen para estar dando essas declarações.

Talvez tudo não passasse de uma tentativa de inocentá-lo primeiro, para depois tratar de arrumar as coisas para o lado dela.

Nas “confissões” de Suélen, ela dizia que seus pais eram contra o namoro dela com Danilo, por ele não passar de um simples filho de um empregado.

Contou à polícia que havia saído com ele já com o propósito de acabar com a vida de seus pais. Sua intenção era mesmo a de acabar com tudo, já que não podia estar ao lado de quem amava.

Disse mais, que na briga que tiveram na cozinha, ela esfaqueou a mãe enquanto o pai havia saído para ir ao banheiro, e que depois bateu com a panela na cabeça dele, assim que ele voltou.

Contou ainda que, depois disso, foi chamar Danilo na casa dos fundos, talvez um tanto assustada pelo que tinha acabado de fazer.

Mas não demonstrava arrependimento

(…)

Nos dias seguintes, os jornais e a televisão continuaram noticiando a monstruosidade da filha que assassinara os pais por causa do seu namoro com o filho do motorista.

Danilo pouco entendia daquilo tudo, exceto que, uma semana depois, foram expulsos daquela casa, pelos tios de Suélen. Nem suas irmãs puderam mais ver. Tentou visitar Suélen na cadeia, mas quase fui linchado por uma pequena multidão que gritava ser ele o culpado, o rapaz viciado que tinha desviado a menina do bom caminho e a induzido ao uso de drogas.

E nem fumar ele fumava.

Junto com seus pais, tiveram de fugir, esconderem-se.

Estavam os três desempregados, e sem casa para morar, de um momento para outro.

Por que Suélen fizera aquilo com eles? Se sua intenção fosse a de protegê-lo, conseguiu o efeito exatamente contrário.

Foram se ajeitar por uns tempos numa casa da periferia, no quintal da casa de um tio de Danilo, irmão de sua mãe.

Praticamente preso dentro daquela casa, Danilo teve tempo de sobra para pensar sobre o ocorrido, sobre Suélen, sobre as razões para ela querer mentir daquele jeito.

Não contou aos pais a verdade. Pensava que se o fizesse, eles logo iriam contar para os tios de Suélen ou, então, para a polícia. Achou melhor esperar, raciocinar sobre as razões de Suélen, para só então pensar tomar uma atitude sobre o que fazer.

Mas uma pessoa, pelo menos, precisava saber da verdade.

Quinze dias depois, em outra sexta-feira, Danilo apanhou sua moto quase que escondido dos pais, e quando estes o interpelaram, saiu para a rua, dizendo que precisava ver Cátia.

Afinal, em todos aqueles dias, ele não tinha visto a namorada, nem dado explicação alguma a ela, e já lá se iam duas semanas desde o trágico episódio.

O que estaria ela pensando, ao ler todas aquelas notícias nos jornais ou vê-las na televisão? Estaria ela acreditando realmente que ele e Suélen fossem namorados?

Ela não lhe telefonara e nem tinha como, pois haviam ficado sem o telefone da casa, e ele sem o celular, recolhido pela empresa, de onde fora demitido.

Passava das oito da noite quando moto e piloto cortaram as agora quase tranquilas ruas da cidade, de um bairro a outro, até que chegou próximo à casa de Cátia.

Não quis chegar com a moto, como sempre fazia. Temia que os vizinhos pudessem criar alguma confusão. Mesmo estando ele inocentado do crime pelas próprias palavras de Suélen naquilo que contava à polícia, ainda assim era visto como o pivô maldoso da tragédia.

Deixou a moto numa rua próxima, chegou a pé até o portão e tocou a campainha, esperando ser atendido. Foi o pai de Cátia quem apareceu para destrancar e recebê-lo até mesmo com uma certa euforia, pois sempre gostou do rapaz. Em seguida veio a mãe, demonstrando o mesmo afeto e, já na sala é que trocou o primeiro olhar com Cátia, que parecia tentar demonstrar pouca animação em vê-lo, muito embora estivesse longe de conseguir seu intento.

Conversaram por um bom tempo. Danilo explicou a situação em que agora se encontrava, negou que tivesse qualquer coisa a ver com Suélen, mas não contou sua participação no crime. Achou que não devia.

Todos se perguntavam, e perguntavam, então, o porquê da menina envolvê-lo como pivô amoroso do crime, e Danilo tentava justificar sua atitude como a de alguém que precisava de um motivo uma razão. Então ele fora esse motivo.

Algumas perguntas começaram a surgir, como, por exemplo, se a menina tinha algum problema de comportamento, se não era doente.

Cátia, com uma certa aspereza na voz, lembrou que, pelo pouco que conhecia de Suélen, não via nela nenhum problema de comportamento. Por certo ela deveria estar falando a verdade.

Danilo percebeu então que seria difícil convencer a namorada de que não tinha nenhum envolvimento com a filha dos falecidos patrões. Mas não se sentiu à vontade para falar que se viu compelido a analisar o comportamento de Suélen dos últimos anos, e que ela havia mudado muito, de uns tempos para outro, que não tinha namorado. Preferiu reservar essas revelações apenas para Cátia, quando ficaram a sós, na varanda da casa.

– Você não está acreditando em mim, não é? – perguntou o rapaz, tentando encará-la de frente.

– E deveria acreditar? – perguntou ela, desviando o olhar. – Ela é uma menina rica, pode lhe dar muito mais que eu.

– Que besteira Cátia! Não é nada disso.

– E o que é então? Paixão verdadeira? Amor puro?

– Nenhuma coisa nem outra. Eu nunca tive nada com ela. Acredite em mim.

– É difícil. – disse a menina, talvez querendo dizer exatamente o contrário. Talvez desejando abraçá-lo e obter dele a prova de que ainda era o amor da sua vida. Mas permaneceu paralisada, na voz e no semblante.

Danilo achou que deveria se abrir, contar a verdade, dizer que estava junto com Suélen, que a razão para o crime era outra. Mas nem ele sabia que razão era. Tampouco achou que devia confiar em Cátia sobre toda a verdade. Ainda precisava esperar que Suélen desdissesse todas as mentiras que havia contado à polícia, que revelasse a verdade.

Mas que verdade?

– Por que então ela matou os pais? – perguntou Cátia, como que a adivinhar os pensamentos de Danilo.

– Pois é o que eu gostaria de saber. – disse ele. – Deixa eu te contar uma coisa. Tínhamos saído, eu e ela.

– Isso eu já imaginava, ou já sabia. – disse a moça.

– Não! – quase gritou Danilo. – Mas não é nada disso. Deixa eu te contar.

Se a vontade do rapaz era realmente falar toda a verdade, logo essa vontade esmaeceu. Como Cátia iria ouvir isso? Preferiu mentir.

– Quando cheguei em casa naquela sexta-feira. – começou ele. – Ela estava no portão, me esperando. Pediu para que eu fizesse o carro dela funcionar, pois estava quase sem bateria, de tanto ficar encostado. Você sabe que ela ainda não dirige.

– Sim. E daí? O mocinho foi correndo atender ao pedido da mocinha.

– Pare com essa ironia. Ela é minha patroa, caso você não saiba. Aliás, era minha patroa.

– Certo. E como patroa ela pode te solicitar no momento que quiser.

– Não é isso. Aliás, meus pais é que eram seus empregados, não eu. Mas deixa eu continuar. Eu logo percebi que o problema dela não era com o carro…

– Claro que não! Isso até eu sei.

– Pare! Por favor. Você está ironizando com coisa séria. Ela estava esquisita, com algum problema. Não sei qual era. Mas parecia que ela queria fugir daquela casa, queria sair, ir para longe, sei lá.

– E então vocês foram para longe. Para o primeiro motel que encontraram.

– Não fomos em motel algum.

– Não? – sorriu ironicamente Cátia. – E espera que eu acredite nisso?

– Não fomos! – disse de forma decisiva Danilo, porém dando uma pausa, talvez pressentindo que o melhor fosse mesmo contar toda a verdade. Cátia não merecia sua mentira. Mas não se abriu. – Ficamos rodando pelas ruas. Ela me pediu que ficássemos rodando. Dizia que precisava andar pela cidade, respirar alguma coisa diferente do ar da sua casa.

– E você ficou rodando com ela a noite toda?

– Não foi a noite toda. Como eu não tinha jantado, paramos numa pizzaria, comemos alguma coisa. Depois ficamos um tempão sentados no banco de uma praça que havia em frente…

– Sentados num banco de uma praça, de noite, com todo o risco de assalto que existe por aí?

– Acho melhor não falar mais nada. – disse ele. – Se você não está acreditando. Não vou ficar perdendo meu tempo.

Danilo saiu, sem dar sequer um beijo ou abraço na namorada, nem tampouco se despedir de seus familiares, como havia prometido fazer quando fosse embora.

Ela abriu o portão, talvez ansiosa por um beijo, por alguma palavra a mais, mas sem a coragem suficiente para pedir.

Ou seria sua mágoa que a impedia de fazê-lo?

Ele nem olhou para trás.

Caminhou a distância que o separava da moto, deu partida e rumou de volta para casa. A noite já estava firmada, o trânsito tranquilo. Danilo se dividia entre a vontade de chegar logo em casa ou então rodar o mais devagar possível para pensar em tudo o que estava acontecendo.

A pequena raiva que sentira de Cátia pouco antes de deixá-la, havia se transformado em arrependimento. Ela estava certa. Ele era o mentiroso. Por que não podia contar a verdade? Por que não dizer à namorada que estivera realmente num motel com a outra, mas que não havia, nunca houve e nem haveria nenhum envolvimento entre os dois?

Por que não contar a ela exatamente a mesma surpresa que ele teve quando recebeu o convite de Suélen naquele dia?

Sentiu vontade de dar meia volta. Sentiu mais que isso. Sentiu que estava sozinho no mundo, que precisava de alguém em quem confiar, para quem poder dizer o que realmente havia acontecido, o que estava acontecendo. Nem mesmo para a pessoa que mais amava ou, na verdade, para ela, podia ele falar de si, dos fatos.

Seus pais estavam preocupados e o receberam com alegria no portão. Os pais eram amigos, podia se abrir com eles. Mas nem isso conseguiu. Não sabia porque, mas assumira firmemente um compromisso com Suélen. Não iria contar nada a ninguém, enquanto não pudesse falar com ela, saber das suas razões, das suas verdades.

5

Dormiu perguntando-se como estaria a pobre menina na prisão. Estava ainda numa delegacia, a televisão, os jornais, o rádio, tentavam saber da garota, mostrar sua cela, a comida que lhe serviam, aqueles que dela cuidavam, as visitas que estava proibida de receber, se é que alguém desejava mesmo visitá-la.

Ele desejava.

Resolveu que iria tentar novamente, que iria falar com ela, e talvez até contar a verdade ao delegado. Se ficasse preso, pelo menos estaria junto dela.

Dormiu.

Mas seu sono foi entrecortado por pesadelos, os mesmos pesadelos que já vinham lhe atormentando há dias.

A voz de Doutor Sérgio era rouca, sofrida, a de dona Marina parecia trazer sangue junto com as palavras.

O sangue de dona Marina na cozinha da casa, a cozinha onde ele tanto brincara quando pequeno, onde tantas vezes fora trocar o garrafão d´água, o botijão de gás.

Agora aquela cozinha estava cheia de sangue e a voz de dona Marina surgia do chão, junto com o sangue, formando uma massa única, disforme, horrível, assustadora.

A voz de dona Marina tentava reanimar o corpo do marido morto ao seu lado.

Ele não respirava.

Danilo não respirava.

Acordava assustado, a respiração ofegante, sua boca parecia cheia de sangue.

Pensava em Cátia.

Todos esses dias ela esteve ausente.

Nem pelo telefone havia criado coragem de falar com ela, preferiu esperar o momento certo, vê-la pessoalmente.

Cátia era sua última esperança, seu refúgio. Mas agora esse refúgio havia se fechado, trancafiando-se na dor e na mágoa.

E não podia culpá-la.

Se pudesse gritar a verdade!

Mas por que não podia gritar a verdade?

Sem dormir, olhando para o teto daquela sala que agora era o seu novo quarto, tentava rever seus últimos momentos com Suélen, os últimos anos com Suélen.

Um sentimento de culpa o invadiu.

Percebeu, então, que durante todos aqueles anos a garota viveu mudada, diferente, talvez até mesmo pedindo socorro de alguma maneira, e ele esteve insensível, sem conseguir perceber sua angústia.

Essa é, talvez, a dor maior de qualquer ser humano, a tristeza de perceber que as coisas aconteceram sem que fossem sequer notadas, e que quando se descobre, já é tarde para desfazer o mal causado.

Mas por que pedia socorro a menina Suélen?

Seria mesmo possível acreditar que ela tivesse algum problema de loucura ou coisa assim? Se naquela sexta-feira, em nome de uma aventura, ele não se importava por ter sido usado, começou então a pensar em odiar-se.

Seria mesmo verdade que aquele convite, aquela saída, não tinha nada a ver com testar a sexualidade de Suélen? Será que alguém testa a sexualidade assim, de repente, com um simples encontro?

Ou tudo não passava mesmo de um plano que a menina já havia arquitetado e do qual ele fazia parte?

Por que ela disse à polícia que eram namorados?

Mas se ele fazia parte do plano, por que então querer inocentá-lo depois? Seria porque, talvez, não confiasse em sua própria força para matar os pais.

Ela precisava de um braço mais forte?

No domingo, dia 21 de maio, era aniversário de Suzana.

Por que Suélen lembrara do aniversário da irmã naquele dia? E mais, por que lembrar de repente, a partir do nada?

Várias vezes, naquele domingo, lembrou-se de Suzana, do seu aniversário.

Por certo que nem festa iriam fazer.

Não havia clima.

Mas nem ligar para a garota ele podia.

Por certo que os tios não lhe permitiriam falar com ela.

E chegou a segunda-feira.

A primeira coisa que fez tão logo o sol transformou a noite em dia, foi ligar para a casa de Cátia, esperando encontrá-la antes que saísse para o serviço.

Mas já havia saído.

Falou com sua mãe, pediu com todas as suas forças que esta transmitisse à filha o recado de que ele a amava muito, e que merecia sua confiança.

A mulher parece tê-lo compreendido, recomendou que ligasse no serviço da filha, mas ele achou que não teria mais coragem.

Tanto precisava falar com Cátia, e a temia.

Encheu o tanque da moto e rodou até a hora do almoço.

Andou pelas ruas da cidade, coisa que tanto gostava de fazer.

Passou perto da casa onde até alguns dias antes era a sua casa, o seu quintal, o seu mundo.

Não pode chegar.

Havia seguranças guardando no local, pessoas curiosas parando para olhar, mostrar indignação.

Passou próximo à delegacia onde estava presa Suélen.

Queria vê-la, atravessar multidões, quebrar as grades, ordenar a ela que contasse a verdade, que acabasse com aquele pesadelo.

Danilo sentiu vontade de chorar. Como se já não tivesse chorado muito nos últimos dias.

As notícias nos jornais e na televisão, mas principalmente nos jornais, começavam a ganhar maior concisão para todos, menos para Danilo.

Quanto mais as coisas se esclareciam para todos aqueles que acompanhavam o caso, mais se confundiam para Danilo.

Naturalmente, entrevistaram pessoas, todos os que, de uma forma ou de outra, conheciam ou tiveram algum tipo de contato com as pessoas assassinadas, menos o próprio Danilo e seus pais, escondidos como bichos do mato.

A empregada do consultório onde trabalhavam os dois apressou-se em dizer que não conseguia entender tamanha brutalidade com duas pessoas tão simples e bondosas como eram Doutor Sérgio e dona Marina.

E Danilo não podia discordar disso.

Sabia muito bem que os dois, apesar de serem médicos bem sucedidos em suas especialidades, de possuírem aquele consultório em bairro de classe nobre, não eram dados a fazer discriminação com as pessoas mais humildes.

Eram religiosos. Ainda que nunca tivesse se ocupado em indagar a  qual religião pertenciam, Danilo sabia, por meio de seus pais, que Doutor Sérgio e dona Marina participavam de reuniões com outras pessoas religiosas, contribuíam com festas e campanhas de caridade e coisas assim.

Eram, sim, pessoas humildes.

Tratavam bem tanto os empregados quanto qualquer outra pessoa, gostavam de ir à feira livre que acontecia todas as quintas-feiras em uma rua não muito próxima à residência, mas que, mesmo assim, faziam o percurso a pé, e lá comiam pastel, conversavam com os comerciantes, encomendava mercadorias.

Um dos feirantes, por sinal, também apareceu em uma das reportagens, orgulhando-se de ter como cliente aquele médico de hábitos simples que, de vez em quando, lhe encomendava um ou dois litros de cachaça de alambique, trazida do interior.

– Homem que podia muito bem estar tomando uísque. – dizia o feirante. – Vinha aqui, apanhava a pinga, depois comprava frutas nas outras barracas para fazer batida no domingo.

– Ninguém tinha razão alguma para sentir ódio daqueles dois. – disse a mulher do pastel. Ninguém tinha razão alguma. Talvez só mesmo a filha desmiolada.

– Isso é o que dá mimar demais nossas crianças. – declarou um psicólogo. São mimadas a ponto de saberem ouvir um simples não como resposta.

Danilo sabia mesmo que ninguém tinha razões para assassinar Doutor Sérgio e dona Marina, a não ser as próprias razões que ele mesmo encontrou naquele dia, diante da situação em que se viu.

Mas sabia também que aquelas não eram as verdadeiras razões, que aquela situação não havia surgido naquele momento, do nada.

Sabia que existia algo muito maior por detrás de tudo aquilo.

Mas o quê?

Tanto Doutor Sérgio quanto dona Marina era realmente pessoas de hábitos simples. Gostavam de preparar almoços aos domingos, churrascos. Tomavam cerveja, batidas feitas com pura pinga de alambique.

Mas Danilo nunca viu nenhum dos dois alterados pela bebida, nunca beberam além daquilo que ele próprio costumava beber, uma cerveja ou duas, algum aperitivo.

Por isso Danilo não acreditava muito em algumas insinuações de certos jornais, que diziam ter a polícia encontrado vestígios de drogas nos corpos necropsiados.

Doutor Sérgio e dona Marina, com certeza não eram viciados em drogas.

Mas Suélen também não era.

Portanto, não tinha sentido as insinuações dos jornais, de que a menina havia drogado os pais para depois matá-los de modo mais fácil.

Essa era, aliás, a explicação que muitos encontravam para entender como uma garota tão frágil podia ter dominado dois adultos daquela forma.

Já pela terça ou quarta semana após o incidente, juntamente com todas as notícias encontradas e desencontradas dos meios de comunicação, apareceu também, agora com maior destaque, a figura do advogado para a defesa de Suélen.

Deu declarações aos repórteres, mas parecia muito mais ocupado em demonstrar a segurança das duas irmãs mais novas na casa dos tios, do que a verdadeira situação da moça.

Em uma longa entrevista, fez diversas comparações daquele caso com outros onde entram o envolvimento de paixões violentas, sexo e drogas.

Tudo o que Danilo percebia é que Suélen estava sendo incriminada cada vez mais, tanto pelo crime em si, quanto moralmente, e por aqueles que deviam defendê-la, pois as declarações dos tios de Suélen, e ainda de outros parentes, também não ajudavam muito, a não ser para afundar ainda mais o já triste destino da menina.

Se pudesse falar com as pequenas, mostrar a elas que a irmã não era nada do que estava sendo escrito e mostrado a seu respeito.

Talvez Cátia pudesse chegar até elas.

Na quarta semana, já com um certo atraso, conforme era comentado nos jornais, aconteceu a reconstituição do crime.

Suélen foi carregada na parte de trás de uma viatura de polícia, seguida por carros de emissoras de televisão, helicópteros, um exagero jornalístico.

Adentrou a casa com as mãos algemadas para trás.

Danilo também estava presente. Como havia participado do primeiro e também do último ato daquela tragédia, fora convocado a participar. Poderia ter-se negado a comparecer, mas aquela era sua chance de ver Suélen, tentar falar com ela, saber o que estava acontecendo, entender o que se passava na cabeça da menina.

Mas pouca chance teve de falar com ela.

Quando Suélen chegou, viu-a passar pelo quintal, algemada, cabeça baixa. Chamou seu nome, mas ela continuou andando, tal como estava. Também os policiais não permitiram que os dois se aproximassem.

Danilo foi o primeiro.

Contou como chegaram de carro, como a deixou na porta da cozinha e como se dirigiu para a casa dos fundos, tal como as coisas apareciam no relato de Suélen.

Depois contou e mostrou como fora chamado por Suélen em sua casa, de como ela estava nervosa, e de como correram para a rua, chamar a polícia, quando ela disse que havia brigado com os pais.

Não sabia exatamente o que dizer dessa parte.

Não sabia a versão que Suélen tinha contado na delegacia e, por isso, contou o que imaginou ser uma aproximação dos fatos.

Foi levado para os fundos da casa, enquanto Suélen fazia a sua reconstituição. Aguardou paciente até que tudo estivesse terminado e então esteve a alguns metros dela, tentando chamar sua atenção.

Mas Suélen permanecia de cabeça baixa.

Com um certo olhar de súplica, Danilo conseguiu que lhe permitissem dela se aproximar; esteve frente a frente com ela, ergueu seu queijo, olhou-a de frente, mas ela o ignorou, preferindo baixar novamente a cabeça e esperar pelo momento de ser levada de volta para a delegacia.

Que espécie de amiga é essa? – pensava Danilo.

Estava a dar partida na moto, já na rua, quando ouviu uma voz bastante familiar, chamando-o pelo nome.

– Cátia! Que bom te ver. Pensei que…

– Como é que eu poderia falar com você? Não sei onde mora, seu telefone.

Cátia era a pessoa caída do céu justo num momento em que Danilo mais precisava de um anjo.

– Você está sozinha? Quer uma carona? Só tenho um capacete…

A moça subiu na moto, abraçou-se ao corpo do namorado, e com ele cruzou as ruas da cidade, até sua casa.

– Você não devia estar trabalhando? – perguntou Danilo.

– Saí mais cedo. Não fosse assim, como eu poderia te ver?

– E você queria me ver?

– Não! Fui até lá por nada… por bobeira.

Mas só puderam realmente conversar quando chegaram à casa de Cátia. A menina parecia querer entendê-lo, aceitar a sua versão dos fatos, reconquistar a boa relação que tinham antes. Ofereceu-se para um beijo, dois, para outros carinhos.

Danilo não suportou a pressão em seus olhos e pôs-se a chorar, demoradamente, abraçado ao corpo da garota que amava.

– Vamos sair qualquer dia. – pediu ela, no momento da despedida, quando ele resolveu voltar para casa, estar ao lado de seus pais. – Faz tempo que você não me leva… você sabe.

– Você quer? – perguntou.

– Claro que quero. Sábado a tarde. Pode ser?

– Que bom!

– Bom o quê?

– Que bom que você não está mais com raiva de mim.

Se Suélen estava a fim de continuar com aquela história que não era a verdade, isso era problema dela, pensava Danilo.

Bem que gostaria de ajudar a menina, trazer a verdade dos fatos para todos.

Mas que verdade, se nem ele a conhecia de fato?

E se ela preferia evitá-lo, após tê-lo usado como usou, então que continuasse com a sua farsa, com a sua verdade.

Não iria ele sentir-se responsável por algo que não lhe dizia respeito.

Afinal, Suélen era apenas a filha dos patrões de seus pais, os patrões que ela matara. Por mais que ele tenha participado do crime, não fora mais que um objeto de uso da menina.

Devia mais era esquecê-la, deixar que pagasse sua pena na prisão.

Tinha uma namorada para amar, cuidar, dar carinho.

Em casa, parecia um tanto mais alegre.

Os pais notaram, festejaram, sentiram que as coisas começavam a tomar novos rumos. Tudo o que precisavam então era de novos empregos, novas ocupações.

A casa do Doutor Sérgio, de dona Marina, das três meninas, era um capítulo passado. Um capítulo bom, mas que se desfizera com sua última página escrita por uma garota desmiolada, um cérebro inconsequente que havia colocado seus desejos pessoais acima de tudo e de todos e que julgou encontrar a solução para tudo na eliminação dos próprios pais.

O sábado de Cátia e Danilo pareceu demorar uma eternidade a chegar, para os dois. Em casa a menina esperava ansiosa e a mãe parecia entender sua ansiedade.

– Vocês vão para a cama, não vão? – perguntou a mulher, enquanto a moça girava de um lado para outro na casa, aprontando-se, tomando banho, escolhendo a roupa.

– Ô mãe! Isso é modo de falar?

– E não é? Vocês vão aonde, então?

– Vamos passar algumas horas juntos, vamos nos amar um pouco. A gente merece, não merece?

– Passar horas juntos, se amar um pouco, tudo isso está certo. Mas não é isso o que vocês vão fazer. Vocês vão é…

– É o que? – perguntou a menina, diante da frase interrompida da mãe.

– Vão fazer putaria. – disse a mulher, de modo rápido.

– O que é isso mãe? – indignou-se a menina. Isso já é ofensa. Você acha sua filha com cara de puta?

– Não. Não acho. Mas também não acho certo fazer essas coisas antes do casamento.

– De novo com essa mesma conversa, mãe?

Cátia aproximou-se da mãe, colocando-se em sua frente e encarando-a nos olhos, num gesto extremamente carinhoso. Então continuou.

– Mãe… eu entendo você, sei o que você pensa, sei que na sua idade de namorar as coisas não eram assim como são hoje. Mas a senhora também precisa entender que as coisas mudaram.

– Mas eu entendo. Eu entendo. – disse de modo repetido a mulher. – Mas só quero saber o dia em que você engravidar. Será que aí o seu querido namorado vai continuar achando que as coisas mudaram?

Acho que minha mãe devia parar de fequentar a igreja, de ouvir aquele pastor… – pensou a moça, sem coragem de falar isso à mulher.

Na verdade, mais uma vez, Cátia percebeu que era praticamente impossível conseguir fazer a mãe entender que certas questões morais já não tinham o mesmo peso que tinham a uma ou duas gerações atrás.

Para a mãe, a moça ainda continuava a ser educada para se casar, servir e ser fiel ao marido. Devia, portanto, permanecer virgem até o dia do casamento, devia pertencer a um homem só.

Cátia sequer concordava com essa ideia de pertencer. Ela não pertencia a ninguém, não “dava” para ninguém. Era uma moça livre para amar quem quisesse, para fazer amor com quem quisesse.

Sentia-se presa ao Danilo, mas era porque o amava, precisava do amor dele.

A campainha interrompeu aquela sua conversa com a mãe.

Era Danilo.

O rapaz, sem descer da motocicleta, apenas acenou para a mulher, que permanecera na varanda, enquanto beijava a face da namorada, e depois cobria sua cabeça com o capacete que trouxera de reserva.

Cátia subiu na garupa da moto, abraçou o corpo do namorado, e partiram.

Danilo, apesar de da ansiedade em estar junto ao corpo nu de Cátia, parecia não ter tanta pressa em chegar a qualquer lugar que fosse.

Estava uma tarde de sol, ainda que sob um céu enevoado, e parecia sublime rodar pelas ruas da cidade de modo lento, como faziam quase sempre, desde que comprara a moto, curtindo cada minuto, cada metro, cada gesto, cada toque mais acalorado das mãozinhas de Cátia em seu peito.

– Onde o moço vai me levar? – perguntou a menina, numa parada de farol.

– E por acaso você não sabe? – perguntou Danilo. – Foi você mesmo quem sugeriu.

– Eu sei. Mas é no mesmo lugar de sempre?

– Acho que é. Não tenho grana para pagar uma suíte de luxo. Aliás, nem grana eu tenho, tive de arrumar com meu tio. Estou desempregado, sabia? A família inteira está desempregada e sem casa para morar.

– Eu tenho dinheiro. Hoje eu pago. – falou a moça, quando a moto já rodava pela larga avenida.

– Isso é que não. – retrucou Danilo.

– Vai dar uma de machão, é? Hoje eu pago. E pode escolher um lugar de mais luxo.

– Isto significa que você nunca gostou do lugar onde te levo?

– Não é nada disso. O que me importa é estar com você. Mas não posso desejar estar com você num lugar mais luxuoso?

– Claro que pode. Só não entendo porque essa vontade agora.

– Porque quero. Ou então, se você quer saber, é porque recebi um dinheiro extra na firma e resolvi gastá-lo com você.

A conversa ainda continuou por mais algumas quadras, quando então Danilo percebeu estar na mesma avenida dos motéis, onde rodara naquela sexta-feira, em companhia de Suélen.

Seria errado se adentrasse o mesmo motel onde esteve com ela?

Entrou.

Não porque preferiu estar ali, mas, sim, porque não conhecia os demais, não sabia dos preços.

Mas escolheu um tipo de suíte diferente. Não quis correr o risco de estar no mesmo quarto, na mesma cama.

Cátia não merecia isso.

Cátia havia sido a primeira mulher de Danilo, e praticamente a única.

Não conseguia encaixar aquela noite com Suélen como algo que pudesse engrandecer sua vida.

Havia sido usado, e de forma tão fria, que não conseguia distinguir suas duas transas com Suélen das vezes em que se masturbava.

Não houve amor, não houve calor, não houve nada. Talvez até mesmo a masturbação fosse mais excitante, mais imaginativa, mais calorosa.

Cátia era diferente.

Não se pôs nua tão logo entraram no quarto.

Gostava de primeiro olhar bastante para o seu menino, e também ser olhada. Gostava de trocar carícias, beijos, fazer caír aos poucos as peças de roupa um do outro. Gostava de ser admirada, de expor lentamente o seu corpo desnudo ao parceiro, de ser tocada, acariciada, beijada, provocada.

6

Não foram muitas as vezes em que puderam se entregar um ao outro dessa maneira.

Talvez até conseguissem lembrar-se de cada uma dessas vezes. Mas sempre se amaram. Antes ou, mesmo depois, da primeira vez, aprenderam e acostumaram a dar prazer um ao outro apenas através de suas carícias.

Danilo gostava de masturbar Cátia, depois que esta perdeu o medo, e gostava também de ser masturbado pelas delicadas mãos da namorada, por sua boca.

Por isso é que, mesmo estando num motel, na cama, como dizia a mãe de Cátia, ainda assim não abriam mão dessa parte tão gostosa do amor.

Cátia, depois que sua última peça de roupa foi pousar no chão, junto com as demais, ajeitou-se no meio da grande cama e esperou pelo amor de Danilo, pelos seus lábios, sua língua.

Seu sexo latejava, pedia para ser tocado, beijado, e o namorado a atendia.

Depois faria o mesmo para ele, colocaria em sua boca o sexo do namorado, extrairia dele todo o prazer que lhe sujava a boca, o rosto, os seios.

Mas antes era ela quem receberia o calor, quem daria gemidos incontidos do mais puro êxtase, quem unharia as dobras do lençol, as costas do parceiro, quem puxaria seus cabelos como a querer engoli-lo todo em seu sexo.

O gozo de Cátia era o gozo de Danilo.

O rapaz gostava de ver a namorada naquele estado de quase morta, ofegante, puxando-o para cima do seu corpo, pedindo para parar, para deixá-la descansar.

Cátia descansava.

Danilo observava a companheira, a menina que amava, a única menina que teve.

Logo seria sua vez.

Deram-se várias vezes naquela tarde.

Depois daquelas carícias e dos orgasmos iniciais, ainda tinham energia para muito mais prazer, prazeres.

Danilo iria penetrar Cátia, cavalgar seu corpinho de menina.

Cátia iria cavalgar Danilo, brincar sobre ele, sentir seu membro pulsando em seu ventre.

Iriam repetir infinitas vezes que se amam.

Suélen, em nenhum momento disse a Danilo que o amava. Não se diz “eu te amo” para alguém que se está usando.

– Em qual motel vocês estiveram? – perguntou Cátia, num daqueles momentos em que tudo parece estar longe, quando o corpo parece esvair-se sem mais nenhuma energia.

– Quem? – respondeu Danilo, um tanto surpreso, mas ao mesmo tempo sentindo-se traído pelos seus próprios pensamentos, como se a garota os tivesse adivinhado.

– Pode falar! – insistiu ela. – Eu não me importo. Não ligo se você esteve com ela aqui, nesse mesmo motel, nessa mesma cama. O que me importa é saber que você me ama, é meu, e que com ela foi apenas uma aventura.

Danilo sentiu que aquele era o momento para falar toda a verdade, mas não sabia o quanto iria se arrepender depois por não tê-lo feito, por não ter a coragem de olhar de frente para o rosto lindo e meigo de Cátia e dizer que estivera com outra numa cama, ainda que essa outra não lhe tivesse trazido nenhum prazer maior que o de uma masturbação.

– Nunca fui com nenhuma outra menina a motel algum. – disse ele, de modo enfático, como a querer apagar de vez as dúvidas de Cátia.

– Não prefere falar a verdade? – insistiu ela, mais uma vez.

E mais uma vez ele perdeu a oportunidade.

– Essa é a verdade. Esquece aquela menina. Nunca tive nada com ela, não tenho culpa pelo que ela fez e não vou estragar minha vida mais do que já está estragada, só por causa da esquisitice dela.

Cátia ainda aceitou amá-lo mais uma vez naquele dia, antes de ser conduzida novamente para casa. Aceitou recebê-lo em seu corpo, mas já não sabia dizer se havia o mesmo desejo de antes nessa aceitação.

Talvez o seu menino já não fosse mais tão seu, por mais que ele insistisse em falar o contrário.

Na semana seguinte, depois de um mês desempregado, ao mesmo tempo em que arranjara um novo emprego, com a ajuda de seu tio, Danilo era chamado a depor na delegacia.

Estranho, pensava ele, que só haviam tomado seu depoimento informalmente, no dia do crime, que depois o chamaram para a reconstituição e que só então é que o chamavam a depor oficialmente, depois de tanto tempo.

Teria Suélen resolvido falar a verdade?

Fosse assim, a polícia sabia da sua participação e as coisas podiam se complicar para o seu lado.

Estranho, como aquela sua vontade e força inicial de contar tudo, de repente havia sumido. Bastou pensar em ser preso para mudar completamente sua opinião, perder sua coragem.

O fato é que pilotou sua moto até a delegacia sem ter mais a certeza de que o melhor seria revelar toda a verdade e assim livrar Suélen de uma incriminação que, na verdade, ela não devia, pelo menos não devia sozinha, e muito menos da maneira como havia declarado à polícia.

Por outro lado, a frieza com que Suélen o tratou naquele dia na casa, sem lhe dar a mínima atenção, já havia provocado no garoto um certo sentimento de aversão pela menina, ou pela sua conduta.

Mesmo que descontasse a imensa pressão psicológica que ela devia estar sentindo naquele dia, ainda assim ficava difícil não considerar sua frieza.

Mas topou com ela na delegacia.

Por alguns instantes esteve frente a frente com Suélen, ali no corredor, enquanto aguardava. A menina estava sendo conduzida por um policial, algemada com as mãos para trás, cabeça baixa.

Danilo não resistiu e a chamou pelo nome.

– Suélen!

Desta vez ela levantou a cabeça, sorriu, deixou sair algumas palavras, ainda que abafadas, enquanto o policial parava sua marcha e a deixava em contato com o rapaz.

– Oi! – tentou sorrir. – Como você está?

– Eu estou bem mas…

Suélen o interrompeu.

Porém, mesmo que não fosse ela, a própria torrente de pensamentos de Danilo o fez parar.

Estava para dizer que precisavam conversar, esclarecer as coisas direito, dizer que queria ouvir dela as razões porque se negava a contar a verdade.

Mas sabia que não podia falar tudo aquilo na frente do policial e das demais pessoas que estavam ali, que pararam para ver a menina, o reencontro dos dois.

Pessoas que ele nem sabia quem eram.

Por isso, até agradeceu quando Suélen o fez parar.

– E a Su e a Samanta?

Da mesma forma que Danilo costumava abreviar o nome de Suélen para Su, ela também abreviava o nome da irmã Suzana, exatamente a irmã que parecia lhe causar maiores preocupações.

A irmã que fizera aniversário alguns dias antes, sem festa alguma. Pelo menos era assim que ele imaginava.

– Não sei. – respondeu Danilo, como que a pedir desculpas por não saber das meninas. – Mas justificou-se. – Não me deixam vê-las.

Sabia que isso era uma mentira. Mas sabia também que era mentira apenas em parte, pois pensara nas meninas, apenas não tentou encontrá-las por saber que não iriam permitir nenhum encontro.

Diante do olhar triste de Suélen, pensou em tomar seus ombros, beijar-lhe a face, mas o policial a afastou, conduzindo-a para detrás de uma porta, para uma cela, com certeza.

Em seu depoimento não foi feita nenhuma pergunta que já não havia sido feito antes. Não havia nada de novo, o que indicava que Suélen continuava irredutível no seu desejo de manter aquela versão dos fatos que havia criado desde o momento do crime.

Mais uma vez, diante do delegado, Danilo sentiu vontade de falar tudo. Mas temia. Porém, não sabia mais se temia pelas razões de Suélen ou por razões próprias, pelo medo de ficar preso.

Não disse nada.

Ao sair, quando já estava dando partida na moto, no pátio da delegacia, ouviu chamarem seu nome.

Era o mesmo policial que antes estava conduzindo Suélen.

O homem se apresentou como investigador Odair e perguntou se Danilo podia conversar com ele um pouco, mas não naquele local.

– Vamos tomar uma cerveja juntos. – disse o homem. – Hoje não, porque estou de plantão, mas amanhã à tarde… à noite.

– E sobre o que vamos conversar? – perguntou Danilo.

– Não é nada formal. – disse o investigador. – É que eu sinto que há alguma coisa estranha nesse caso, algo que não foi revelado, que não querem revelar, entendeu?

Se entendia?

Com certeza Danilo entendia mais que ninguém, exceto talvez a própria Suélen. Mas não se arriscou a ir em frente, a abrir o jogo, não sabia das intenções do homem.

Marcaram o encontro, uma padaria próxima ao local da casa de Suélen, ou da antiga casa de Suélen e também dele próprio. Marcaram para o cair da noite do dia seguinte, após o horário de serviço de Danilo.

Não queria ficar faltando no seu novo emprego, ainda que fosse um emprego apenas do tipo quebra-galho, pois ganhava muito menos que no anterior e sequer tinha registro em carteira.

Mas como já havia faltado naquela tarde, aproveitou para ir até o emprego de Cátia, pensando em oferecer-lhe uma carona até sua casa. Perdeu a viagem. Informaram-lhe que ela já havia saído de carona com alguém, provavelmente com uma colega.

Rumou então até a casa da namorada, esperando, talvez, chegar lá antes dela, pois que de moto andava muito mais rápido no trânsito.

E de fato chegou antes, mas a mãe de Cátia lhe informou que ela não estava vindo para casa, pois havia marcado com uma colega de serviço para visitarem uma outra colega que acabara de sair da maternidade.

Um tanto frustrado, ofereceu à mulher o telefone da casa do tio, onde estavam morando, e também do seu serviço, este apenas para recado. Pediu que Cátia ligasse para a casa de seu tio assim que chegasse, pois precisava muito falar com ela.

Despediu-se da mulher e foi para casa.

Esperou ansiosamente até por volta das onze horas, horário em que seus tios costumavam dormir, mas ninguém ligou.

Mas por que lhe acendera aquela vontade imensa de falar com Cátia?

Sabia que tinha necessidade de vê-la, que gostava dela, mas a razão dessa sua vontade era outra. Precisava falar do seu pequeno encontro com Suélen.

Ligou para o emprego de Cátia na tarde seguinte. Ela o atendeu com alegria, e pedindo desculpas por não ter ligado na noite anterior, pois chegara muito tarde e achou que iria incomodar seus tios.

– Mas onde a moça foi para chegar assim tão tarde? – perguntou Danilo, em tom de brincadeira.

– Nem foi tão tarde, acho que era uma dez horas. Sabe como são essas visitas, uma quer conversar, outra quer contar as novidades, tem café, bolo. A gente vai sair nesse fim de semana? – pergunta repentinamente, como querendo mudar o rumo da conversa.

– Acho que sim. – responde Danilo. – Se você quiser.

– Mas claro que quero.

– Mas porque só no fim de semana? Não posso nem mesmo ir na sua casa?

– Mas claro que pode, seu bobo. Aliás, deve. Mas isso não é sair. Você vem hoje? – pergunta.

Ele então explica que não, que há um investigador de polícia querendo falar com ele sobre Suélen.

– Eu a vi hoje, mas não conseguimos conversar. Ela só perguntou das irmãs.

– Sei. – diz Cátia, demonstrando pouco interesse na conversa.

Danilo percebe, e resolve mudar de assunto, desligar, dizer que depois conversavam melhor. Mas é Cátia, então, quem resolve continuar no mesmo assunto.

– E era por isso que você estava tão aflito em falar comigo? – pergunta. – Para falar dela?

Depois de algumas palavras evasivas e outras pequenas trocas de acusações, Danilo desliga, dizendo que daquela maneira não seria possível continuar a conversar.

Mais tarde vai ao encontro do investigador.

Era uma sensação estranha estar ali, tão perto do lugar onde nasceu e cresceu. Mas aquelas ruas e aquela padaria agora pareciam longínquas para Danilo, num outro mundo.

Foi reconhecido na padaria, cumprimentado, mas ninguém fez qualquer pergunta sobre o caso.

Por sorte, logo o investigador Odair chegou, sentando-se ao seu lado.

Pediram cerveja.

– Se quiser um lanche, pode pedir. – disse o investigador. – É por minha conta. Sei que sua situação financeira não deve ser das melhores, depois de tudo que houve.

– É – suspirou Danilo. – Meus pais estão aguardando ainda o dinheiro da rescisão do contrato. O advogado do tio de Suélen é quem está cuidando disso. Mas ainda não estamos passando fome. Minha mãe me espera para jantar.

– Então me diga o que foi que aconteceu exatamente naquela casa, naquele dia? – pergunta Odair, demonstrando querer ir direto ao assunto.

– O que houve é o que todo mundo sabe.

– Você conhecia muito bem aquela garota, não conhecia?

– Claro! Ou pelo menos eu pensava que conhecia.

– Mas vocês não eram namorados.

Essa afirmação pega Danilo de Surpresa e ele não sabe exatamente o que dizer.

Se confirmasse, então ficaria claro para o investigador que a história contada por Suélen não era exatamente aquela que constava dos autos oficiais.

Se negasse, perderia mais uma vez a chance de começar a esclarecer definitivamente a estranha situação que Suélen havia criado.

Preferiu encontrar outra saída.

– Posso saber por que exatamente você ou o senhor…?

– Pode me chamar de você. Tenho apenas quarenta e oito anos.

– Certo. Mas posso saber o porquê dessa conversa?

– Você está escondendo alguma coisa, não está? – pergunta o investigador.

– Sou obrigado a responder?

– Não! Claro que não. Da mesma forma que também não sou obrigado a te perguntar. Isto não é um interrogatório. Eu podia muito bem estar em minha casa agora, junto da minha mulher, dos meus filhos. Tenho duas filhas, sabia? E gosto muito delas. São dois tesouros que tenho e faço tudo por elas.

– Meus pais também gostam muito de mim. – diz Danilo, enquanto bebe um longo gole da cerveja gelada.

– Os pais sempre gostam dos filhos. – diz o investigador. – Tanto gostam que podem até mesmo tomar certas atitudes que contrariam a vontade dos filhos. Mas os pais sabem o que é bom, e por isso tentam proteger seus pequenos. Infelizmente, chegam a proteger demais e acaba acontecendo coisas como o que aconteceu com essa menina. Com ela e com alguém mais que estava junto com ela naquele dia.

– Eu estava com ela naquele dia.

– Na hora do crime?

– Não.

Só Danilo podia entender o quanto era grande sua vontade de ter dito sim, mas continuava na dúvida sobre o ponto onde o investigador queria chegar.

Mas o homem parecia entender muito mais da situação do que ele supunha. Talvez Suélen tivesse dito algo, mesmo que não intencionalmente.

Odair tomou da sua cerveja e depois falou calmamente, enquanto olhava para a rua.

– Aquela menina precisa de um pai. Precisa de uma mãe, de um amigo, de alguém que a entenda.

– Por que está dizendo isso?

– Você não tem vontade de entendê-la, protegê-la, fazer alguma coisa por ela?

– Sinceramente, eu não sei.

– Que belo namorado é você então! Não é mesmo?

Danilo havia caído na armadilha que o homem preparara com as palavras. Tentou consertar as coisas, inventando uma mentira.

– Talvez um namorado abandonado. Nos últimos tempos a gente…

– Será que ela o abandonou quando descobriu que você tinha outra? – interrompeu o investigador.

– Que outra?

– Uma tal de Cátia, por exemplo?

O investigador Odair não era páreo para a inteligência de Danilo. Não que o rapaz não fosse inteligente. Era até demais. Mas acontece que a longa experiência de Odair o fazia, por assim dizer, tirar leite das pedras. Por isso ele conduzia a conversa de forma a obter certas verdades mesmo quando estava ouvindo mentiras.

Talvez, ou provavelmente, tivesse usado essa mesma experiência com Suélen e tinha assim obtido da menina confissões que não constavam das anotações oficiais.

Mas essa mesma experiência do investigador o fez parar com as perguntas, encerrar a conversa, mudar de assunto. Percebera, provavelmente, que naquele dia não iria conseguir arrancar mais verdades de Danilo ou, então, as que tinha arrancado já eram suficientes, pelo menos por enquanto.

Mudou de assunto, mas não deixou de plantar uma semente nas reflexões de Danilo, uma semente destinada a germinar, crescer e dar frutos em momentos seguintes.

Falou, com voz pausada, e ainda olhando para a rua, enquanto segurava na mão o seu copo.

– Aquela menina não é uma assassina. Não é ruim. Não é cruel. Não deve ter feito tudo aquilo por causa de uma simples paixão boba. Muito menos uma paixão por alguém que é dividido por outra. Mas não vamos mais falar sobre isso. Você conheceu Suélen muito melhor do que eu. Se alguém pode saber de tudo isso que estou dizendo é verdade ou não, esse alguém e você. Seus pais e até mesmo as irmãs dela também poderiam, mas você é quem sabe mais. Mas se você não quer ir a fundo para entender tudo isso, não sou eu quem vai te obrigar.

Você está enganado. – pensava Danilo. – Quem mais poderia conhecer Suélen se não ela própria ou, então, suas irmãs? Suzana, talvez. – pensava.

Decidiu ir embora. Não tinha mais nada a conversar com o investigador, nem esse parecia interessado em fazer mais perguntas ou afirmações que confundiam sua cabeça.

Pilota de volta para casa, tenta pensar em tudo, raciocinar sobre a conversa com o policial, a certeza daquele homem de que Suélen não estava falando a verdade.

Mas o pouco de cerveja que havia tomado deixa seus pensamentos leves e sem coordenação. Tudo passa e acontece ao mesmo tempo, a noite, o trânsito, uma pequena garoa, talvez mais uma névoa que tenta desfazer aquele ar seco do inverno já adiantado da cidade grande e poluída.

Sentir os pensamentos vagar sem coordenação pode ser algo agradável quando se tem algum tipo de peso, principalmente quando esse peso vem na forma de um pensamento fixo que não se consegue afastar e muito menos dominar.

E o seu pensamento era Suélen.

Já havia se arrependido alguns dias antes por não ter percebido a mudança de Suélen quando se fez moça, quando deixou de ser aquela moleca sapeca que vivia invadindo sua casa em busca dos doces que sua mãe fazia, para então se transformar em alguém frio, distante.

Por que não notara essas mudanças em Suélen?

Agora tinha mais uma razão para se arrepender.

Também nos últimos dias chegou mesmo a pensar que se Suélen estava lá presa, e se fosse ficar pelo resto da sua vida, isso era problema dela, e não seu. Chegou a acreditar que Suélen devia ter suas boas razões para querer eliminar os pais, que tramou tudo aquilo, armou aquela saída com ele, e nem precisava ser num motel.

E até mesmo acreditou que ela esperava contar com sua ajuda na hora de dar fim aos pais.

Mas não conseguiu acreditar nisso por muito tempo.

O mistério de Suélen era maior do que o medo que ele próprio sentia de confessar a verdade e ficar preso também, tal como ela.

Arrependia-se por não ter tido a coragem de falar a verdade, nas várias vezes que teve oportunidade.

Ainda tinha oportunidade, faltava a coragem.

E agora vinha aquele homem, um senhor de olhar calmo, de voz inteligente, que faz perguntas certeiras.

Mas esse homem não estava odiando Suélen como todos estavam. Não estava usando suas palavras inteligentes para incriminar ainda mais a menina. Pelo contrário, tentava arrancar dela ou de alguém ligado a ela, a verdade salvadora.

Mas que verdade era essa?

A duas quadras da casa de seus tios, agora sua casa, havia uma pequena padaria, um balcão, uma dose de conhaque puro, virada quase que de uma única vez, queimando a garganta, ferindo o mais fundo da alma.

Que seus pensamentos voassem mais descoordenados do que já estavam.

Danilo precisava disso.

Ainda teve tempo de pilotar os dois quarteirões faltantes e guardar a moto na mesma garagem onde o tio guardava o carro, antes que a bebida começasse o seu efeito devastador, curador.

Sua mãe percebeu seu estado, enquanto procurava auxiliá-lo com a preparação de um prato. Queria esquentar melhor a comida ainda morna, mas não insistiu muito. Sabia que o filho era assim mesmo, acostumado a fazer o seu próprio prato e não se preocupar muito com a temperatura do alimento.

Sentou-se com ele na mesa, contou que seu pai ainda não chegara e que estava trabalhando numa obra ali perto, assentando tijolos, ajudando na construção de uma casa.

7

O pouco de coordenação na cabeça de Danilo ainda teve forças para fazê-lo pensar ser ele o culpado por estar agora seu pai trabalhando num serviço assim tão pesado. Se não tivesse se deixado levar pelo convite de Suélen naquele dia, pela graça do corpo de Suélen, pelo seu desejo bobo, pela aventura sem sentido.

Por sorte essa força logo se desfez, no tempo de um jantar apressado, um banho e o sono, ali mesmo no sofá, onde recostou-se, e onde também dormia, nessa sua nova casa. Sua mãe o cobriu. Talvez adivinhasse que o filho tinha coisas muito mais sérias na cabeça do que deixava transparecer.

Foi uma noite de sono agitado.

A bebida apaga os pensamentos num primeiro momento, faz dormir e esquecer tudo. Mas depois do primeiro sono pesado, perde-se a capacidade de dormir novamente e a pessoa é levada a ficar virando o corpo de um lado para o outro na cama, procurando uma melhor posição para estar, mas sem encontrar.

Deitado num sofá, Danilo não podia mudar muito de posição. Mesmo assim revolveu-se de um lado para outro, e pensou muito.

Pensar é o efeito imediato, o subproduto da insônia.

E o pensamento que mais acometeu Danilo naquela noite foi o pedido de Suélen a respeito das irmãs, querendo saber como estavam como se fossem elas as únicas pessoas que lhe importavam.

Mas foi mais longe.

Todo o nervosismo e a agitação daquele terrível dia, havia apagado da memória de Danilo uma outra referência de Suélen às irmãs, principalmente à irmã Suzana. E de repente lembrava-se claramente de como a menina havia pedido para que ele cuidasse das irmãs, alguns minutos antes de contar à polícia que fora ela a única autora do crime.

Mais que isso, porém, uma outra frase dita por Suélen martelou sua cabeça a noite toda e ainda persistiu na manhã seguinte:

– “Pelo menos agora sei que elas estão bem”.

Foi isso o que Suélen disse, quando pediu a ele que não se envolvesse na confissão e que tomasse conta de suas irmãs.

Pelo menos agora elas estão bem.

Mas por que estariam bem as meninas, depois da morte dos pais? Seriam elas, talvez, maltratadas pelos dois?

Suzana fizera 14 anos umas três semanas antes. Lembrou-se de como Suélen fez referência ao aniversário da irmã do meio, sem nenhum outro motivo. Talvez devesse conversar com Suzana. A menina devia saber alguma coisa que ninguém mais sabia, que ele não sabia.

Seu modesto emprego, assim como o bico que agora seu pai estava fazendo, eram as únicas fontes de renda da família. Esperavam a rescisão do contrato, o recebimento do Fundo de Garantia, mas não sabiam quando isso aconteceria. Não era uma simples rescisão de contrato, havia outras questões envolvidas e Danilo já desconfiava de que o tio de Suélen, por meio do advogado, estava a fim de complicar as coisas.

Enquanto aguardavam, não restava então outra saída que não a de manter aquele emprego, trabalhar sem causar problemas, mesmo porque, sua fama, depois de tantos comentários em jornais e televisão, já não era das melhores… o rapaz que desviou a cabeça da menina.

Trabalhou os dias restantes da semana e só na sexta a noite lembrou de ligar para Cátia, marcar alguma coisa com ela.

– Vem aqui amanhã à noite! – pediu a garota, depois de alguma conversa.

– Você não quer sair?

– A gente vê.

No sábado, aproveitou para lavar a moto, trocar o óleo do motor, ajustar a corrente, cuidar enfim da sua ferramenta de trabalho. Depois foi com o pai ajudar no enchimento da laje daquela casa onde ele estava trabalhando.

Um dinheiro a mais não era mal. – pensava ele.

Só no cair da noite é que tomou seu banho, escolheu uma roupa, pensando em partir em direção à casa de Cátia.

E foi ao comer um lanche que sua mãe havia preparado como jantar daquele dia, que sentou-se frente a televisão e Suélen era a notícia principal daquele noticiário sensacionalista que seus pais costumavam assistir. Aliás, também ele passou a assistir com frequência, depois que Suélen havia se tornado o prato principal de todos esses noticiários.

Mas a notícia principal daquele dia o entristeceu. Depois de mais de um mês presa, foi permitido à garota participar do dia de visita, junto com as demais detentas daquela delegacia, mas ninguém havia comparecido para visitá-la, nem seus tios, nem suas irmãs.

– Se eu soubesse, teria ido. – Comentou com Cátia, enquanto conversavam na escada da frente da casa, depois que já havia cumprimentado os pais da namorada.

Cátia até que parecia disposta a ouvi-lo falar sobre Suélen ou, pelo menos, se esforçava. Mas depois de mais de meia hora de conversa, em que praticamente não falaram sobre outro assunto que não fosse Suélen, irritou-se.

– Durante essa semana você parecia tão a fim de falar comigo. Era por isso? Para falar dela o tempo todo?

Danilo sabia que Cátia tinha razão, e entende perfeitamente o que ela está sentindo. Ele também não suportaria se a situação fosse o contrário. Por isso, mesmo sem ter ainda a certeza do que estava fazendo, resolve que era chegada a hora de não ficar mais carregando aquele segredo e aquela pressão toda sozinho.

– Eu sei que você tem todo o direito de me perguntar isso Cátia. – diz ele, segurando suas mãos e procurando fitá-la nos olhos. – Mas tem mais coisas que você precisa saber.

– Disso eu sei. E é disso que tenho medo. Talvez eu nem queira ouvir.

– Mas me escute, por favor. Eu não estou aguentando mais e preciso falar com alguém. E você é a única pessoa com que eu posso falar. O problema é que…

Suas lágrimas, de alguma forma, comove a menina, que lhe devolve o afago nas mãos e depois apalpa seu rosto, com ternura.

– Pois então fale. – ela disse.

Danilo conta a Cátia sua participação no crime.

– Ela não matou os pais sozinha. – falou, de forma rápida e decidida, como se não pudesse fazer de outro modo, temendo talvez interromper-se.

Cátia não o interrompe. Apenas espera que ele continue, e então ele conta exatamente tudo o que aconteceu naquele dia, desde o momento em que chegou na casa com a moto, até o momento em que retornou com Suélen de carro e o acontecido com seus pais. Depois enfatiza o pedido de Suélen para que ele não assumisse sua participação e também o pedido para que cuidasse das irmãs. Mas não deixa de lembrar aquela frase que ainda sacudia seus pensamentos: “Pelo menos sei que agora elas estão bem”.

– Comovente! – suspirou Cátia, ainda com o braço entrelaçado ao dele, mas sem tocar suas mãos, e com o olhar vago nas plantas que o vento balouçava de leve.

– Comovente? – pergunta ele, como que esperando algo mais por parte dela.

– É. – diz ela, secamente, e depois continua – Mas você podia pelo menos tirar a parte do motel, assim ficaria mais fácil me comover.

– Por que? Você não está acreditando no que te falei? É a verdade.

– Claro que é! Eu já estava mesmo adivinhando que você esteve num motel com ela. Quem sabe não foi naquele mesmo onde me levou outro dia? Mas imagino também quantos outros motéis, quantas outras vezes. Ou vocês se encontravam lá mesmo, na vossa casa. Era tão fácil, não é? Os dois ali, no mesmo quintal…

– Pare! Pelo amor de Deus. Você não sabe o que está falando.

– Acho que não sei mesmo. Boba como fui todo esse tempo.

– Eu estou te pedindo ajuda e você…

Danilo chora.

Depois de algum tempo consegue se refazer, e então volta a suplicar um pouco mais de compreensão.

– Sei que pisei na bola, Cátia. Não devia ter saído com ela naquele dia. Devia ter desconfiado que havia alguma coisa errada. E mesmo que não tivesse, reconheço que errei e que te enganei. Mas tem mais coisa, tem…

– Pois eu não sei que tem? Seria mais fácil se você abrisse logo o jogo. Ou melhor, nem é preciso. Ela já contou a verdade. Por que você quer negar, quer falar de outra forma? Se você pelo menos fosse sincero, talvez até pudesse me fazer pensar melhor sobre a nossa situação.

– Como assim? O que você quer dizer com isso?

– Quero dizer que estou confusa, atrapalhada, e não estou a fim de acreditar em mais nada. Pelo menos não enquanto você não se resolver a me contar toda a verdade.

Danilo sentiu-se sozinho.

Ainda insistiu com mais algumas palavras, algumas juras, mas estava sozinho. E nem mesmo era o amor de Cátia o que mais o preocupava naquele momento; era a solidão de não ter a quem recorrer, abrir-se, revelar-se.

O longo trajeto entre a casa de Cátia e a sua nova casa nunca lhe pareceu tão curto. Talvez não tivesse nem mesmo percebido o caminho. Era como se algo tivesse lhe apagado tudo da memória e ele se lembrasse apenas do pequeno beijo de despedida em Cátia, a moto funcionando, e então já estava ali, próximo à pequena padaria.

Dessa vez não foi uma dose de bebida, foram mais, e acompanhada de cervejas, uma, duas.

Dessa vez não houve tempo de chegar em casa com a moto antes que o álcool fizesse efeito.

Por sorte conseguiu guardar o veículo sem nenhum incidente mais grave, mas cambaleou, caiu, quebrou um dos espelhos retrovisores da moto e uma lanterna do pisca-pisca. Mas só no outro dia, no domingo, é que iria se dar conta disso.

Antes disso teria uma outra noite agitada.

Uma noite para se perguntar inclusive o que estava acontecendo com ele. Nunca fora de beber. Quando muito tomava uma cerveja, algum gole de batida aos domingos, nos churrascos. Só tomara conhaque uma vez por insistência de um colega de serviço. Por que agora estava usando a bebida como recurso? Seria a bebida a Cátia que lhe faltava, a confiança? De que adiantou contar tudo a ela, se nem ao menos ela acreditou?

No domingo, enquanto avaliava o estrago na moto, enquanto tentava acalmar seus pais, principalmente sua mãe, dizendo que não havia com que se preocuparem, Danilo lembrou-se do investigador Odair. Talvez fosse ele a pessoa de confiança que ele tanto precisava. Ou talvez não. Quem lhe garantia que o homem, com toda sua astúcia, não estava a fim de incriminá-lo também. Com certeza, bastaria que deixasse escapar sobre a sua participação no crime, para que o homem lhe desse voz de prisão.

Se ao menos pudesse ficar preso junto de Suélen! Poderia então conversar com ela, fazer com que ela contasse a verdade, a verdade que apenas ela sabia.

Domingo era dia de sair com Cátia. Em algumas vezes, nos últimos tempos, iam para um motel, em outras esticavam uma pequena viagem a algum lugar qualquer. Muitas vezes apenas circulavam com a moto pela cidade, parando em algum lugar para fazer lanche. Naquele domingo não podia ir ver Cátia.

Com certeza ela o receberia com a mesma frieza que lhe dera tchau no dia anterior, se é que o receberia.

Não queria ver Cátia.

Queria conversar com alguém que acreditasse nele.

Passou o dia junto dos pais, vendo televisão.

Chegou a segunda-feira, dia 26 de junho, e logo cedo, uma visão inesperada iria mudar o rumo da torrente de pensamentos de Danilo. Ele chegou mesmo a acreditar que Deus escreve certo por linhas tortas.

Não fosse a queda com a moto e esta visão talvez não tivesse acontecido.

Estava saindo de uma loja de motopeças, onde fora comprar o espelho e a lanterna da moto, pois sem eles não poderia trabalhar tranquilo, quando avistou no farol um rosto conhecido no banco detrás de um carro. Apesar de ser um rosto familiar, de menina, não conseguiu se lembrar de imediato quem era a garota, a não ser alguns minutos depois, quando o carro já havia desaparecido na movimentada avenida.

Eram duas garotas, e a que ele reconheceu era uma das amigas de Suzana, uma meninota que costumava frequentar a casa onde eles moravam.

Seguiu pela avenida como alguém que procura o ar para respirar. Olhou carro por carro, esquina por esquina, e avançou um sinal vermelho quando, finalmente, avistou mais à frente o mesmo modelo e a mesma cor do carro que tinha visto antes, com a menina dentro.

Aparelhou com o mesmo em seu lado esquerdo e pode conferir o mesmo rostinho. Não tinha dúvidas de que era a amiga de Suzana.

Uma mulher dirigia o carro e, ao lado da menina havia uma outra garota. Ela não podia vê-lo por causa do capacete, e mesmo que visse, talvez não o reconhecesse, pois tiveram pouco ou mesmo nenhum contato anterior.

Pensou em abordar a mulher e pedir que parasse o carro, mas não o fez por dois motivos. Um, seria para o caso de ela não o reconhecer como o Danilo, namorado da moça assassina, e o tomar por algum assaltante. O outro seria exatamente para o caso de ser reconhecido. Sua fama não era das melhores naquele momento.

Sua sorte mudou instantes depois, porém, quando a mulher entrou com o carro num ponto de parada, em frente a um shopping, e as duas garotas desceram.

Danilo mal teve tempo de achar um lugar para deixar a moto e correr atrás das meninas. Alcançou-as ainda atravessando o grande estacionamento e colocou-se na frente das duas. Ambas se assustaram e só não fugiram correndo porque ele mencionou o nome de Suzana, dizendo saber que eram amigas. Suzana e Samanta.

– Você é o Danilo? – perguntou a menina, dando a entender que agora as coisas estavam mais complicadas ainda para ele. Com certeza a garota não iria querer conversa. Mas ele tratou de persuadi-las.

– Por favor, me escutem nem que seja apenas um segundo. Eu preciso muito falar com você, sobre a Suzana, a Samanta, a Suélen… Sei que vocês podem estar com medo de mim. Andam falando muita coisa a meu respeito. Mas nada é verdade. Como também não é verdade as coisas que dizem de Suélen. Mas, se vocês estão com medo, a gente entra ali no shopping, vamos num lugar cheio de gente. Eu não sou bandido, não sou nada.

Ainda que relutantes, as meninas o acompanharam pela portaria do shopping e foram sentar, os três, num dos bancos do movimentado corredor.

– Na verdade, eu precisava mesmo era falar com a Suzana e a Samanta – começou Danilo. – Principalmente com a Suzana. Mas não tenho como. Já pensei até em procurá-la na escola, mas acho que ela está sendo vigiada o tempo todo.

– Mas por que, você quer falar com ela? – perguntou a menina.

– Se você pudesse me dar um telefone dela ou, então, pedir para ela me ligar.

– Mas por que? – insistiu ela.

– Escuta. A Suélen, antes de ser presa, estava muito preocupada com a sorte das irmãs. Chegou até mesmo a me dizer que agora, sem os pais elas estavam bem.

– Ela disse isso?

– Disse. Eu não sei por que, mas algo me diz que… você sabe… tudo o que ela fez, tem alguma coisa a ver com as irmãs ou com os pais e as irmãs. Não sei se eles praticavam algum tipo de violência com elas ou qualquer coisa assim.

– Eu também não sei. – disse a menina. – Nem a Suzana nem a Samanta nunca me falaram nada.

– Fala da fuga! – disse a outra menina, que até então apenas prestava atenção na conversa.

– Fuga? Que fuga? – perguntou Danilo apressado.

– Não é fuga. – disse a amiga de Suzana. – É que ela, a Suzana, comentou com a gente que a Suélen havia falado várias vezes para ela ir morar com a avó, lá no interior.

– Morar com a avó?

– É. Ela queria convencer Suzana a ir morar lá, dizendo que lá era melhor, que a vida era mais tranquila, umas coisas bobas. E depois, teve uma vez em que sugeriu que as três fugissem para algum lugar qualquer. Acho que ela já estava meio doida mesmo.

– Mas você sabe por que ela queria que as três fugissem?

– Não sei, não. E também não sei se a Suzana sabe.

Agora sim é que Danilo precisava mesmo falar com as pequenas. Pediu insistentemente que a garota lhe fornecesse o telefone da amiga, mas ela não o fez, dizendo que não sabia de cor e que precisava ver em sua agenda, que estava em casa.

– Então peça para ela me ligar. Por favor? – pediu Danilo, quando percebeu que não devia forçar a menina a fazer o que ela não queria ou temia fazer.

E forneceu o número da casa de seu tio, pedindo para que avisasse Suzana para ligar à noite ou no final de semana.

– Fala para ela me ligar. – insistiu Danilo. – Você nem sabe o quanto isso é importante.

– Eu vou falar. – disse a garota. – Mas não posso obrigá-la.

– É claro! Eu sei. Mas diz para ela ligar.

Agora as coisas estavam mais claras, ou mais confusas ainda, pensava Danilo, enquanto se dirigia para sua moto, após ter deixado as garotas em seu passeio pelo shopping.

Só então se lembrou que não sabia o nome da garota, e que também não havia perguntado, se bem que saber apenas o nome pouco iria ajudar no caso de querer falar com ela novamente. Tudo o que podia fazer era torcer para que Suzana Ligasse.

Danilo passou uma semana de dupla ansiedade.

Esperou que menina ligasse, mas ela não ligou.

Esperou pelo sábado, pela visita a Suélen.

Esqueceu-se de Cátia ou não teve coragem de procurá-la, como também não se encorajou falar com o investigador Odair.

Queria falar com Suélen antes.

Esperando falar com ela na visita, nem se importou muito que Suzana não tivesse ligado.

Na sexta-feira à noite pediu à sua mãe que preparasse aquela canjica que só ela sabia fazer e que Suélen gostava tanto. A mulher teve também de arranjar com a cunhada um pote plástico que pudesse transportar aquele alimento quase líquido na garupa da moto, sem derramar.

Mas no sábado, na última hora, a mãe quis ir também. Não podia entender como, mas de repente sentiu que não tinha razão alguma para sentir o mesmo ódio pela menina que o mundo inteiro estava sentindo. Pelo contrário, lembrava-se meigamente da menina moleca Suélen, da menina, Suélen, da mocinha Suélen. Era uma doce criança e, talvez, nem tivesse feito tudo aquilo com tanto ódio como parecia demonstrar as notícias.

O Senhor Ricardo também tinha doces lembranças da menina, mas mandou apenas um abraço. Parecia ainda não ter aceitado completamente a perda do emprego e da residência, por causa de um ato impensado da garota.

Mas Dona Helena estava disposta mesmo a ir na garupa da moto do filho, e iria, não fosse o irmão resolver ceder o carro na última hora.

Mas, talvez, o que mais Dona Helena quisesse era poder conversar com o filho, saber dele alguma coisa que ele parecia ter para contar, mas não sabia ou não podia como ou para quem contar.

Instinto de mãe não se engana.

Mas o problema era como atingir o filho, como fazê-lo se abrir. Apesar de todo o amor que dedicara, ela e o marido, àquele filho único, nunca foram de ter um diálogo maior, isso devido à própria formação que tinham, pois não cresceram aprendendo a ter diálogos com seus próprios pais.

De qualquer modo, de um jeito ou outro, sabia que precisava falar com o filho, ou ele com ela.

– Você não namorava com ela? – perguntou, tão logo ganharam alguma distância da casa.

– A senhora sabe que não!

– Talvez eu não saiba. Esses namoros de hoje em dia, nem sempre são aparentes. Muitas vezes as pessoas namoram, se encontram de vez em quando e ninguém fica sabendo de nada. Quem não deve ter gostado disso foi a Cátia. Você a abandonou, não?

Talvez Dona Helena tivesse começado do modo errado. Com tanta coisa que queria saber, o correto seria fazer uma pergunta de cada vez.

O próprio filho a interrompeu.

– Daqui a pouco não vou saber mais o que te responder, mãe. Faça uma pergunta de cada vez.

– É! – disse ela. – Sei que tenho maninha de falar demais. Mas então me fale pelo menos do namoro de vocês. Sabe que até faria gosto, apesar de também gostar da Cátia, mas…

– Mãe! – riu o rapaz, não sabe como, diante da metralhadora de palavras da mãe. – Se quer mesmo saber, nunca tive nada com Suélen. Nunca, nunca mesmo. Tudo o que aconteceu entre gente, foi naquele dia. Ela me esperou no portão, me chamou para sair e fui mais por insistência dela.

– Você acha que fazia parte do plano dela?

– Não sei. No início eu pensava assim. Pensava que ela tinha me usado para poder provocar os pais e então ter uma razão para brigar com eles. Mas agora não acredito mais nisso.

– E por que não?

– Por uma série de razões, mas tem uma que é muito simples. Se ela queria uma desculpa para poder brigar com os pais, então por que confessou que já pretendia matá-los?

– Não estou entendendo, filho. – disse a mãe, pensativa.

– Pensa bem mãe. Ela só precisaria de uma razão e de uma justificativa para matar os pais se quisesse sair livre. Entendeu? Fosse assim, e então ela teria dito à polícia que tudo aconteceu porque havia sido agredida pelos pais e então reagiu daquela maneira. Poderia até dizer que foi algo acidental, que não havia intenção. Mas foi exatamente o contrário.

– Como assim, o contrário? O que é que você sabe a mais?

Danilo sentiu que havia falado um pouco demais, mesmo sabendo que era isso mesmo o que deveria fazer, que deveria falar com a mãe, com o delegado, com o investigador Odair. Mas precisava falar com Suélen antes. Então desconversou e levou a mãe a entender que ele não havia dito nada. Procurou falar de outras coisas, da vontade de ver Suélen, da felicidade que ela teria ao vê-la, ao receber o pote de canjica.

8

– Danada! – fez a mãe. – Ela nem esperava esfriar. Eu tinha de tirar da panela e servi-la antes mesmo de parar de borbulhar.

– Ela se dava bem com a senhora, mãe? – perguntou o rapaz, tentando investigar o passado recente de Suélen, aquele passado que ele julgava não ter dado a devida importância.

– Claro que a gente se dava bem! – disse a mãe, apressadamente. – Nos últimos tempos, inclusive, ela andava mais amorosa ainda. Por isso é que não dá para acreditar no que ela fez.

Danilo ficou confuso.

Teria Suélen se transformado durante os últimos anos apenas para ele, para os meninos? Ela gostava de Cátia, gostava das irmãs, da sua mãe. Só não tinha namorado.

O resto do trajeto fui cumprido com outras conversas, outros assuntos, mas sempre trazendo de volta a vida naquela casa, a garota, suas irmãs, os pais.

Ainda era difícil entender como, de repente, tudo havia se transformado assim. Como uma garota que tinha tudo na vida, podia estar agora atrás de grossas grades, esperando a visita de um parente, de um amigo?

Uma garota que antes podia ter tudo isso no momento que quisesse, até mesmo o seu prato de canjica.

Logo na chegada à delegacia, enquanto Danilo encostava o carro em uma vaga, puderam ver as duas meninas, Suzana e Samanta. As garotas também olharam para eles, mas foram puxadas pelo tio e levadas para dentro da delegacia.

– Poxa! – fez a mãe. – Até parece que não querem falar com a gente.

Danilo então percebeu que a mãe não tinha consciência de como estavam sendo odiados pelos familiares de Suzana ou, ao menos, pelos seus tios. Mas não disse nada à mãe. Aquele não era o momento. Ela não iria entender.

Na porta da delegacia foram barrados.

Segundo o agente de carceragem havia visitas demais para a garota e teriam de esperar do lado de fora. Talvez nem fosse mesmo possível vê-la naquele dia, informou o homem.

E foi o que realmente aconteceu.

Duas horas depois ainda aguardavam, quando foram informados que estava encerrado o horário de visitas.

– Isso não é justo! – dizia Dona Helena, enquanto Danilo tentava puxá-la pelo braço, sabendo perfeitamente da inutilidade de todo o esforço para chegarem ali.

Mas Dona Helena só deixou de implorar com o agente quando este se prontificou a entregar o pote de canjica para a menina. Então foi embora, um tanto desconsolada, mas, ao mesmo tempo, perguntando se não era ela quem não queria receber ninguém, ou não queria receber a eles.

Danilo, por sua vez, imaginava que aquilo fosse obra do tio de Suélen.

Resolveu esperá-lo para trocar algumas palavras, mas esse gesto também foi inútil.

Saíram apressados da delegacia, juntamente com outras pessoas, e entraram no carro, que partiu logo em seguida. Perdeu então completamente a esperança de que a menina fosse telefonar.

Devia haver ódio no coração de Suzana.

Algum ódio que foi plantado depois daquele trágico dia. Antes a garota gostava dele, conversava, pedia para andar na garupa da moto, mesmo que apenas ali no quintal.

Mas sua frustração do dia seria compensada poucas horas mais tarde.

Sua tia foi chamá-lo no quintal, onde reinava com a moto, para atender ao telefone.

Imaginou que fosse Cátia. Até alegrou-se, pensando que talvez ela tivesse reconsiderado sua posição, talvez tivesse resolvido acreditar nele, na sua história.

Mas não era Cátia.

– Oi Danilo. – fez a vozinha do outro lado da linha, tão logo ele atendeu.

– Suzana? Que saudade menina!

– Você queria falar comigo? – perguntou a garota, sem nenhuma manifestação mais de carinho ou qualquer coisa assim.

– E muito. Eu preciso muito falar com você, sobre a Suélen. A gente precisa ajudá-la.

– Ajudar como? Depois do que ela fez? Mas me escuta. – disse a garota, mudando rapidamente a conversa. – Eu não posso falar muito. Meu tio não quer que eu…

– Que você converse comigo. Não é isso? – perguntou, quando a menina interrompeu o que dizia. – A gente pode se encontrar em algum lugar. Lá no shopping?

– Mas o que você quer?

– Não dá para falar assim. Você mesmo não está dizendo que seu tio não quer que a gente converse? Vamos nos encontrar lá no shopping.

– Lá onde você encontrou a Karen?

– É. A Karen é a sua amiga? – perguntou, apenas para confirmar, e então perguntou a que horas.

Marcaram para as duas da tarde do dia seguinte, domingo, no mesmo banco onde ele havia conversado com as duas garotas na segunda-feira, e Danilo mal pode esperar.

Nem mesmo o telefonema de Cátia no cair da noite, apenas para saber como ele estava, pareceu desviar seus pensamentos.

A namorada tentou conversar alguma coisa, como que a pedir desculpa pelo último encontro que tiveram, sugeriu saírem no dia seguinte, irem a algum lugar gostoso, se ele quisesse.

Mas Danilo recusou o convite, dizendo estar compromissado com uma laje de um vizinho da qual ia participar para encher. Ligaria durante a semana.

Naquela noite Danilo também bebeu.

Mas bebeu com a mesma moderação de sempre. Compraram pizzas, cerveja, convidaram o casal de tios, e beberam em família.

Então dormiu sem sobressaltos, apenas sonhando em falar com Suzana, como se essa conversa fosse a chave que ele procurava para desvendar todo o mistério.

No domingo, levantou-se bem cedo, que aliás era seu costume. Mas naquele dia parecia ter muitos motivos para levantar cedo. Na verdade tinha um motivo só, que era a esperança de que apressando-se iria também apressar o tempo, encurtar o espaço, estar o mais rápido possível em conversa com Suzana.

Bem antes das duas, já havia estacionado a moto, andado de um lado para outro do shopping, olhado ansiosamente para a portaria, para o banco.

E foi antes das duas também que Suzana chegou, acompanhada da amiga Karen e da irmã Samanta.

Danilo foi ao encontro das três saudou as irmãs com uma certa euforia. Mas essa euforia não foi devidamente correspondida. As meninas apenas aceitaram o aperto de mão, o beijo no rosto, e logo Suzana tratou de perguntar o que ele tanto queria falar com ela.

– Você sabe se ela recebeu a canjica? – perguntou.

– O que? – fez a menina, e ele então percebeu que ela nem sabia do que se tratava, o que significava que não haviam entregue o pote para Suélen.

Procuraram uma mesa, pediram refrigerantes e Danilo ensaiou por onde começar a conversa.

As duas se mostravam atentas, mas ao mesmo tempo pareciam incrédulas sobre as intenções dele. Com certeza estavam pensando que ele apenas queria saber da namorada. A namorada que ele seduzira, enganara, viciara em drogas.

– Foi minha mãe quem fez a canjica. – falou. – A Suélen gosta. Eu e ela fomos até a delegacia, mas não nos deixaram entrar.

– A gente viu vocês.

– Eu percebi. Mas também não quiseram falar, nem cumprimentar, nada.

A menina mais velha deu de ombro, como se estivesse demonstrando que não tinham nenhuma obrigação de fazer aquilo. Por que haveria de cumprimentar ou acenar para ele?

Danilo mudou então a estratégia e tratou de ir diretamente ao assunto.

– Vou falar uma coisa para vocês? – disse. – Eu e Suélen nunca fomos namorados. Aliás, nem sequer muito contato nós tínhamos nos últimos tempos. E tem mais. Ela não planejou fazer aquilo que fez.

– Não? – perguntou a menina mais nova, que foi logo censurada com o olhar pela irmã, como se já tivesse recebido alguma instrução para não entrar na conversa ou então não dar ouvido ao que Danilo tinha para dizer.

– Não! – confirmou Danilo. – Naquele dia havia alguma coisa estranha com Suélen…

– Ela estava drogada! – cortou Suzana.

– Não! – retrucou Danilo. – Ela não estava drogada e também nunca usou drogas, assim como eu também nunca usei. O que havia de errado com ela era na sua preocupação, no seu estado de espírito. Alguma coisa parecia a estar incomodando e ela queria fugir daquela casa. Foi por isso que ela me pediu para sair com ela, levá-la a algum lugar, qualquer lugar. Não precisava ser um motel, nada, tudo o que ela queria era fugir daquela casa.

– Bom. – interrompeu Suzana. – Ela me falou em fugir, algumas vezes.

– Mas queria que vocês fugissem? Não é isso?

A menina conta então como, nos últimos tempos, a irmã mais velha, por várias vezes, sugerira que fossem morar com a avó, no interior, até que um dia propôs mesmo que fugissem todas para algum lugar qualquer.

– Mas a gente não tinha motivo nenhum para fugir de casa. – disse Suzana. – Por que então a gente iria fugir?

– Esse é o problema, menina. Essa é a questão. – falou Danilo, pausadamente, como a medir as palavras que ia dizer. – Talvez não houvesse nenhum motivo para você, mas e para ela?

– Então? – fez menina. – Ela é que devia ter suas razões, e não a gente.

– Pois é aí que eu acho que vocês estão enganadas.

Então ele explicou em poucas palavras. Contou da preocupação de Suélen com a chegada dos quatorze anos da irmã, como se alguma coisa estivesse marcada para acontecer nessa data. Contou sobre como Suélen havia pedido que ele cuidasse dela e também de como ela falou que agora ela, as duas menores estariam bem.

– Depois que o pai e a mãe morreram? – perguntou Samanta, voltando a participar da conversa.

– Exatamente. – confirmou Danilo, não sem uma ponta de dor no coração, ao dizer isso para as duas pequenas. – A impressão que eu tenho é que com a morte de vossos pais vocês ficaram livres de algum perigo, algum acontecimento desagradável.

– Mas como? – perguntou Suzana. – O que poderia ter sido pior do que a perda dos nossos pais?

– Eu não sei. – disse ele. – Mas o que sei é que a vossa irmã devia estar vivendo algo de muito ruim. Tão ruim, que ela preferiu a prisão.

– Os tios dizem que ela está doente. – falou Samanta, com uma certa ternura na voz. E dessa vez Suzana não a censurou.

– Se vocês querem saber. – disse Danilo. – Eu não creio que ela esteja doente. Mas sei que ela deve ter um bom motivo, tanto para brigar com seus pais, como para afastar vocês deles, e também por preferir a prisão a ter que contar esse motivo. Se eu pudesse falar com ela.

– O motivo só pode mesmo ser a doença. – teimou Suzana. – Nos últimos tempos ela andava mesmo um tanto esquisita. Ficava sempre sozinha, escrevendo naquele computador, e sempre que a gente chegava perto ela fechava tudo, dizia que era segredo seu, que ninguém, principalmente nós duas, podíamos ver.

– Que computador é esse? – perguntou Danilo, como se de repente tivesse tido um estalo esclarecedor.

– Já foi dado embora. – disse Suzana. – Meus tios quiseram livrar a casa de tudo o que pertencia a ela. Até as roupas.

– Mas tão rápido assim? – surpreendeu-se Danilo. – E você não sabe para quem foi dado esse computador? Talvez lá esteja escrito alguma coisa que possa esclarecer esse mistério.

– Que mistério? – perguntou Suzana.

– Sei que não é mistério para você. – disse Danilo. – Mas tem muito mais coisas nessa história que você não sabe. Por isso é um mistério. Se você pudesse localizar esse computador.

– Não iria adiantar muita coisa. Com certeza já o formataram, instalaram outros programas.

– Não. Isso não pode ter acontecido.

O restante da conversa foi ocupado pela euforia de Danilo quanto a descobrirem onde estava o computador de Suélen, e a certeza que ele tinha de que os arquivos que ela escrevera, ainda estavam no aparelho.

Pediu e implorou para que Suzana fizesse o possível e o impossível para descobrir o paradeiro daqueles arquivos. Convenceu-a a dizer para seu tio que havia algo de muito importante que ela tinha arquivado lá e que precisava recuperar, algum trabalho de escola, qualquer coisa.

Na despedida as meninas foram menos frias do que haviam sido antes. Danilo saiu contente e esperançoso. De alguma forma sabia que o coração das duas pequenas irmãs já não estavam tão fechados para Suélen.

Voltou para casa.

Havia tempo para passar na casa de Cátia, podia inventar a desculpa de que o enchimento da laje havia sido cancelado, podia dizer que desistira do trabalho.

Mas não quis ir ver Cátia.

Sua casa era o seu lugar naquele resto de domingo.

Suzana foi bem mais eficiente do que Danilo podia acreditar, porém demorou muito mais tempo do que ele esperava, até ligar e dizer que o computador havia sido doado pelo tio a uma creche. A menina telefonou já na terça-feira, para dar essa notícia, mas foi clara em dizer que não tinha certeza de que o computador ainda estaria por lá, muito menos os arquivos.

– Vamos até lá e descobrimos. – disse Danilo.

– Vamos? Mas eu não posso. – negou Suzana.

– Mas quem vai encontrar os arquivos? Eu não sei mexer com esses aparelhos. – disse aflito o rapaz.

E insistiu mais um pouco para que Suzana desse um jeito de driblar a vigilância do tio e fosse lá com ele. Marcaram para a sexta-feira da mesma semana, muito embora Danilo já quisesse ir no mesmo dia.

Combinaram ir de moto.

O artifício utilizado foi o de um passeio no shopping. As meninas foram num pequeno grupo e, de lá, Suzana partiu com Danilo até a creche, que era num bairro um tanto afastado do local.

Pouco conversaram durante o trajeto.

Primeiro porque os capacetes não permitam, segundo porque Danilo parecia estar numa espécie de oração, onde pedia a todas as forças divinas que o computador fosse encontrado, juntamente com os arquivos.

Suzana não entendia o que poderia haver de tão importante naqueles arquivos e nem tampouco no que o seu conteúdo iria mudar a sua sorte, a da irmã mais velha ou, então, a dos pais, já mortos. Mesmo assim compartilhava da oração de Danilo.

Na creche, não tiveram dificuldades em obter a atenção do diretor, tão logo se identificaram, muito embora o homem parecia estar levando em consideração mais o pedido de Suzana, que o de Danilo.

Foram levados a uma sala onde havia três computadores, e Suzana não tardou a reconhecer aquele que havia pertencido à irmã, devido a um adesivo que Suélen havia pregado no monitor do aparelho.

Perguntou ao homem se a formação das peças era a mesma, ou seja, se o gabinete e o monitor ainda eram o mesmo conjunto.

Uma funcionária respondeu que sim, e depois cedeu lugar a Suzana, para que essa olhasse os arquivos do aparelho.

– O HD não foi formatado, foi? – perguntou Suzana, mas o diretor não soube responder e novamente foi a funcionária quem deu a informação, dizendo que o aparelho estava funcionando do mesmo jeito que havia chegado.

– Graças a Deus! – suspirou Danilo. – Veja logo aí – disse, segurando os ombros de Suzana, apreensivo.

A menina tinha desenvoltura com o aparelho. Em pouco tempo abriu pastas, digitou palavras para buscas, e de repente foi clara:

– Achei!

– Danilo apertou-lhe mais ainda os ombros e pediu para que ela falasse logo o que tinha encontrado, o que estava escrito.

– Calma! – disse a menina. – Não é tão simples assim. Tem muitos arquivos aqui, mas estão todos encriptados.

– Como é que é? – perguntou aflito o rapaz.

– Estão embaralhados. Não dá para ler diretamente. É preciso ter um programa para descriptar, e preciso também da senha.

– Senha! Que senha? – voltou Danilo, com aflição maior ainda, já antevendo que essa história de senha iria complicar as coisas.

– Bom. – disse Suzana. – O arquivo de incriptação está aqui e é o mesmo que tenho no meu computador. Até aí, nenhum problema. O problema mesmo vai ser descobrir a senha, vou ter de perguntar a ela.

– Então deu tudo em nada. – disse Danilo. – Se ela quisesse que a gente soubesse dos arquivos já teria falado da existência dos mesmos.

Não ficaram discutindo o problema ali, porque logo perceberam que estavam atrapalhando o serviço do pessoal da creche, principalmente da moça que antes estava usando o computador.

Suzana lembrou que descobrir a senha utilizada pela irmã poderia não ser uma tarefa tão difícil, mas que não tinha trazido nenhum disquete para copiar os arquivos.

Mas a moça se prontificou a arranjar os três ou quatro que eram necessários. Fez a cópia, pediu que os originais não fossem deletados, para o caso de dar algum problema com os disquetes e então saíram, agradecendo.

Mas enquanto subiam na moto, e diante da euforia de Danilo, ela o lembrou da possibilidade de não haver nada de importante ali.

– Então por que ela encrip… encr… por que a senha? – perguntou ele, sem conseguir completar a palavra correta.

– Eu acho que isso deve ser a agenda dela, o seu diário.

– Pois é isso mesmo que deve ser. – disse Danilo. – E se for, aí deve estar escrito muita coisa que a gente precisa saber.

– Vai ler os segredos dela? – perguntou Suzana.

– Mas claro que vamos! – disse Danilo. – Eu tenho certeza de que esses segredos vão tirá-la da cadeia.

Danilo deixou Suzana no estacionamento do shopping e despediram-se com um abraço mais que caloroso. Não cansou de fazer mil recomendações à menina para que ela descobrisse logo a senha dos arquivos e que o avisasse assim que tivesse qualquer novidade.

Dali rumou correndo para o seu serviço, foi pedir desculpas ao dono da loja, mas disse que tinha uma boa razão. Por sorte, o homem parecia estar ocupado com outras coisas e não lhe deu muita atenção, dizendo que não havia problema desde que ele continuasse a dar conta do serviço.

Mais um fim de semana.

Em sua casa, sua mãe lhe transmite o recado de Cátia.

– Pediu para você ligar quando chegasse, ainda hoje.

E Danilo percebeu que estava mesmo com muita vontade de falar com Cátia. Mas quase ao mesmo tempo também descobriu o porquê dessa vontade, e retraiu-se em seus próprios desejos, pois sabia que não era assunto do qual ela estava esperando para conversar com ele.

No entanto, pensava, como conter a grande euforia que lhe dominava desde o momento em que a menina Suzana recuperou aqueles arquivos? Apostava tudo que ali estaria todo o grande mistério que Suélen insistia em manter.

O mistério que iria tirá-la daquela prisão.

Pensou em ir até a padaria. Telefonaria para Cátia e aproveitaria para tomar uma cerveja. Estava precisando. Mas acabou adentrando a casa dos tios e pedindo para usar o telefone. A garota o atendeu com um certo entusiasmo e logo o acusou de andar sumido.

– Não quer mais me ver? – perguntou, como se nada entre eles houvesse acontecido como motivo para esfriar a relação.

– Eu sempre quis te ver. – falou Danilo. – Mas acho que ultimamente não tenho sido boa companhia.

– Ou sou eu que estou chata demais? – perguntou ela, e logo em seguida, alterou o rumo da conversa. – Mas, mas eu te liguei para ver se você queria me ver, você ligou de volta e disse que sempre quis, mas se formos entrar nesses papos vamos acabar brigando antes mesmo de nos ver. Me leva lá? – falou em baixo tom de voz, dando a entender que os pais estavam por perto e poderiam ouvir.

E combinaram que Danilo a apanharia na parte da tarde do dia seguinte.

Só então o rapaz foi até a padaria, apanhou duas cervejas, para tomar junto com o pai e a mãe, comprou pães e mais um pouco de frios, para fazerem lanches. Enquanto comiam, parecia radiante, e mesmo que ninguém tivesse tocado no assunto, falou de Suélen e do achado no computador.

– Tenho certeza. – disse ele. – De que ali tem alguma coisa que ela escreveu e que vai mudar completamente essa história.

– Doutor Sérgio e dona Marina já estão mortos. – falou o Senhor Ricardo. Nada pode mudar isso.

– Claro que não pai. Claro que não. Mas o que vai mudar são as razões para Suélen ter feito aquilo. E essas razões não é isso que os jornais e a televisão estão dizendo, e nem mesmo o que Suélen está dizendo.

– E por que você tem tanta certeza disso, meu filho? – interveio a mãe. – Até parece que você sabe muito mais coisa do que já contou para a gente.

– Eu sei, mãe. Sei sim. Mas não me peça para contar agora. Acho que ainda não é o momento. Mas de uma coisa vocês podem ter certeza, o que sei e o que espero descobrir com os arquivos do computador, vai mudar essa história e vai tirar aquela menina da cadeia.

Ou então me colocar lá também. – pensou.

Depois de ver televisão com os pais na sexta-feira e cuidar da moto no sábado, foi visitar Cátia, dar um abraço em seus pais, para depois rumarem para aquele mesmo motel. Mas antes pediu à menina uma ajuda, pois não iria conseguir pagar tudo sozinho.

– Podemos ir naquele mais barato que a gente já conhece. – ela disse.

– Acho que não. Você está linda demais para ser levada num lugar qualquer.

– Ou é você que tem algum motivo especial para querer voltar lá? – perguntou Cátia, para logo em seguida tentar consertar-se e pedir desculpas, pois não queria estragar o dia.

9

Danilo a ajudou, brincando, dizendo que tinha sim um motivo para estar lá. E esse motivo era exatamente por ser o último lugar onde esteve com uma garota. Cátia já estava pronta para perguntar qual garota era, para então completar ela mesma que era Suélen, quando então se lembrou de que essa garota podia ser ela mesmo, da última vez que saíram. Mas se levasse adiante sua pergunta, não estaria de todo enganada, pois Danilo sabia muito bem que estivera lá com Suélen, muito embora aqueles momentos é o que menos perdurava em sua lembrança da garota.

Tinha outros motivos para pensar nela.

Cátia subiu na garupa da moto e fez questão de agarrar-se o máximo que podia ao corpo do namorado. Ou queria demonstrar afeto, talvez arrependida do seu comportamento dos últimos tempos, em relação a alguém que havia acabado de passar por um grande trauma ou, então, estava realmente bastante excitada, a ponto de não querer esperar pelo momento adequado para demonstrar seus desejos. Danilo sentiu a apego da menina e pressentiu uma linda tarde.

Cátia fez questão de mostrar-se a amante mais apaixonada do mundo.

Despiu-se na frente do parceiro de forma lenta e sensual, procurando provocar nele sensações difíceis de se esquecer.

Depois ela mesma o despiu e tocou seu corpo todo, com as mãos e com os lábios, levando-o quase ao êxtase, antes de, finalmente, oferecer seu próprio corpo ao rapaz, para que ele repetisse com ela tudo o que ela havia feito nele, para que depois a penetrasse, a possuísse e caíssem os dois adormecidos, um sobre o outro.

Não tocou no assunto de Suélen, talvez querendo com esse silêncio, deixar claro qual era a condição para a continuidade do namoro dos dois. Danilo também não falou nada. Naquela tarde ocuparam-se apenas em se amar, dar-se um ao outro, festejar a alegria da vida, da liberdade.

Liberdade!

Do motel rumaram direto para a casa de Cátia, e a noite já havia dominado o dia, quando ele partiu para sua própria casa. Sua tia o abordou no quintal, tão logo percebeu sua chegada.

– E para você ligar para esse número. Quem é essa Suzana? Mais uma namorada, é? – perguntou a tia, brincando.

Explicou para a tia quem era a menina e ligou imediatamente. Suzana também falou rapidamente.

– Está difícil. Já tentei todas as senhas que imaginei, mas não acertei.

Danilo não entendia dessas coisas e a menina explicou rapidinho que era igual senha de banco e que, normalmente a pessoa usa alguma coisa fácil de lembrar, como o nome de trás para frente, a data de aniversário.

– Mas eu já coloquei a data de aniversário dela de tudo quanto foi jeito e não adianta.

– Experimenta colocar a sua. – disse Danilo. – Mas nenhum dos dois levou a sério essa possibilidade.

Depois Suzana explicou que tinha um amigo, um hacker, que com certeza iria descobrir a senha. Iria passar os arquivos para ele e então voltaria a falar com Danilo.

Ao despedir-se, falou de Suélen.

– Ela perguntou de você, mas pode ficar sossegado que não comentei nada com ela. E ela não deve ter recebido a canjica, pois não falou nada.

– Espere aí… – interrompeu-a Danilo, confuso. – Hoje era dia de visita… eu esqueci completamente.

– Mas não precisa se culpar. Meu tio iria dar um jeito de impedir vocês de entrarem, outra vez.

Desligaram porque a menina não podia falar muito, embora Danilo quisesse falar muito mais. Depois, ficou a imaginar que Cátia o tivesse convidado para sair exatamente no sábado a tarde, que estivesse passado o tempo todo sem tocar no nome de Suélen, exceto quando falaram da escolha do motel.

Teria ela planejado fazê-lo esquecer o dia da visita?

Mas não tinha certeza de que a menina fizera tudo isso propositadamente. Por outro lado, nem mesmo sua mãe se lembrou, e também, o que ele mais queria naqueles momentos não era exatamente ver Suélen, mas, sim, descobrir o que ela tinha escrito naqueles arquivos.

Depois disso, provavelmente, poderia vê-la a hora que quisesse.

Depois daquela tarde de amor, Cátia e Danilo pareciam bastante comprometidos um com o outro. Haviam combinado que ele iria à sua casa no domingo a tarde e Danilo já nem lembrava da possibilidade de ela ter provocado o seu esquecimento do dia de visita. E mesmo que lembrasse, podia perfeitamente entender a namorada. Em seu lugar, provavelmente faria o mesmo.

Mas um pouco antes da hora do almoço Cátia ligou avisando que iam todos almoçar na casa de um parente e não sabia a hora da volta.

– A gente se fala durante a semana. – disse a garota.

E tudo isso veio a calhar, pois na parte da tarde Danilo recebeu outro telefonema.

Dessa vez era Suzana, dizendo que não conseguira entregar os disquetes para o seu amigo, pois não tivera como falar com ele pelo telefone e não conseguia passar por e-mail.

– As mensagens estão retornando. – disse ela, e pediu então que Danilo fosse se encontrar com Karen no shopping, que pegasse os disquetes e os levasse no endereço que ela iria fornecer. E não explicou mais nada, dizendo apenas que precisava desligar.

Danilo foi com a moto até o shopping, no horário que Suzana havia marcado, e lá encontrou-se com Karen, que lhe entregou os disquetes e um nome com um endereço.

– É o endereço do Fábio, amigo dela. Você leva os disquetes para ele?

Depois sentaram-se para tomar um refrigerante e a menina contou que os tios descobriram dos encontros dele com Suzana, ali no shopping e também lá na creche.

– Foi bobeira da Su. – falou Karen. – Quando o tio perguntou se ela havia encontrado os arquivos que procurava, e que ela havia dito que eram dela, ela deixou escapar que você estava junto. Aí ele quis saber por que.

– E ela falou?

– Não. Disse que eram coisas suas e da Suélen, cartas de amor, essas coisas e que você havia pedido para ela recuperar.

Menos mal. – pensou Danilo. – Beijou a face da menina e rumou para o endereço que tinha em mãos. Era próximo à rua da grande casa onde moravam, mas Danilo não encontrou ninguém. Um vizinho informou que estavam viajando e só chegariam na segunda-feira cedo.

Foi para casa. No dia seguinte daria um jeito de ir até lá, durante alguma saída a serviço.

E no dia seguinte, logo no começo da tarde, Danilo aproveitou a saída para uma entrega e foi até a casa de Fábio. Foi o próprio quem o atendeu e quando soube que era amigo de Suzana, logo o convidou a entrar.

– Você não é namorado dela, é? – perguntou o menino, que não devia ter mais que 16 anos.

– Claro que não! – respondeu Danilo. – Já me fizeram namorado da irmã dela, e agora você quer me fazer namorado dela também.

E só então o menino se deu conta de quem era Danilo, o namorado de Suélen, o rapaz que tinha levado a irmã da sua amiga a cometer um crime.

Danilo explicou que não era nada do que se dizia e que a própria Suélen estava mentindo, mas ele não sabia por que. E era exatamente por causa disso que estava precisando da sua ajuda. Na verdade o menino parecia mesmo um tanto “passado”, conforme a expressão usada para designar aquele sujeito boboca, que não acompanha o raciocínio normal das pessoas.

Mas um “passado” disposto a ajudar e que parecia entender a fundo de computadores.

Colocou, um a um, os disquetes e logo começou a fazer funcionar alguns programas apropriados para descobrir senhas. E a cada programa que colocava, esmerava-se em explicar como funcionavam, para quais casos serviam e, a todo instante, não se cansava de dizer que até aquele momento não havia uma única senha, um único código fonte que ele não tivesse conseguido quebrar.

E Danilo, que não entendia nada daquilo, só esperava que ele conseguisse descobrir a senha que Suélen usava. Até que, em dado momento, gritou eufórico o garoto.

– Achei! Não estou dizendo? Eu quebro até código fonte de programas, por que não iria achar uma porcaria dessas?

Mas logo esfriou um pouco o seu entusiasmo.

– Saca só. – disse o garoto. – Nesse primeiro disquete tem uns dez arquivos, e todos eles com a senha “sumarina”, deve ser algo a ver com submarino, não acha?

– Não. – disse Danilo, sentindo-se mil vezes mais inteligente que o garoto. – É Su de Suélen ou de Suzana e marina de Marina mesmo, o nome da mãe delas.

– Você deve saber melhor que eu. – disse o menino. – Mas essa senha só vale para esses arquivos. Nesse mesmo disquete tem outros arquivos com outras senhas.

E olhou também os arquivos dos outros disquetes, dizendo para que Danilo não se preocupasse, pois até o fim do dia teria descoberto todas. Depois passou para um outro disquete os arquivos decodificados e entregou a Danilo.

– Enquanto isso você pode ir lendo esses aqui.

Ler aonde? – pensou Danilo, pois não tinha computador. A única pessoa mais próxima que o possuía era Cátia, mas em sua casa não era exatamente o melhor lugar para ler os escritos de Suélen, muito embora talvez fosse até bom, pensava, pois assim ela também ficava sabendo da verdade.

Mas o primeiro dos arquivos ele leu no serviço, já no final do expediente, quando sabia que não teria nenhuma entrega mais para fazer.

Sua colega Diana ensinou-lhe como abrir os arquivos e como movimentar-se pelas páginas do mesmo.

Começou a ler com a curiosidade de uma criança, ao mesmo tempo em que pedia perdão a Suélen por estar entrando em suas intimidades. Mas era para o próprio bem dela mesmo.

E de fato, os escritos nada mais eram que uma espécie de diário, onde Suélen registrava muito do que fazia, tal como muitas meninas costumam fazer em agendas impressas. Danilo, com a ajuda de Diana, não custou a descobrir uma sequência de datas, e a garota tratou de ordenar os arquivos de modo que ele podia começar a ler pelo que vinha em primeiro lugar na ordem cronológica.

Os primeiros registros datavam de janeiro de 1995, exatamente quando Suélen completou 13 anos. Danilo lia rapidamente, pois não estava interessado em saber de tudo o que a menina fazia, mas apenas aquilo que, por ventura, tivesse alguma coisa a ver com o triste episódio daquela sexta-feira.

E aos treze anos, Suélen ainda estava muito longe do fato, para fazer referências a ele. Leu várias páginas e encontrou nomes de amigas, de amigos, de “amiguinhos” mais chegados ou paqueras, e até mesmo o seu próprio nome, como os nomes dos pais dela e dos seus, o nome das irmãs.

Encontrou, festinhas, danceterias, churrascos aos domingos em casa ou na chácara. Havia muitas anotações sobre a chácara, todas referências carinhosas nas quais Suélen falava das frutas, do rio, dos animais.

Teve de interromper a leitura porque a loja já estava fechando.

Mas sabia que não suportaria esperar até a tarde do outro dia para ler o resto, e por isso levou os disquetes para casa. Estava até mesmo decidido a ir até a casa de Cátia, mas lembrou-se do seu novo vizinho, que também possuía moto, e para quem já havia dados alguns ajustes. Lembrou-se que o rapaz havia falado qualquer coisa sobre computador e imaginou que ele devia possuir um.

Chegou em casa às pressas e correu até lá, dizendo ser algo de extrema importância, o que nem era necessário, pois o rapaz o recebeu e logo o conduziu até o quarto, ligando o aparelho.

Por quase duas horas foi avançando nas páginas, nos dias, nos meses, Sempre as mesmas anotações. Imagens de uma menina vivendo todo o vigor da sua adolescência, falando das suas lembranças, das suas paixões, do amor pelas coisas, pelas pessoas e, principalmente, pelas irmãs e pelos pais.

Essa era a Suélen que um dia Danilo conheceu, mas que depois se perdeu numa virada qualquer da vida, e ele não percebeu onde foi essa virada, ou porque foi.

Lia, apressado, em busca desse momento, e só se detinha um pouco mais quando apareciam os nomes de seus pais ou, mais ainda, quando aparecia o seu próprio nome.

Faltavam ainda muitas páginas quando Danilo se apercebeu que não podia permanecer o tempo todo ali, usando algo que não era seu, numa casa que não era sua, abusando de uma pessoa que nem sequer conhecia direito ainda. Mas já havia explicado ao rapaz que aquilo era algo muito importante e então este se prontificou a imprimir o que faltava.

– Fui burro. – disse o rapaz. – Podia ter impresso tudo antes e você levava para casa, para ler com calma. Mas deixa eu imprimir agora.

Danilo ainda tentou argumentar que não era necessário, muito embora sua ansiedade quisesse dizer exatamente o contrário ou, então, que fossem impressas apenas as páginas faltantes. Mas o rapaz imprimiu as quase duzentas páginas de documentos e as entregou, negando-se, inclusive, a colocar preço para que Danilo pagasse depois.

– Depois você me paga com uma boa regulagem na moto. – disse.

Em casa, Danilo comia a comida quase fria e, ao mesmo tempo, ia lendo o que ainda não tinha lido, apesar dos protestos de sua mãe e do pai, que dizia fazer mal comer e ler ao mesmo tempo.

E já era quase onze da noite quando as últimas páginas eram percorridas pelos seus olhos. Estava no final de dezembro de 1995 e já havia percorrido quase um ano da vida de Suélen. Um ano na vida de uma garota feliz.

Suas últimas anotações referiam-se ao seu aniversário de 14 anos, havia nomes para convidar, o seu estava na lista.

Mas Danilo começou a notar algo um tanto estranho. A escrita de Suélen parecia fria. Era como se não fosse uma escrita original, mas, sim, algo copiado muito tempo depois ou, então, passado a limpo.

Muita coisa parecia haver sido suprimida, certas referências, os nomes dos pais, principalmente.

Exatamente nas últimas semanas que antecediam seu aniversário, havia nitidamente partes que pareciam não condizer com a fluência normal de alguém quando escreve.

Num parágrafo a garota falava do seu aniversário e da sua expectativa em relação ao mesmo, dos preparativos para a grande festa que seus pais diziam estar preparando para ela, depois saltava para um assunto que, pela sequência e ordem normal, só deveria surgir alguns parágrafos depois, o que indicava que os parágrafos intermediários haviam sido suprimidos.

Foi Diana, no dia seguinte, na hora do almoço, quem desvendou esse pequeno mistério.

– Isto aqui foi reescrito. – disse ela. – É bem provável que ela tenha escrito primeiro em alguma agenda e só depois passou para o computador.

– É verdade! – disse Danilo. – Acho que nessa época ela nem tinha computador ou, se tinha, ainda não sabia usar.

– Pois é isso. Então, depois que aprendeu a usar o computador, digitou tudo. E aí, talvez, deve ter modificado alguma coisa, tirado alguma parte que não queria lembrar.

Parte que não queria lembrar.

Essa frase dita por Diana soou como um sino tangendo em sua cabeça durante todo o dia e ainda no dia seguinte. O que teria acontecido a Suélen que ela não queria lembrar?

Precisava que Fábio lhe passasse o restante dos arquivos o quanto antes. Não suportava mais aquela situação. E como o garoto não dava notícias, na terça-feira à tarde foi até a sua casa.

E lá encontrou Suzana.

A menina havia falado com o garoto pelo telefone e como esse lhe disse haver acabado de descobrir a senha, estando já a abrir os arquivos, ela pediu ao tio que autorizasse o motorista que a levasse, juntamente com Karen até a casa de Fábio.

Havia também acabado de chegar e pediu a Danilo que tirasse a moto dali da frente, pois o motorista havia ido até o posto de gasolina e logo estaria de volta. E se soubesse que Danilo estava ali, iria falar para o tio. Mesmo sem saber se o homem conhecia sua moto ou não, trataram de colocá-la dentro da garagem fechada da casa do garoto.

Enquanto isso, Suzana dizia radiante para Danilo.

– Adivinha qual era a senha? SU170506

– Suzana, 17 de maio de 1986.

– Como você imaginava. Mas por que você pensava que devia ser a data do meu aniversário?

– Eu não sei exatamente por que. – diz Danilo, sem conseguir se conter e dar um abraço na garota. – Mas algo me diz que não vai ser boa coisa.

– Mas o que é? – pergunta, num misto de aflição, a menina.

– Pois eu não sei. – responde o rapaz, com ternura. Te juro que não sei, apenas tenho um pressentimento de que não é algo bom.

Pressentimento ou a soma de tudo o que já havia acontecido?

Danilo estava muito mais próximo da verdade do que podia imaginar ou do que ele próprio pudesse aceitar como verdade.

Nos disquetes restantes, logicamente para facilitar a busca, os arquivos estavam separados por datas, começando pelo ano, meses, depois os dias.

Havia sido uma coincidência o fato de que o primeiro disquete aberto anteriormente, e que Danilo já tinha lido, trazia os primeiros tempos dos escritos de Suélen, os seus treze anos, pois os seguintes contavam dos 14 anos até os 17, já próximo da data fatídica, exatamente aquela que mais interessava a Danilo ler, pois era ali que ele supunha estar a chave de todo o mistério.

– Não dá para imprimir? – perguntou ele, ao que Suzana logo emendou e prometeu a Fábio um cartucho de tinta e um pacote de papel, se ele imprimisse as mais de trezentas páginas contidas nos documentos.

O garoto topou a tarefa e Danilo ficou de esperar o término da impressão, para levar os papéis para casa, enquanto as meninas iam embora, pois haviam prometido ao tio uma saída rápida.

Porém, tratando ela própria de ordenar a impressão no computador, Suzana acabou iniciando a leitura de uma das primeiras páginas, e o que leu parece tê-la chocado profundamente.

– Não pode ser… – balbuciou, enquanto fixava melhor o olhar na tela, como que não acreditando no que estava lendo.

– O que foi, o que é? – perguntaram quase que ao mesmo tempo, Danilo, Karen e Fábio.

Mas ela não respondeu. Continuou atenta na leitura, com a mão tremendo sobre o mouse, esperando, talvez, que num repente, todas aquelas letras, aquelas frases, sumissem da sua frente; esperando que não fosse verdade o que ali estava escrito.

Fábio toma então algumas folhas da impressora, exatamente as que correspondiam às páginas que Suzana lia no monitor, e entrega a Danilo. Este senta-se numa poltrona e Karen vem ao seu lado, procurando ler também. O trecho que mais chocou a todos, menos Fábio, que não se importou com a leitura, dizia o seguinte.

“14 de janeiro de 1996. Por que fizeram isso comigo?

Então era por isso que insistiram tanto em fazer minha festa na sexta, dia 12 e não ontem que era o dia certo? Eles queriam fazer era outro tipo de festa. Por isso quiseram me levar para chácara, ontem a tarde, só nós três. O pai e a mãe já vinham dizendo antes que por fazer 14 anos eu iria ganhar um presente muito especial. Esperei com tanta ansiedade, com tanta alegria, mas o que me deram não foi um presente, foi um pesadelo. Isso não se faz com ninguém, muito menos com uma filha. Me deram aquela bebida. Mas o que tinha naquela bebida? Por que depois eu não consegui mais fazer o que eu pensava, mas, sim, o que eles mandavam? Por que fiquei feito uma múmia, tirando minha roupa, a roupa do pai e da mãe, e fazendo aquelas coisas? Eles diziam que eu iria gostar de tudo, que era tudo o que uma menina quer fazer. Eu queria fazer sim, mas não daquele jeito, não com meu pai, com minha mãe. Como é que vou explicar isso agora para o Rafa. Ele pensa que sou virgem. Eu era virgem. Meu pai…”.

– Isso é mentira! – gritou Suzana, batendo forte na mesa. – É mentira!

Suzana não quer ler mais, não consegue ler mais.

Chama Karen e pede para ir embora.

Danilo a segura, abraça, aperta fortemente sua cabecinha contra o peito. Karen, por trás de Suzana, procura também acariciá-la, mostrar sua compaixão.

Danilo procura então mostrar à menina que não deve sair daquele jeito, chorando, o motorista iria desconfiar de que havia alguma coisa errada. Depois tenta mostrar a ela que era exatamente esse o medo que ele estava pressentindo. Não que houvesse pensado em coisa parecida, também achava aquilo um absurdo, uma monstruosidade, mas sabia que tinha alguma coisa a ver com a relação entre Suélen e os pais.

– Eu não quero ler o resto. – disse Suzana, ainda chorando, quando conseguiu falar, e olhar no rosto de Danilo.

– Eu também não quero. – disse ele. – Mas vou ler até o fim. Nós vamos tirar sua irmã daquela prisão. Ela não merece estar lá.

– Mas se foi por isso, então porque ela não conta a verdade?

– É a mesma pergunta que me faço. Mas ela deve ter suas grandes razões para isso e por isso é que vou ler até o fim.

As meninas se foram, chocadas, muito mais Suzana do que Karen, que não tinha nenhum parentesco com os envolvidos naquela história. Danilo esperou que Fábio terminasse a impressão, mas não se deteve um instante sequer, continuou lendo as folhas.

E o que lia, ia chocando-o cada vez mais. Talvez fosse certo que Suzana não lesse mais nada. Tanto o que teve tempo de ler ali na casa de Fábio, quanto o que levou para casa e leu durante a noite toda, davam conta de uma Suélen cada vez mais apavorada com sua situação, e cada vez menos capacitada a tomar qualquer atitude contra os atos imundos aos quais seus pais a submetiam.

Da primeira vez, ela sequer sabia o que a aguardava e o recurso utilizado pelos pais foi dopá-la com algum tipo de droga que lhe tirava as forças, mas não a consciência. Dessa forma, ainda que horrorizada com tudo o que fazia, não tinha meios para reagir.

Acreditou que aquilo nunca mais iria se repetir.

Não teve coragem de questionar seus pais nos dias que se sucederam, mas se agarrava na esperança de que aquilo fora algo único, um “presente” pelos seus 14 anos.

Da mesma forma não comentou com ninguém, pois sentia vergonha.

10

Em outras páginas de seus escritos aparece a curiosidade de Suélen sobre a droga que lhe haviam administrado. Pesquisou em livros e na internet e descobriu que seus pais, como médicos, tinham conhecimento suficiente sobre certas drogas e também facilidade em adquiri-las. Drogas que tiram a capacidade de raciocínio e reação das pessoas, mas sem lhes tirar a consciência. Com certeza, foi alguma droga desse tipo que utilizaram na primeira vez, na casa da chácara.

A segunda vez aconteceu um mês depois, não na chácara, mas em casa, no próprio quarto dos pais. As irmãs, o motorista, a empregada e o filho destes estavam na chácara. Ela ficara porque iriam embarcar no sábado cedo para passar o carnaval na casa da avó, no interior.

Suélen não pensou que fosse acontecer novamente, mas os pais foram determinados. Se não fizesse por bem, iria fazer dopada, como da outra vez. Seu pai já segurava o copo na mão, pronto para fazê-la beber à força.

Chorou, implorou que não fizessem nada com ela, que não a obrigassem a fazer nada com eles, mas não teve seu pedido de clemência atendido.

Foi obrigada a fazer sexo com o pai, em todas as suas formas, a praticar lesbianismo com a mãe.

Mês a mês, durante quase quatro anos. Dia a pós dia, Suélen registrava seu infortúnio e a vergonha que passou a ter de tudo e de todos, até da vida.

Agora Danilo podia entender o porquê da sua mudança. Agora ele sabia exatamente quando isso aconteceu. Só não podia acreditar que Doutor Sérgio e dona Marina, que duas pessoas tão bondosas e respeitadas, pudessem realmente fazer tudo aquilo com a própria filha, uma garotinha ainda, um anjo.

O sol rompia pela janela da cozinha, quando a mãe encontrou o filho, ainda debruçado sobre uma infinidade de folhas de papel, lendo, e chorando. A mulher tentou saber o que estava acontecendo, por que ele não fora dormir, como poderia ir trabalhar, andar de moto, naquele estado?

– A senhora não vai acreditar. – disse ela para a mãe, e logo em seguida para o pai, que se aproximava da cozinha em busca do seu café da manhã, antes de ir fazer algum bico de pedreiro pela vizinhança.

E então Danilo sentiu que já podia, finalmente, contar tudo aquilo que lhe estava atravessado na garganta, tudo o que o atormentava naquelas longas últimas semanas. Da mesma forma que fez com Cátia, contou também para os pais, mas acrescentou ainda a sua participação no crime.

– É por isso que Suélen está mentindo, pai, mãe. Nem é tanto para me proteger, mas é por vergonha do que lhe fIzeram seus próprios pais.

O casal perguntava se o filho tinha absoluta certeza do que estava dizendo, pois não podiam acreditar que seus ex-patrões pudessem ser capazes de tal barbaridade. Mas no fim, Dona Helena se resignava.

– Pois é… e a gente acredita que conhece as pessoas.

– Mas será mesmo que tudo isso é verdade? – pergunta o pai. – Não seria invenção dessa moça, coitada?

– O senhor conhece ela pai. Acha que ela seria capaz de inventar tudo isso?

– Mas eu, ou nós, conhecíamos também os pais dela. Não dá na mesma?

Nesse ponto, Danilo também se viu tentado a pensar na hipótese de que Suélen pudesse ter algum problema mental e que tivesse inventado tudo aquilo.

Mas inventar coisas durante quatro anos?

Limpou então um canto da mesa para que os pais pudessem tomar o café, e recomeçou a leitura desde o começo, tudinho novamente. Havia algo que ele precisava descobrir e não tinha tempo a perder. Queria saber até quando, ou desde quando, os textos haviam sido reescritos ou passados a limpo, como havia sugerido sua colega Diana.

A ideia era a seguinte a de que em um dado momento Suélen passou a usar o computador e digitar nele tudo o que antes estava na sua agenda, escrito à mão. Ao fazer isso, num espaço de tempo relativamente curto, ela poderia ter escrito ou orientado as coisas do modo como bem pretendia “sua mente doente”. Talvez isso pudesse ter acontecido até mesmo algumas semanas antes do crime.

Por outro lado, se esses escritos no computador sem aquele estilo de haver sido passado a limpo fosse mais longo, digamos dois ou três anos, então seria difícil ela escrever dia após dia, sempre na mesma sequência, sem errar essa sequência, sem errar datas.

Desde quando Suélen usava o computador? Qual o período de tempo em que ela “passou a limpo” e qual o que escreveu direto?

A única coisa que fez Danilo no dia seguinte, além de ler e reler outras tantas vezes aquelas páginas foi voltar à creche e tentar descobrir o ano de fabricação daquele computador. E descobriu que Suélen o havia ganho exatamente no mês do seu aniversário, para colocar uma data aproximada. E de fato, relendo os documentos, percebia claramente que o ano anterior, ou seja, aqueles dos primeiros disquetes, dos seus treze anos, haviam sido passados a limpo, mas os quatro anos seguintes não. Eram escritas diretas. Isso explica, inclusive, o porquê das senhas diferentes; na primeira estava o nome da mãe, na segunda a data de aniversário da irmã. Suélen deve ter colocado essas senhas muito depois daquelas coisas tristes começarem a acontecer. Por isso dividiu-as dessa forma tão sentimental.

No final da tarde, telefona e consegue falar com Suzana.

Para sua surpresa, ela está relutante em acreditar no que a irmã havia escrito, mesmo depois que Danilo lhe conta o restante.

Para o rapaz, isso é uma decepção.

E agora, senhor Danilo? O que fazer com todos aqueles documentos, com os papéis, os disquetes? Como tirar Suélen da prisão?

Deixou-se cair no sofá, após haver comido alguma coisa, à guisa de jantar, e adormeceu. Mas antes de adormecer, ainda releu, mais uma vez, algumas das páginas finais, as que contavam as últimas semanas antes daquela sexta-feira.

Embora já houvesse referência à vontade de tirar a própria vida, em datas anteriores, era nessas últimas, como o aproximar do aniversário da irmã Suzana, dos quatorze anos de Suzana, que a ideia se transforma numa obsessão.

Mas, ao mesmo tempo, Suélen não consegue esquecer das irmãs e dos destinos a elas reservados, o mesmo que o seu. Seu suicídio em nada ajudaria aquelas criaturas.

Teria de achar outra maneira.

Pensa em contar para alguém, para a polícia, qualquer pessoa, mas sente vergonha de fazer isso e revelar para todos as coisas que aconteciam ente ela e seus pais naquela casa.

Não iria mais ter amigas, amigos, namorados.

Pensa em fugir com as irmãs, mas não tem argumentos para convencê-las a fazer isso, a menos que contasse a verdade.

Em nenhum momento ela menciona a possibilidade de matar os pais.

Mas apesar da noite e do dia inteiro sem dormir, e do cansaço provocado pela leitura, não conseguiu manter o sono por mais que duas horas. Pouco antes das nove da noite ele sai com a moto, avisando aos pais que estava a caminho da delegacia.

Iria mostrar aqueles papéis e os disquetes ao delegado.

Dona Helena chorou e o Senhor Ricardo também, pois sabiam que o filho iria confessar sua participação no crime e, por certo, ficaria preso.

Passava das dez da noite quando Danilo encostou a moto no pátio da delegacia e, carregando o calhamaço de papéis e os disquetes, procura pelo delegado e aguarda ainda uma meia hora até ser atendido.

Por fim, diante da mesa de um jovem e atencioso delegado de polícia conhecido ali como Rodrigues, Danilo expõe, por mais de uma hora, todos os fatos e a sua participação nos mesmos, contando inclusive como conseguiu aqueles documentos e o conteúdo neles contidos.

Conta como Suzana, ao ver as primeiras páginas, não teve coragem de ler o restante.

– E por que então essa moça não conta essa verdade que você está me contando? – perguntou o delegado. – Não seria mais fácil para ela? Assim ela teria, no mínimo, sua prisão relaxada.

Danilo tenta explicar que, em primeiro lugar ela está tentando protegê-lo, não quer que ele assuma participação em um crime que apenas ela devia ter cometido. E em segundo lugar. – diz ele -, se o senhor ler esses documentos, no papel ou no disquete, vai entender que ela tem vergonha de enfrentar as pessoas, depois que souberem a verdade. Para ela, ninguém deve saber do que acontecia entre ela e os pais.

– E você acha mesmo que os pais abusavam dela? – pergunta o delegado Rodrigues. – Mesmo estando mortos, essa é uma acusação muito grave para cima deles, não acha?

– Não sou eu quem está acusando. – diz Danilo. – É o que está escrito aqui.

A conclusão a que o delegado chega é de que necessita de algum tempo para ler aqueles documentos, mas que, enquanto isso, por vias das dúvidas, e já que Danilo estava confessando sua participação no crime, seria obrigado a mantê-lo sob custódia.

– Isso significa que estou preso. – diz Danilo, como se não esperava mesmo que pudesse acontecer outra coisa. – Posso dar um telefonema?

E acordou seus tios já quase à meia noite, para que estes avisassem seus pais de que não iria voltar para casa, mas que estava tudo bem. De fato, Danilo parecia até sentir uma certa satisfação em estar ali, preso pelo crime que ajudou a cometer. Pelo menos, assim, podia sentir-se mais aliviado, livre de toda a pressão que sobre ele pairou durante os últimos tempos.

O delegado parecia não acreditar muito na sua história, disse que precisava de tempo para ler os papéis de Suélen. Mas no dia seguinte os jornais saiam com manchetes garrafais dando conta da “reviravolta” do caso Suélen.

“Namorado participou do crime”

“O crime foi tramado em conjunto”

“Dinheiro: motivo do crime dos dois jovens”

No mesmo dia, porém, ao cair da tarde, o delegado Rodrigues revertia todas as informações, dizendo que a notícia era falsa, e que surgiram por ação de um repórter presente na delegacia que sequer verificou os fatos com o profissionalismo devido, antes de fazer vazar a informação. Criticou a ação do repórter e disse que o caso continuava como antes, muito embora nenhum repórter tenha aparecido para contestar sua crítica.

Em outras palavras, a própria polícia fez vazar a notícia para depois negá-la.

Por que?

Ninguém ficou sabendo.

Mas o fato é que Suélen, presa numa outra ala da mesma delegacia, ficou sabendo. O pequeno aparelho de TV que as detentas tinham em comum em uma das celas, deixou chegar a notícia da prisão de Danilo até ela. Imediatamente ela pede para falar com o delegado e nega tudo, dizendo ser invenção dele e, talvez, das próprias irmãs, para tentar inocentá-la. Mas ela não queria culpar a mais ninguém por um crime que apenas ela planejou e executou.

– Eu não escrevi nada disso. – falou a garota, quando o delegado lhe mostrou o calhamaço de papel.

Naquele mesmo dia, após sua apresentação e prisão, Danilo recebe a visita dos pais. Mas foi preciso alguma insistência dos mesmos para que pudessem vê-lo. Era outro o delegado de plantão e este só consentiu a visita por ação do investigador Odair. Dona Helena, como toda preocupada mãe, levou alguma comida, frutas, pães, e outras guloseimas. Chorou na presença do filho e queria saber quanto tempo ele iria ficar preso.

Danilo insistia que logo tudo estaria resolvido. Pediu para que avisassem na loja, que explicassem o motivo da sua falta ao trabalho, e encorajou os pais, dizendo que estar ali era até bom, pois sabia que assim estava caminhando para a solução do mistério.

– Mas como? – perguntou o Senhor Ricardo. – Até parece que você desejava mesmo ser preso.

– De uma certa forma , eu desejava mesmo – respondeu o garoto. O senhor não imagina quantas vezes, durante esse tempo, eu não tive vontade de contar logo toda a verdade.

Mas a verdade, tanto para os pais, quanto para a polícia, a imprensa e até mesmo a sociedade toda, era a de um casal de jovens que havia cometido uma barbaridade. Por mais que conhecessem o filho, e mesmo a menina Suélen, ainda assim era difícil para aqueles pais não deixar de temer a enrascada em que o filho estava metido.

Tratava-se de um assassinato, aliás dois, e nada justifica um crime tão brutal daquele.

Foram embora, prometendo voltar no dia seguinte, mesmo sob as insistência do rapaz, dizendo estar tudo bem e que não havia necessidade.

Mais tarde, Danilo recebeu a visita do investigador Odair em sua cela.

– Você, finalmente, fez a coisa certa, meu rapaz. – disse o homem, tão logo se viu a sós com ele na cela que dividia com outros detentos.

– É! Acho que sim. Mas não sei no que isso adiantou.

– Pode ter certeza de que adiantou e muito. Sabe, desde aquele dia em que conversamos lá na padaria ou, melhor, antes mesmo, eu já tinha comigo alguma coisa que dizia que esta história não estava bem contada.

– Eu percebi isso naquele dia. – disse Danilo.

– Essa menina, fisicamente falando, até que poderia ter arranjado forças suficientes para atacar dois adultos como seus pais, mas não acredito que sua índole iria lhe permitir isso. Ela devia mesmo estar sob um forte estado emocional.

– Mas é claro que estava! – disse Danilo. – O senhor, ou você, não leu os escritos dela que eu trouxe para o delegado Rodrigues.

– Não. Não li. Mas não foi por falta de vontade.

O investigador deu um longo suspiro e depois completou, num tom de voz bastante íntimo.

– Espero que você tenha uma cópia daqueles arquivos. Não confie muito no delegado Rodrigues.

– Por que? O que você está tentando me dizer?

– Calma! E me escute. Em primeiro lugar me diga se você tem uma cópia.

Danilo pensou um pouco e depois lembrou-se da cópia que ainda havia ficado no computador da creche. Imediatamente o investigador Odair lhe aconselhou a não confiar muito nisso, dizendo que alguém poderia ir até lá e apagá-las.

Danilo estava ficando intrigado e ao mesmo tempo nervoso com essas possibilidades que o investigador levantava, e queria saber as razões das mesmas.

Mas o homem o lembrava de que só no final iria dizer o que estava pensando, ou o que sabia. Lembrou-se então de que Suzana ou Fábio também pudessem ter uma cópia, mas ,ainda assim, Odair mostrou-se pessimista.

– É fácil tomarem o computador da menina, ou mesmo do rapaz…

– Mas quem e por quê? – quase gritou Danilo. – Você não percebe que está me deixando apavorado?

– Sei que estou. Mas acredite que é melhor fazer assim do que deixar você confiar demais em certas pessoas. – disse o homem.

– Que pessoas? Pelo amor de Deus! – falou Danilo, em tom suplicante.

– Em primeiro lugar o delegado Rodrigues. Ele não está dando a atenção que deve dar a esse caso ou, pior, está dando atenção apenas aos fatos que comprometem sua amiga. Se ele puder te incriminar junto, tudo bem, mas o que interessa a ele, sobretudo, é incriminar a menina.

– Mas por quê?

– Em segundo lugar. – diz Odair. – Não confie no advogado que o tio de Suélen arranjou para defendê-la e muito menos confie no próprio tio da Suélen.

– Desses dois eu já estava desconfiado. – disse Danilo. – Acho que estão mais interessados é em tomar conta do dinheiro das meninas.

– Exatamente. – disse o homem. – E se você prometer ficar de boca fechada, te conto o segredo maior.

– Pode falar!

– O nosso amigo Rodrigues deve estar levando algum nisso. Por isso não se assuste se esses papéis e os disquetes que você trouxe sumirem, como se nunca tivessem existido. Por isso é importante que você tenha uma cópia.

– Bom! – disse Danilo, com um certo ar de desânimo. – Você acabou de me dizer que não há nenhuma cópia segura. E agora que sei os interesses do delegado Rodrigues, acredito mesmo que não existam. Se desse tempo de avisar a alguém deles, a Suzana, o Fábio, a…

– O que foi? – perguntou o investigador, diante da interrupção da fala de Danilo.

– Acho que tenho uma cópia segura, sim. Mas precisaria telefonar para a pessoa não apagá-la. Foi só uma cópia feita para…

– O que foi? Com quem está esta cópia, com sua namorada?

– Espere um pouco. – disse Danilo. – Peço desculpas, mas você acabou de me ensinar a não confiar em ninguém. Não sei se devo confiar em você.

– Mas estou tentando te ajudar, disse o homem. Você e a menina.

– Mas quem me garante isso?

– É. – conclui Odair. – Acho que você está certo. Há um telefone na sala de espera. Vou dar um jeito de levar você até lá.

Conduzido até o telefone, Danilo faz duas ligações. Primeiro liga para a loja, fala com Diana e pergunta se, por acaso, havia ficado alguma cópia dos arquivos no computador de lá. Ela diz que sim e então ele pede que não apague nada e, mais que isso, que faça mais uma cópia em disquete e esconda com ela, em segredo. A garota ainda quer falar com ele, saber da sua prisão, mas ele pede desculpas e diz que não pode falar muito. Em seguida Danilo liga para sua tia e pede a ela que dê as mesmas instruções ao rapaz seu vizinho, que havia impresso os arquivos.

De volta para sua cela, Danilo volta a ficar no seu recolhimento, pensando em Suélen, ali tão próxima e ao mesmo tempo tão distante dele e do mundo, e talvez até dela mesma.

Vem a noite e ele consegue dormir um pouco, até ser acordado com uma mão chacoalhando seu ombro.

Pensou estar sonhando, mas era o investigado Odair, acompanhado do outro delegado, Dr. Marcos, de plantão naquele horário. Passava das três da manhã, e Danilo não pode deixar de manifestar curiosidade e apreensão, principalmente depois que foi colocado em uma sala, sozinho, sob a ordem de que aguardasse.

Uns cinco minutos depois a porta se abre novamente e entra Suélen, segura pela mão de Odair, que a deixa a sós com Danilo.

– Achei que vocês gostariam de se ver. – disse o investigador, fechando a porta e deixando os dois a sós.

Danilo estava frente a frente com Suélen. Há quanto tempo não a via? Três anos, quatro anos? Todo aquele sentimento de culpa que antes lhe ocorrera por não ter notado as transformações da garota, agora transpareciam em sua face, em sua emoção.

Abriu os braços para a garota, como a pedir perdão pela sua longa ausência, pala sua falta de atenção para o drama que ela esteve vivendo durante todos aqueles anos.

Num primeiro momento, Suélen caminhou para os braços do rapaz, como a dar vazão a todas as suas necessidades sentimentais e angústia que estava vivendo nos últimos tempos. Mas esse desejo, se é que havia, acabou tão logo ela deu três passos e esteve a ponto de alcançá-lo com as mãos.

– Eu te odeio! – disse Suélen, com toda a força da voz e toda a expressão de ódio que seu rosto podia transmitir.

– Mas por que? – pergunta Danilo, sendo logo interrompido. – Eu…

– Ninguém precisa saber da minha vida! – grita a garota. – Ninguém tem nada a ver com as minhas coisas. Você não tinha nada que bisbilhotar minhas coisas. Não tinha o direito de desenterrar coisas passadas.

– Mas Suélen, escute.

Danilo tenta segurar os braços da garota, olhar em seu rosto, convencê-la de que estava apenas querendo ajudá-la. Mas Suélen grita com mais força ainda.

– Não escuto nada. Quem tem de escutar é você. Me deixe em paz aqui, está bem? Eu não quero sair daqui, não quero voltar para minha casa, para a casa de ninguém, não quero ver ninguém. Dá para você entender isso? Eu pedi para você cuidar das minhas irmãs, mas não posso te cobrar isso, sei que não está ao seu alcance. Mas, por favor, não queira cuidar de mim também. Eu não preciso de cuidado, não quero cuidado de ninguém, nem seu.

– Por que você não quer que saibam a verdade? – pergunta Danilo, num momento em que Suélen parece se cansar.

– Você não entende? – diz ela, já chorando. – Ninguém tem de saber de nada, ninguém pode saber de nada, nem você. Você não tinha de saber. Eu não tinha te pedido para você não dizer que estava lá comigo?

– Mas você…

Suélen não sabe o que Danilo iria dizer. Mas responde de acordo com o que ela imaginou.

– Eu sei que posso ter te causado problema. Eu não devia ter inventado que você era meu namorado. Mas naquele dia foi a história que consegui inventar. Se você quiser trazer a Cátia aqui eu conto a verdade para ela, mas só para ela. Ninguém mais pode saber, entendeu?

– Não. Não entendi. – diz Danilo, resoluto. – Não entendi e não quero entender. Não sei por que razão você sente melhor aqui do que lá fora. O teu lugar é lá fora Suélen. Você não fez nada para merecer estar aqui.

– Como não fiz? Como não fiz? Não matei meus pais?

– Não. – diz ele. – Teus pais é que te mataram. Eles é que destruíram sua vida durante esse tempo.

– Pode ser. – diz ela. – Mas agora eles não destroem mais. Se você quer saber. Não me arrependo nenhum pouco do que fiz. Só sinto tê-lo envolvido também. Mas se fosse preciso eu faria novamente. Entendeu? Tudo pode ter acontecido por uma explosão de momento. Mas de qualquer jeito, mais cedo ou mais tarde eu iria explodir mesmo. E iria explodir antes do aniversário de Suzana. Eu não iria permitir que fizessem com ela o mesmo que fizeram comigo.

– Pois então meu anjo. – diz ele, abraçando o corpo da menina. – Você ainda demorou. Devia ter feito era logo no começo. Mas agora acabou. Agora eles não podem mais fazer mal a você nem às suas irmãs. Agora você, ou vocês, têm toda uma vida pela frente. Tudo o que você precisa fazer agora é gritar para todo mundo o porquê de você ter feito isso, de ter explodido. Todos vão te entender e dar razão.

– Claro que não! – diz ela, afastando-se dele. – Como é que você acha todo mundo, minhas irmãs, meus amigos, meus parentes, vão olhar para mim?

11

– Ninguém vai te chamar de assassina.

– Mas não é disso que estou falando. – diz ela, voltando aos braços dele. – Estou falando é desses anos todo, é daquilo tudo que…

Não consegue terminar de falar e chora. Mas Danilo não a deixa aninhar-se em seu peito. Olha-a no rosto e diz com voz pausada e firme.

– Meu anjo. Todo mundo vai te olhar do jeito que estou te olhando. Você não tem motivos para temer as pessoas. E quer sabe mais? Não vou desistir de fazer todo mundo saber da verdade. Aqui não é o seu lugar.

Danilo mal teve tempo de terminar de falar, antes que Suélen começasse a esmurrá-lo com violência, ao mesmo tempo em que gritava que ele não iria fazer nada, que não iria contar para todos os segredos que pertencia a ela, somente a ela.

Suélen estava descontrolada, batendo no peito do rapaz com tanta força e rapidez nos golpes que ele chegou a ver naquele momento a mesma Suélen daquela sexta-feira; a mesma Suélen que esfaqueou a mãe, que golpeou o pai com a panela, com tanta vontade e força a ponto de matá-los.

Pediu por socorro.

– Alguém me ajude! Por favor. – gritou.

E no mesmo instante, como se já estivessem com a mão no trinco da porta, entraram o investigador Odair, o delegado Márcio e mais dois homens que Danilo ainda não sabia quem eram. Seguraram Suélen, não sem um certo esforço, tamanha era a energia que a menina tinha nas mãos e na voz.

Dominada, porém, ela parou de gritar. Aninhou-se num banco e, encolhida, começou a chorar e a falar como que para dentro de si mesma.

– É tudo mentira. – ela dizia. – Eu escrevi tudo aquilo, mas é tudo mentira. Eu inventei tudo, inventei tudo, inventei…

Os homens e o rapaz olham para a moça, trocam olhares entre si e ficam sem saber o que fazer. O investigador Odair é quem sinaliza para que a deixem falar e chorar, ou chorar e falar. Suélen continua, olhando para o chão.

– Eu não preciso sair daqui. Sair para quê? É aqui que estou feliz. E não mereço mesmo sair. Eu inventei tudo aquilo. Inventei tudo o que escrevi.

Danilo não suporta mais ver aquela cena, e se ajoelha aos pés da menina. Ela então toma seu rosto entre as mãos e fala carinhosamente.

– É tudo mentira, viu! É tudo mentira. Desculpa se enganei você, mas é tudo mentira, é mentira.

Depois, virando-se repentinamente para o investigador e o delegado.

– Posso voltar para minha cela?

Danilo sequer tentou uma despedia com Suélen, um abraço, um beijo em sua face ou qualquer coisa assim. Sabia que ela não queria.

Depois que o investigador Odair deixou Suélen na cela e voltou para junto dos outros homens, foi logo dizendo para Danilo.

– Acho que você pode esquecer aquelas cópias dos arquivos. Não terão muita utilidade.

E só então ele fica sabendo que Odair havia convencido o delegado Márcio a provocar aquele encontro entre os dois, para então ficarem vendo-os e ouvindo, através de um vidro de face única. Por isso é que atenderam tão rapidamente quando Danilo pediu ajuda. Agora sabiam da verdade, pela própria boca de Suélen.

– Mas por que você diz que o que ela escreveu não tem mais utilidade?

– Pode até ser que tenha. É bom conservar. Mas se ela continuar negando que escreveu ou, então, como disse agora, que inventou tudo.

– Mas vocês ouviram ela falar.

– Tudo bem. – diz o delegado Márcio. – Mas foi uma situação que forjamos mais para nosso próprio conhecimento. Queríamos ter a certeza. Entendeu. Se ao menos tivéssemos arranjados mais testemunhas.

– Mas tem uma coisa. – diz Odair. – Pode contar com a gente para continuar procurando um meio de resolver tudo isso. Mas é importante que ninguém mais fique sabendo do que aconteceu aqui hoje.

– Principalmente o meu colega Rodrigues. – diz o delegado Márcio.

– Mas como vão ajudar? – pergunta Danilo. – A verdade todos nós sabemos, mas se ela insiste em negar. O que podemos fazer?

– Das duas uma. – diz Odair. – Ou encontramos uma prova que nem ela mesmo possa negar ou, então, mesmo sem essa prova, podemos tentar provar que ela precisa é de tratamento médico e não de prisão.

– Mas como vamos encontrar essa prova. – pergunta, desanimado, o rapaz, enquanto caminha de volta para a cela, disposto a nem mesmo dormir mais, para só pensar no que mais poderia usar como prova de que Suélen estava mentindo.

Mas dormiu.

Apesar de tudo estava cansado e dormiu ainda por mais de uma hora, antes que fosse novamente acordado pela agitação normal nas celas e nos corredores, dos presos se levantando, ligando seus rádios, tomando o café da manhã.

E o secreto encontro de Suélen com Danilo não perdurou por muito tempo. A própria menina acabou contando para suas colegas de celas e o fato acabou chegando nas ouvidos do delegado Rodrigues, que assumia o plantão de manhã.

Danilo não pode perceber a movimentação toda, ocorrida logo de manhã, na delegacia, mas Odair iria lhe contar mais tarde que o homem havia ficado possesso, inclusive ameaçando-o por tomar uma atitude não autorizada por ele, seu superior. Depois entrou em atrito também com o delegado Márcio, por agir em um caso que não estava em seu encargo.

– Mas no final tudo foi bom. – disse Odair. – Depois de toda a confusão armada e as discussões que se seguiram, aumentou bastante o número de pessoas que estão sabendo da vossa conversa e também dos escritos de Suélen. Sei que agora, pelo menos, ele não pode dar sumiço nas cópias, como se elas nunca tivessem existido, pois muitos sabem que existem.

Já no começo da tarde, Danilo foi posto na rua, por um delegado Rodrigues visivelmente contrariado.

– Se a ré está dizendo que você não teve participação com ela no crime, não posso mais mantê-lo aqui.

Estranho o uso do termo ré. – pensava Danilo, embora não entendesse bem o porquê, talvez por falta de conhecimentos jurídicos.

De qualquer forma, porém, o delegado Rodrigues se referia à menina Suélen com um certo desprezo ou, talvez, uma vontade ou mesmo certeza de poder condená-la o mais rápido possível. Danilo não entendia de leis, não sabia que quem condenam são os juízes e que aos delegados cabem apenas a condução do inquérito, a apuração dos fatos.

Fatos esses que o delegado Rodrigues não parecia estar interessado em apurar, ou então, interessava-lhe apurar à sua maneira.

Sai para a rua e tem alguma dificuldade em fazer funcionar sua moto. Nesse meio tempo, o investigador Odair vem lhe pedir um telefone para contato, para o caso de alguma novidade. Volta para casa, faz festa com os pais e combinam ir no dia seguinte, conversarem com o advogado, a respeito das rescisões de contratos do casal.

Mais à noite recebe uma ligação de Cátia, dizendo estar com saudades, mas que sequer sabia que ele estivera aqueles quase dois dias preso. Sem muita vontade de conversar com a namorada, ele promete ligar no dia seguinte.

Vai dormir.

Na sexta-feira, logo cedo, a família toda deixa o bairro e vai de ônibus até o centro da cidade, no escritório do advogado. Danilo rejeitou ir com o carro do tio por saber que no centro era muito difícil o tráfego e o estacionamento.

Para andar por lá, dizia, só mesmo de moto ou a pé.

E apesar do ônibus cheio e sacolejante, Danilo sentiu uma sensação gostosa por estar junto dos pais, conversando livremente, sem mais nada para esconder. Mesmo que ele voltasse a ser detido, em vista da sua confissão de participação no crime, ainda assim o que lhe valia era estar sem aquela carga sobre os ombros. De alguma forma também, tinha um bom pressentimento de que alguma coisa nova estava para acontecer.

No ônibus, quando conseguiu finalmente sentar-se e ficou junto dos pais, e por estarem indo tratar exatamente do emprego que antes tinham, o assunto girou em torno da grande casa, da vida ali dentro, da harmonia que parecia reinar.

– Doutor Sérgio era boa pessoa. – disse Senhor Ricardo, em dado momento. E a dona Marina também.

– É mesmo. – disse Dona Helena. – A única vez que vi dona Marina alterada comigo foi quando mexi no seu guarda-roupa.

– Você mexeu no guarda-roupa dela? – pergunta o marido.

– Para fazer a limpeza! – emenda a mulher, percebendo que já estavam a lhe fazer mal juízo.

– Mas então? – pergunta Danilo. – Se a senhora estava trabalhando? O que foi que houve afinal?

– Eu havia tirado toda a roupa do armário e colocado sobre a cama, para poder fazer uma boa limpeza lá dentro. Então achei a ponta de um papel que saía do fundo do guarda roupa. Fui puxar e era uma fotografia. Mas nem deu tempo de ver direito. Dona Marina tomou-me a foto da mão, ergueu uma madeira ali do fundo, guardou a foto e falou que não era para eu mexer ali, de jeito nenhum.

– Era um fundo falso? – pergunta Danilo, sem dar maior importância para o fato, voltando a outros assuntos de antes, até que chegam no escritório do advogado, que informa porque os processos ainda estavam em andamento.

– Sabe como são essas coisas! – disse o advogado. – Enquanto não se apurar tudo direitinho, fica difícil.

– Mas nós estamos passando necessidade! – disse Dona Helena. – E não temos nada a ver com tudo isso que aconteceu.

– Não é bem assim! – disse ele. – A senhora sabe… o seu filho. Por mim já acertaria tudo agora mesmo, mas essa não é a opinião do meu cliente.

– O seu cliente. Mas nós somos o seu cliente.

– Sim e não. Tenho de acertar as coisas com vocês, mas estou respondendo aos tios das meninas. E vocês sabem, depois do que a menina mais velha, fez, o modo como ela se comportava…

– Mas qual é o modo que ela se comportava? – interrompe Danilo, um tanto irritado com a “enrolação” e as insinuações do homem. – E além do mais, o que tem isso a ver com o acerto de contas dos meus pais?

O advogado não perde a calma, nem a pose. Apenas volta a repetir que não é ele quem está emperrando as coisas, mas o tio de Suélen.

– Acho que por ele, não haveria acerto algum.

– Mas é de lei – diz Danilo. – Não estamos pedindo indenização, nada disso, apenas o acerto de contas para que meus pais possam receber o Fundo de Garantia, e tem também salários vencidos, férias.

– Bom! – disse o advogado, repentinamente. – Já que você falou em indenização. Tenho uma proposta do meu cliente, mas que eu estava relutando em fazê-la a vocês ou, mais exatamente a você – diz, apontando para Danilo.

– Pode falar.

– Podemos agilizar o processo. Sabe como é? Basta dar algum por fora que as coisas vão se ajeitando. E então, além de todo o dinheiro que é vosso de direito, e também a liberação do Fundo de Garantia, meu cliente está disposto a lhes pagar uma boa indenização pela perda repentina tanto do emprego como da residência. É dinheiro bom, talvez até dê para vocês comprarem vossa própria casinha.

– E em troca? – perguntou Danilo, como que já adivinhando o que iria ouvir.

– Em troca, tudo o que pedimos ou o que meu cliente está pedindo, é que vocês deixem a família em paz.

– Deixar a família em paz? Mas quem é que está tirando a paz da família? Só estou tentando…

– O senhor está tentando, e conseguindo, destruir, desmoralizar a imagem de duas pessoas de bem. Duas pessoas brutalmente assassinadas por uma filha insana e drogada, e que são agora acusados de pedofilia, incesto, abuso sexual…

– Mas espere aí. – interrompeu com voz forte o rapaz. – Quem está acusando? Como é que o tio de Suélen sabe de tudo isso?

– O senhor se esquece que sou advogado da menina?

– Da menina ou do tio? – pergunta Danilo, levantando-se e incitando os pais a irem embora, pois sentia que a situação não estava favorável para eles. Por mais que uma indenização qualquer pudesse tirar sua família da penúria em que estavam vivendo, ainda assim não pagaria o sofrimento de Suélen atrás das grades.

Voltaram em silêncio no ônibus. Talvez o Senhor Ricardo ou até mesmo Dona Helena sentissem vontade ou necessidade de pedir ao filho que voltassem lá e fizessem um acordo com o homem.

Mas ninguém fez isso.

No entanto, o silêncio das vozes, somado ao barulho da carroçaria do ônibus, fez, de repente, saltarem novas luzes nos olhos de Danilo.

– Mãe! A senhora disse que pegou uma foto e que dona Marina gritou para a senhora não olhar?

– Pois foi o que aconteceu.

Danilo tentou falar com o investigador Odair durante a tarde toda, mas só conseguiu à noite. Contou a novidade do fundo falso no armário, da foto que a mãe disse ter visto.

– Mas que foto era? – pergunta o investigador.

– Ela não teve tempo de ver direito. Mas disse que era de alguma pessoa.

– Sim. Mas o que isso tem a ver, no que pode ajudar.

– O senhor não leu os escritos de Suélen, mas ela faz várias referências sobre fotos que era obrigada a tirar junto com os pais. Fotos pornográficas, entendeu?

– Meu Deus! – faz o homem, do outro lado da linha. – Seriam eles capazes disso?

– Como não? – retorna Danilo. – Coisas piores já haviam feito. Precisamos ir até aquela casa, vasculhar aquele armário.

– Precisamos. – diz o investigador – Mas não podemos.

– Como não? – pergunta aflito Danilo.

– Deixe-me pensar. – diz Odair. – Para ir até lá precisamos antes de um mandado judicial, uma ordem para uma nova busca na casa. Mas precisamos apresentar bons argumentos para convencer o juiz a fornecer esse mandado de busca.

– Então? Mas não temos os argumentos?

– Talvez sim, talvez não. Podemos usar a sua palavra sobre as referências às fotos feitas nos escritos, e a palavra de sua mãe sobre a foto e o fundo falso do armário. Mas não sei se isso seria o suficiente. Além do mais, quem garante que são as fotos das quais você fala? E mesmo que fossem, quem garante que ainda estão lá?

– Não sei. – concorda Danilo, um tanto desanimado. – Mas o que sei é que precisamos ir até lá. Se polícia não for, vou eu.

– Você não pode fazer isso. É muito arriscado, poderia ser preso por invasão de domicílio ou, no mínimo, por estar interferindo no trabalho da polícia, exercício ilegal da profissão e por aí afora. Você não é investigador.

– Mas você é? – diz o rapaz.

Desligam, depois que Odair se propõe a pensar em alguma coisa e retornar a ligação assim que tivesse alguma novidade.

Esperançoso, ainda que já um tanto tarde, quase dez horas da noite, corre até a padaria, a comprar três cervejas.

– Por enquanto ainda temos pelo menos para beber cerveja – diz enquanto convida o pai. – Faltei a semana toda no serviço, mas vou dar um jeito de trabalhar direito a partir da semana que vem. Estou sentindo que logo vou ter sossego para até procurar outro emprego melhor.

– Você ligou para a Cátia? – pergunta a mãe.

E só então ele se lembra de que havia prometido à namorada ligar naquela sexta-feira.

– Agora já foi. – disse, sorvendo um gole da cerveja, e não dando muita importância ao esquecimento. Amanhã eu ligo.

Mas foi Cátia quem ligou, no sábado logo de manhã. Brincou, fingindo estar magoada e triste, mas que iria esquecer tudo se ele prometesse vê-la na parte da tarde, como das outras vezes. Danilo respondeu que não poderia dar uma resposta naquele momento, estava para receber uma ligação sobre um emprego e talvez tivesse de sair à tarde. A moça não ficou muito convencida com a história de ver emprego em pleno sábado a tarde, mas desligou ansiosa, esperando o retorno.

O que Danilo esperava era o retorno do investigador Odair. Ficou em casa a manhã toda, nem teve ânimo para mexer com a moto, que tão pouco tinha usado naquela semana, e correu pela casa dos tios quando a tia anunciou a ligação.

– Você tem uma chave da casa? – perguntou o investigador. Arrumei um jeito de fazer uma visita não oficial à casa.

– Tenho só do portão de serviço, que ficou no chaveiro da moto. Mas da casa mesmo não tenho nenhuma, e acho que nem meus pais.

– Já é o bastante. Você conhece a casa por dentro, sabe onde fica o quarto?

E diante da resposta positiva de Danilo, marcaram se encontrar às dez horas daquele mesmo dia, na mesma padaria onde haviam se encontrado e conversado antes.

– Isso pode até complicar minha vida. – disse Odair, mas estou disposto a correr o risco.

Agora, sim, Danilo podia ligar para Cátia, dizer que iria vê-la no dia seguinte, o dia inteiro se ela quisesse. A menina aceitou suas desculpas por não poder vê-la naquele dia, mas disse esperá-lo no dia seguinte, para o almoço, para um passeio. Tudo começava a voltar ao que antes era, pensava Danilo.

E mal saía da casa dos tios, ouviu a campainha do telefone e a tia o chamou de volta.

– Depois te mando a conta. – disse ela, brincando.

Era Suzana.

Disse que estava aproveitando alguns minutos que lhe permitiram estar na casa de Karen. Explicou que os tios não queriam de modo algum que eles dois conversassem e que foi até a creche pedir a destruição daqueles arquivos. Explicou também que tinha uma cópia no computador de Karen, e depois falou de Suélen.

– Nós fomos vê-la hoje e ela contou que te viu. Saiu a notícia de que você tinha sido preso também, mas logo desmentiram tudo.

– E como ela está? – pergunta Danilo.

– Do mesmo jeito. Ela falou para eu te pedir desculpas pelo que aconteceu lá, mas não quis me dizer o que era, e também nem dava para ela falar direito, por causa dos tios. O que foi que aconteceu?

– Nada! Ela apenas brigou comigo porque eu levei os arquivos até a polícia. Ela não quer que ninguém mais saiba da… daquelas coisas. Você sabe.

– Sei. Não quero nem lembrar do que li. É horrível. Eu também tenho que te pedir desculpas porque naquele dia, na casa do Fábio, saí de lá achando que era tudo uma armação. Mas depois que pensei melhor, sei que não é.

– E você só leu uma ou duas páginas. Se tivesse lido o resto não iria mais sentir raiva da sua irmã.

– Mas eu não sinto raiva dela. Cheguei a sentir, no começo, mas agora não. Nem eu nem a Samanta. Mas nossos tios é que não param de falar mal dela. Até parecem que querem mesmo que ela apodreça na cadeia.

Danilo quase se vê contando para a menina que iria voltar naquela casa dentro de algumas horas. Mas sabia que não podia fazer isso.

Suzana enviou um beijo carinhoso seu, e depois passou o telefone para Samanta. Depois de algumas palavras com a irmã menor, despediram-se e ele tratou logo de rumar para o encontro com Odair, pois estava quase na hora.

Falou para os pais do encontro, mas disse que iam apenas conversar. Não falou nada sobre a invasão da casa.

Odair já estava na padaria, quando Danilo chegou, e em companhia de outro investigador que tratou logo de apresentar.

– Faça um desenho da casa e do quarto. – disse ele ao rapaz, enquanto lhe oferecia papel e caneta.

– Eu conheço a casa. – disse Danilo, para mostrar que não precisava de um mapa.

– Mas nós não. – falou o outro. – Então faça logo esse mapa, dê-me a chave do portão e vá lá distrair o vigia.

– Distrair o vigia?

– Claro! Você o conhece e ele a você. Enquanto você o distrai, eu e meu colega entramos na casa. Somos policiais, certo? Qualquer coisa, se formos descobertos, por exemplo, podemos nos defender, ou com nossas armas ou com nossos distintivos. Você não tem nem arma, nem distintivo.

– Acho que vou precisar de uma cerveja. – disse Danilo.

– E nós não? – perguntou o colega de Odair.

Beberam, e então Danilo se encaminhou com a moto para a rua da grande mansão. Primeiro passou em frente a casa, sondando o ambiente, certificou-se de que o vigia era ainda algum dos antigos conhecidos, deu mais uma volta, e então parou a moto perto da guarita, já retirando o capacete e chamando o homem pelo nome, para que este não se assustasse, pensando ser algum assalto ou coisa parecida.

O homem era realmente um dos mais antigos vigias ali daquele trecho de rua, e mal pode esperar Danilo descer da moto para correr a cumprimentá-lo com um certo entusiasmo, a perguntar como estava, como estavam os pais. Lembrou-se do Senhor Ricardo e de Dona Helena, de todo o tempo em que viveram naquela casa.

Danilo, enquanto percebia o carro dos dois investigadores se aproximando do portão de serviço da casa, contava ao homem como estava com saudades daquele lugar. Inventou que não estava suportando mais tantas saudades e que, por isso, resolveu dar uma volta por ali. Escolheu aquele horário porque havia menos gente na rua, ninguém para reconhecê-lo.

Entraram então em longa conversa, durante a qual, envolvido com o drama do drama, o vigia simplesmente esqueceu por completo qual era sua função.

Em nenhum momento levantou a cabeça ou girou-a para olhar o que acontecia às suas costas. Depois de quase meia hora, os dois saíram da casa e deram a partida no carro, passando pelos dois, dando sinal de que estava tudo certo.

Nem assim o velho vigia percebeu qualquer coisa de diferente. Danilo então resolveu que já era tarde e que precisava ir.

Despediu-se do homem e retornou com a moto para a padaria, onde marcara reencontrar os dois.

Chegou ansioso.

12

– Pode tomar uma dúzia de cerveja. – disse Odair, mas não sei se é para comemorar ou para sentir nojo.

– O que foi? – perguntou, sem quase conseguir conter-se.

– É chocante! – disse o colega de Odair. – Simplesmente chocante. Inadmissível.

– Mas então me falem, mostrem logo o que vocês acharam?

– Não temos nada para mostrar. – disse Odair. – Mesmo porque não sabemos se você iria gostar de ver, ou se alguém mais iria gostar de ver.

– Meu Deus! Vocês querem me deixar louco? Tinha ou não tinha fotos? Pegaram ou não pegaram?

– As fotos existem, são horríveis, e estão lá para provar tudo aquilo que você já sabe. Aliás, além das fotos, tem outras coisas, horríveis.

– Mas por que não pegaram?

– Amanhã. – disse Odair. – Amanhã você vai com sua mãe até a delegacia. Ela vai dizer que viu as fotos, que são fotos da menina com os pais, fazendo coisas horríveis.

– Mas ela não chegou a ver.

– Mas ela pode dizer que viu. Ela vai ter de dizer isso, pois é o testemunho dela que vai nos garantir um mandado judicial. Entendeu? Eu vou falar com o juiz ainda hoje, sem a anuência do delegado Rodrigues. É o delegado Márcio quem vai assumir o caso agora. Ele vai estar de plantão amanhã cedo. Nos encontramos lá e vamos até o juiz, ou ele próprio vai até a delegacia. Isso nos vamos ver amanhã. O juiz só não pode saber que estivemos lá hoje. Entendeu?

– Amanhã! – suspirou Danilo, sem entender muito bem o porquê daquele desabafo. Mas Odair parecia ter entendido.

– É isso aí meu jovem. Amanhã a gente estoura tudo. Vamos provar a todos que sua amiga Suélen tinha razões mais do que de sobra para matar quinhentos pais e quinhentas mães, caso tivesse.

– É! – fez Danilo, talvez agora mais próximo de entender o seu desabafo. O problema é, de que adianta provar a inocência de alguém que não quer ser inocente.

– Aí é com você meu caro.

– Eu?

– E quem mais? Quem mais está esperando ansiosamente pela liberdade dela, para poder dar a ela todo o carinho que ela merece?

– Espere aí. – disse Danilo. Você sabe que não éramos namorados.

– E eu não disse que eram. Mas você já parou para pensar nesse teu carinho especial por Suélen.

Depois da cerveja, da conversa, da certeza de que as coisas agora estavam no caminho certo, pelo menos para eles, agora essa cutucada que Odair lhe fazia.

Estaria ele apaixonado por Suélen?

A noite ameaçava uma garoa fina, não muito agradável para se andar de moto. Porém, mesmo que caísse uma chuva capaz de alagar a cidade toda, ainda assim pilotar aquela moto rumo à sua casa era algo que Danilo fazia com a maior satisfação e felicidade. Talvez até mesmo estivesse agradecendo a garoa batendo em seu rosto, ferindo seus olhos.

Em casa os pais ainda estão acordados, preocupados com o filho. Vai logo contando a novidade, para então ser chamado de louco e irresponsável, pelo pai. Mas quando conta o resultado final do que descobriram, a mãe se desmonta.

– Meu Deus! – ela disse. – Por que não mexi naquelas coisas antes? Teria evitando tanto sofrimento para a menina.

No dia seguinte, domingo, é o carro do tio que vai servir de transporte. Danilo dirige eufórico e tenta a todo instante convencer a mãe de que ela não vai estar contando mentira alguma, ao falar que viu as fotos. Por fim, quando parece tê-la convencido em definitivo, a mulher lança uma dúvida.

– Mas e se me perguntaram por que não falei nada antes? Por que não fui à polícia?

– A senhora está indo agora. – disse o rapaz.

– Depois de tantos anos?

– É verdade.

– Então diga que só viu as fotos alguns dias antes do acontecido e que não as tinha relacionado com o caso. Não sabia que eram de Suélen. – diz o pai, que até então permanecera calado.

O investigador Odair e o delegado Márcio trabalharam rápido e de acordo. O juiz consentiu em expedir um mandado de busca apenas confiando no depoimento de Dona Helena, que ainda seria feito, ou melhor, que ela ficou fazendo, na delegacia, enquanto eram avisados os tios de Suélen sobre a busca na casa, e eram também mobilizados o pessoal e as viaturas.

Pouco antes da dez da manhã, a polícia já estava no portão da casa, aguardando a chegada do tio de Suélen. Este, quando chegou, a primeira coisa que fez foi perguntar o que aquele pessoal estava fazendo ali, referindo-se à família de Danilo. Mas não teve como impedi-los de entrar no quintal, e Dona Helena de conduzir os policiais até o quarto, o fundo falso do guarda-roupa.

Ela própria não quis olhar as fotos.

Chegavam a quase uma centena e nelas aparecia a menina Suélen em vários momentos da sua vida, desde criança, quando tomando banho, brincando pela casa, na piscina e depois, após os seus quatorze anos, em várias posições sexuais juntamente com o pai ou com a mãe.

Nas últimas fotos a menina já aparecia com seus dezessete anos a um olhar sem brilho algum.

O brilho que ela havia perdido e que Danilo não soubera notar. Mas, além das fotos, havia também acessórios diversos, usados em orgias sexuais.

Os policiais da equipe de polícia técnica recolheram tudo com cuidado, preservando as impressões digitais e levaram para o laboratório.

Por volta do meio dia, a aglomeração em frente a casa, formada por repórteres de jornais e televisão ainda era intensa, mas a polícia e a família de Danilo já estavam se retirando, sem responder às muitas perguntas que faziam, sobre o porquê no retorno à casa, se havia surgido algum fato novo, alguma reviravolta.

O investigador Odair propôs pagar um almoço para a família de Danilo.

– Não sou nem louco de voltar para aquela delegacia agora. – disse ele, justificando o convite. – Acabei de ligar para lá e soube que o delegado Rodrigues ficou sabendo dessa busca pela televisão, e está lá agora, soltando fogo pelas ventas, por temos passado por cima dele.

– Não tem perigo de ele fazer alguma coisa com a menina? – perguntou Dona Helena.

Mas sua preocupação logo foi descartada, enquanto rumaram para uma churrascaria que Odair conhecia. Só então Danilo lembrou-se do almoço com Cátia. Correu a ligar para a casa da namorada, tentando justificar-se, mas nem era preciso. Ela já estava sabendo, tinha até mesmo visto-o e Dona Helena pela televisão.

– Tudo bem! – disse ela. – Resolve suas coisas aí. Eu te espero.

Depois do almoço, em que se falou de praticamente tudo, menos no conteúdo das fotos encontradas no fundo falso do armário do casal, a família rumou para casa. O pai e a mãe é que tiveram de explicar tudo aos tios de Danilo, enquanto ligava para Cátia e com ela conversava por longo tempo.

Ela se mostrava ansiosa por um novo encontro igual àquele último e Danilo dizia o mesmo.

– Agora que as coisas estavam se resolvendo. – dizia ele, teriam mais tempo um para o outro.

Mesmo com todo o alvoroço da imprensa a procura de novas informações, depois daquela busca na casa no domingo, a polícia manteve-se discreta e não fez nenhuma declaração até que saísse um laudo pericial sobre a autenticidade das fotos, as impressões digitais e tudo o mais.

Era já a sexta-feira seguinte após o encontro das fotos e dos demais materiais na casa. Danilo retornara à sua rotina com a moto, trabalhando na loja, tentando falar com Suzana, ou esperando uma ligação da menina, ligando para Cátia, os dois prometendo-se novos encontros, o primeiro para o fim de semana seguinte, pensando também em Suélen, em quando ela seria finalmente libertada.

Naquela sexta-feira, pediu para sair mais cedo do serviço, com tudo o que já havia faltado, e foi até a delegacia. De posse do laudo, e já com o novo inquérito praticamente concluído, Dr. Márcio tinha dúvidas sobre quem iria comunicar a Suélen a sua liberdade.

Mais que isso, para onde iria a garota?

– Lugar para ela ficar não é o problema. – dizia Danilo. O problema é contar a ela.

– É a primeira vez em toda minha carreira de policial que vejo um acusado recusar sua inocência. – dizia o delegado.

– Será que podemos falar com ela amanhã? – perguntou Danilo.

– Talvez sim. Estou trabalhando para concluir esse inquérito de hoje para amanhã. Então é só obter do juiz o relaxamento da prisão da menina.

– Relaxamento? – pergunta Danilo, sem entender o significado exato da palavra.

– Sim. Ela será posta em liberdade, mas não estará livre do processo. Entendeu? E nem você.

– Isso quer dizer que ela poderá ser presa depois?

– Pode. Mas dificilmente isso vai acontecer. Você já fez a sua parte, agora é comigo, e juntos não vamos deixá-la ir para a prisão. Quem sabe amanhã mesmo a gente tira ela daqui.

– Se ela quiser sair. – disse Danilo.

Saindo da delegacia, a caminho de casa, pensou em passar no serviço de Cátia. Não iria ligar, mas sim fazer uma surpresa. Não estava com muito dinheiro, mas poderia levá-la aquele motel barato de antigamente, caso ela quisesse ou, então, poderia apenas lhe dar uma carona até sua casa.

Do bar em frente, tomando uma latinha de cerveja, pode ver quando se encerrava o expediente na firma onde ela trabalhava. Saíram alguns funcionários, sós ou acompanhados, alguns a pé, outros de carro, de moto.

Cátia saiu junto com um rapaz.

Danilo deixou o resto da cerveja na lata sobre o balcão, para atravessar a rua e ter com ela. Mas não teve tempo. Ela não seguiu para o ponto de ônibus e sim entrou no carro com o rapaz, e logo partiram.

Com sua moto, Danilo seguiu-os.

Não sabia se estavam a caminho da casa de Cátia ou se para algum outro lugar, mas alguma coisa lhe dizia que ele devia averiguar.

O carro rodou por algumas quadras, mas logo tomou rumo contrário ao da casa de Cátia.

Danilo não os perdeu de vista, até que adentraram a grande avenida dos motéis e foi então que sentiu um certo calafrio lhe percorrer a espinha.

Pensou ainda que tudo não passava de uma grande coincidência, que estavam indo para algum outro lugar e que ali era apenas caminho.

Mas sua esperança terminou no terceiro ou quarto motel da grande avenida, um dos mais luxuosos.

Ainda parou logo atrás, enquanto o casal passava pela portaria, mas só pode certificar-se de que aquilo era realmente um fato consumado.

Em casa não iria beber para embaralhar os pensamentos e esquecer tudo.

Pelo contrário, quis permanecer bastante lúcido para pensar com frieza no que tinha visto. Para se perguntar por que aquilo estava acontecendo, há quanto tempo estava acontecendo.

Queria chorar, mas não tinha lágrimas.

Tudo o que sentia era um bolo crescendo em seu peito, uma dor aguda, sufocando-o.

Só conseguiu dormir quando a madrugada já estava para ser trocada pelo amanhecer, e assim mesmo, um sonho truncado, agitado.

Seus pensamentos não se embaralhavam, permaneciam únicos, sempre a perguntar há quanto tempo Cátia, a sua doce Cátia vinha sendo infiel a ele.

Pela intimidade que presenciara dos dois na porta da firma, na entrada do carro, aquilo não parecia ser coisa nova. Por certo que há muito ela vinha enganando-o.

E ainda queria marcar encontro para o fim de semana. Como?

Mas jurou para si mesmo que não iria ligar para ela, nem procurá-la para pedir satisfações.

Não daria esse gosto.

O delegado Márcio ligou logo cedo, no sábado, intimando Danilo a cumprir a parte mais difícil da tarefa, pois o relaxamento da prisão de Suélen já havia sido assinado pelo juiz.

– O problema, senhor Danilo. – falava o delegado, com toda a seriedade na voz que podia ter. – O problema é que ela não sabe de nada, não sabe da busca, de que foram encontradas as fotos, nada, e nem os tios e as irmãs sabem. Agora é com você

Sábado era dia de visita.

Além dos tios e das irmãs, poucos foram os parentes que visitaram Suélen naqueles quase três meses em que esteve isolada do mundo, como se já não vivesse esse isolamento há muitos anos.

A menina que não queria estar livre, teria de ser posta em liberdade.

Danilo foi com os pais.

Não porque houvesse pensado em levá-los, mas simplesmente porque Dona Helena se arrumou junto com ele e logo foi seguida pelo marido.

O carro do tio foi tomado emprestado novamente e logo após almoço estavam na porta da delegacia.

Não precisavam aguardar o horário de visita, pois tudo o que Danilo tinha de fazer era entrar lá, a qualquer momento e dar a notícia à menina, à assustada Suélen.

Mas Danilo esperou por duas almas com quem ele contava para ajudar a convencer a garota de que aquilo era melhor para ela.

As duas pequenas chegaram, acompanhadas dos tios, que logo tentaram impedir qualquer tipo de aproximação entre os três, puxando as garotas para o interior do edifício, furando a fila das demais pessoas que também aguardavam, como se tivessem o direito de passar à frente de todos.

Mas Danilo entrou logo atrás e foi pedir ajuda ao investigador Odair e ao delegado, seus grandes amigos daqueles últimos dias.

Chamam o tio para um lado, enquanto explicam que Danilo precisava de fato conversar com as meninas, e depois comunicam o relaxamento da prisão de Suélen.

Danilo pode ver uma certa expressão de insatisfação no rosto do homem, mas não sabia dizer se era por ver-se na contingência de deixá-lo falar com as garotas ou se era algum tipo de frustração pela libertação da sobrinha.

Mas não teve tempo de pensar nessas coisas.

Correu para as meninas e tratou de dar a elas a boa notícia.

Suzana e Samanta fizeram festa, abraçando-se e abraçando também a ele, felizes por poderem novamente estar na companhia da irmã.

Suzana queria saber o que houve de novidade, e porque ele não falara nada com ela sobre a busca na casa, no dia anterior.

Ele explica que foi melhor daquela maneira, para evitar que houvesse qualquer possibilidade de que alguém mais ficasse sabendo e fosse até a casa antes, destruir as provas.

– O tio? – perguntaram as duas, quase que ao mesmo tempo.

Danilo achou por bem não responder, mesmo porque não havia necessidade. Além disso, tinha de explicar também às garotas a missão que agora tinham, a de convencer Suélen de que ela devia estar livre, e que tudo aquilo era melhor para ela.

– Não sei porque ela quer continuar mantendo esse segredo. – disse ele. – Prefere a prisão a contar a verdade, a ter a chance de ficar livre. Deve ser algum tipo de vergonha sobre tudo o que lhe aconteceu. Mas ela tem de superar isso.

– Acho que no lugar dela, qualquer outra menina sentira a mesma coisa – falou Suzana. Depois respira fundo, para deixar sair sua mais sincera verdade sobre a irmã. – E pensar que a maior preocupação dela era comigo.

O delegado impediu que o tio de Suélen entrasse com Danilo e as garotas, mas não viu motivo para fazer o mesmo com a tia, de modo que os quatros foram até a cela ds menina, enquanto os demais presos recebiam suas visitas no pátio da delegacia.

Na cela, Suélen se alegra por ver as irmãs, abraça-as com entusiasmo, mas não age da mesma forma com a tia, embora não deixasse de também abraçá-la.

Depois pede desculpa a Danilo, por tê-lo maltratado naquela noite em que foram colocados frente a frente, e o rapaz se vê então na obrigação mais que imediata de lhe dar a boa notícia.

Mas que estranho. – pensava ele. – Normalmente as pessoas ensaiam muito quando precisam dar uma má notícia. No seu caso, temia pelo contrário.

– Pois você vai ter muito mais raiva ainda de mim. – disse, enquanto a menina ainda mantinha os braços em seus ombros.

– Por que? – pergunta Suélen.

– Você está livre! – disse Samanta, sem conseguir conter seu ímpeto de adolescente.

E Danilo não sabia se devia censurá-la por estar adiantando as coisas, ou se devia agradecê-la. Mas Suzana, logo em seguida, também confirmou a boa notícia.

– Mas livre como? – perguntou Suélen.

– Você pode ir embora com a gente. – falou Samanta. – Viemos aqui para te buscar.

– Sim! – disse a garota. – Mas por que estou livre, o que aconteceu? E por que você disse que vou ficar com mais raiva ainda de você? – pergunta a Danilo.

E é nessa parte que as duas recorreram novamente ao rapaz. Fizeram o melhor, mas deixaram o pior para ele. Ficou tudo como antes.

É agora ou nunca! – pensou Danilo, enquanto segurava os ombros de Suélen e olhava fundo em seus olhos.

– Você negou aqueles escritos seus. Disse que foi tudo invenção …

– E foi mesmo. – cortou ela.

– Pois sabemos que não é verdade, e que você também não inventou certas fotos, inventou?

– Fotos? Que fotos? – pergunta ela, afastando-se dele, e também das irmãs e da tia, como que adivinhando os últimos acontecimentos. Eu só escrevi que tinha fotos, foi só invenção.

– Então você tem uma imaginação muito poderosa. – disse Danilo, num certo tom autoritário, desmentindo a garota. Uma imaginação tão forte que é capaz de produzir aquilo que escreve.

– Mas do que você está falando? – pergunta Suélen, acuada.

– Estou falando de fotos, muitas fotos. Você sabe do que falo.

– Não existe foto nenhuma! – grita Suélen, cerrando os punhos, como se quisesse destruir a tudo e a todos que estivessem à sua frente. Repete novamente o grito, com maior força ainda, ao mesmo tempo em que procura maior distância das irmãs e também do rapaz. Fala uma terceira vez, já em choro. – Não existe foto nenhuma!

Suélen senta-se em sua cama e chora com o rosto entre as mãos, de cabeça baixa.

Instintivamente, as irmãs se aproximam e sentam também, uma de cada lado, afagando a garota, procurando dar-lhe algum conforto.

A tia que a tudo assistia até então, puxa Danilo para um canto, procurando saber de que fotos falavam. E pela conversa, o rapaz logo percebeu que a mulher não tinha a mínima ideia dos últimos fatos, não fora colocada a par dos mesmos pelo marido.

Depois que explica, a mulher, perplexa, resolve procurar o marido, pedir a ele explicações sobre o que estava acontecendo, e por que ela não estava sabendo de tudo.

Enquanto isso, Danilo ajoelha-se na frente de Suélen e das meninas, descobrindo seu rosto.

Com os olhos ainda cheio de lágrimas, Suélen deixa escapar todo o seu pavor.

– Agora você sabe. Todo mundo sabe. Não é? Tudo o que eu menos queria é que alguém visse aquelas fotos. Tanto que eu procurei para destruí-las… Agora você viu, todo mundo viu.

– Eu não vi. Ninguém mais viu. Só alguns policiais. Ninguém mais.

Danilo não quer contar os fatos, explicar o que aconteceu ou deixou de acontecer. Não naquele momento.

Teria muito tempo ainda para explicar, para contar, mas principalmente, para fazê-la esquecer tudo aquilo.

Naquele momento, o que ele mais queria, o que as irmãs queriam, era sair com ela pela porta principal da delegacia e mostrar a todos que ali não havia nenhuma assassina monstruosa, mas, sim, uma alma que viveu assustada por muito tempo, e que agora precisava do carinho e da compreensão de todos.

Mas não era exatamente esse o pensamento de Suélen.

– Mas todos ainda vão ver – disse ela. – Logo todos vão ficar sabendo, vão ver as fotos nos jornais, na televisão.

– De modo algum. – disse ele, e é ajudado pelas irmãs. – De modo algum, ninguém vai fazer isso.

– Eu sei que vão. – insiste Suélen. – Mas não me importo. Se quiserem ver, podem ver. Podem ver tudo aquilo que… mas que vejam as fotos e não a mim. Eu não quero ser vista por ninguém. Nem por vocês eu queria, mas já que vocês sabem… Mas agora, por favor, me deixem. Eu não quero mais falar sobre isso. Vão embora.

– Nós vamos embora sim. – disse Danilo, mas você vai junto.

13

– Não vou. – diz ela, de modo conclusivo.

– Você não entende? – interpela Suzana. – Você está livre.

– Você vai com a gente? – diz Samanta, abraçando-se ainda mais à irmã.

– Prefiro morrer a sair daqui.

– Mas você não pode. – diz Danilo. – Você está livre e não pode ficar aqui. Isto não é um hotel.

– Mas eu fico. Eu fico… – fala repetidamente Suélen. – Eu não quero sair daqui.

– Está certo! – diz Suzana, mudando um pouco sua atitude. – Está certo. Você pode ficar ou pode morrer. Não entendemos o porquê, mas tudo bem. Só que eu pensava que você tivesse feito o que fez por amor à gente, por amor a mim.

– Mas foi. Claro que foi por amor a vocês.

– E que amor é esse que agora se acabou?

– Eu ainda amo vocês.

– Ama? Ama e quer nos abandonar? Nós precisamos de você. Será que você não entende? Eu não quero mais morar com o tio. A Sa também não. Só temos você, mas se você não sair daqui, como vai ser?

Samanta repete praticamente as mesmas palavras da irmã, enquanto se abraça a Suélen, dizendo que ela precisa sair de lá para cuidar delas duas.

Suélen, encara as duas irmãs por um longo tempo, tentando encontrar alguma coisa para dizer, até que dá um sinal de que as coisas podem mudar.

– Se eu sair. – ela diz. – Só se for para um lugar bem longe, escondido, para a casa da vovó, qualquer lugar longe daqui.

Danilo e Suzana se entreolharam. Percebiam com mais clareza a sugestão anteriormente feita por Suélen quanto a fugirem para algum outro lugar.

Essa fuga tinha dois propósitos, o de tirar Suzana do perigo dos pais e também o de afastar a própria Suélen das pessoas com quem ela convivia, para que não precisasse ter vergonha de ninguém.

Mas que vergonha necessitava ter Suélen? – pensava Suzana. Ela era a vítima e não a culpada de tudo aquilo. Tomou o lugar de Danilo, ajoelhando-se frente à irmã e falou com doçura.

– Escuta. Você uma vez propôs que a gente fugisse para algum lugar bem longe. Na época eu não podia entender porque você falava aquilo, mas agora entendo muito bem. É você mesma quem está achando que deve fugir. Mas por que? Você não tem de fugir de nada. Você não fez nada do que se envergonhar.

– Não quero olhar para a cara de mais ninguém. – diz ela. -De mais ninguém.

– Então por que a gente não vai lá para a chácara. Lá só tem o caseiro e a mulher dele. A gente fica sozinho.

Foi Samanta quem deu a ideia da chácara. E essa parece ter sido a luz que faltava. A menina ainda falou do rio, das plantas, dos animais, do quintal onde elas sempre gostaram de brincar.

Suélen sorriu, brilhou.

– Você vai com a gente? – pergunta a Danilo.

– Claro! Quer dizer, acho que sim. Acho que meus pais também vão querer ir.

– Então está certo. Mas eu quero ir direto daqui para a chácara.

– Hoje acho que não dá. – diz Danilo. – É preciso ajeitar as coisas. Por que não vamos amanhã?

– Amanhã? Está bem. Vocês vêm me buscar amanhã.

– Mas você vai embora hoje. – diz Suzana, deixando Suélen pensativa.

– Posso ir para sua casa? – pergunta então Suélen a Danilo.

– Minha casa? Mas e suas irmãs?

– É só hoje. Depois, amanhã, vamos todos para a chácara, você também, o tio Ricardo e a tia Helena.

– Fazia tempo que você não chamava meus pais de tios.

– Gosto muito deles.

– E eles também de você. Estão aí fora te esperando. Só tem uma coisa! Esqueceu que não temos mais casa? Estamos morando num aperto só.

– E isto aqui, o que é? Me leva para lá hoje. E olhando para as irmãs. – é só hoje, amanhã a gente vai estar juntas. A não ser que vocês vão lá também, se o Danilo deixar.

– A gente fica na casa dos tios. – diz Suzana. – Nem sei se eles vão permitir que a gente saia.

– Mas eles vão ter de permitir. Hoje vocês ficam lá, mas não vão mais ficar com eles. Lá não é um bom lugar. Não gosto mais do tio. Nem dele nem daquele advogado que arrumou para me defender. O homem só vem me dizer coisas nojentas. Até parece que eles querem mesmo é que eu apodreça aqui.

– O que você também quer. – diz Danilo.

– Sim, mas por outros motivos. Eu acho que o tio está mais interessado é em ficar tomando conta das coisas que… que eles deixaram. Várias vezes ele me disse que eu devia ter encontrado outra maneira de apagar a minha sem-vergonhice.

– Sua sem-vergonhice? O tio disse isso? – perguntou Samanta.

– Não. Ele não. Mas só não disse porque não ficou sozinho aqui comigo nenhuma vez. Foi o advogado quem disse, várias vezes, e falou de tal maneira que parecia mesmo ter sido instruído pelo tio.

Chega então o momento em que Suélen junta alguns dos seus pertences, que eram praticamente nada. Quer se despedir de algumas colegas. Enquanto isso, Danilo vai falar com o delegado e manifestar a intenção da menina de não ir para a casa dos tios.

– Tudo bem. – disse o homem. – Ela tem liberdade para escolher para onde quer ir. No entanto, como só houve um relaxamento da prisão, é necessário que alguém assuma sua custódia, até a sentença do juiz ou o julgamento.

– Meus pais podem assumir?

E assim, mais algum tempo se passou até que fosse formalizada a libertação de Suélen.

Nesse meio tempo, seu tio parecia um tanto possesso, dizendo que aquilo era uma desfeita muito grande por parte da menina, depois de tudo o que eles haviam feito por ela. Sentenciou então que não iria mais ficar pagando o advogado para sua defesa.

Ninguém disse nada, mas a vontade de Danilo ou, talvez, até de Suélen, era perguntar qual defesa o homem tinha feito.

Suélen fez festa para os pais de Danilo quando os viu, e saiu abraçada com Dona Helena e também às duas irmãs pequenas.

Fizeram tudo de forma a não chamar a tenção de ninguém, principalmente da imprensa.

Na parte dos fundos da delegacia, despediram-se das irmãs e da tia, e combinaram encontrarem-se na manhã seguinte.

À tia solicitou que arrumasse algum dinheiro, pois não sabia quando é que iria conseguir algum daquele que seus pais tinham. Pediu também que enviasse o motorista até a casa, para tirar da garagem a van que os pais costumavam usar nos passeios. Iriam usá-la na viagem até a chácara.

E então saíram os quatro, um tanto escondidos, no carro dos tios de Danilo.

Para o Senhor Ricardo, Dona Helena e Danilo, tudo aquilo era uma felicidade só.

No entanto, Suélen, sentada no banco de trás do carro, em companhia de Dona Helena, parecia não partilhar do mesmo momento.

A mulher a abraçava, enquanto a menina aninhava a cabeça em seu peito. Depois de algumas quadras, Dona Helena pediu silêncio.

Suélen já havia descido sua cabeça até o colo da mulher, adormecida.

Suélen dormiu no colo de Dona Helena durante todo o trajeto. Apenas quando chegaram é que acordaram carinhosamente a menina, logo levando-a para dentro da própria casa. Danilo temia que os olhares curiosos dos vizinhos pudessem chamar a atenção e, de alguma forma, acabar trazendo a imprensa para o local.

Eles que fossem procurar saber notícias de Suélen na casa dos tios dela. – pensava.

A tia de Danilo já conhecia Suélen, de algumas vezes que estiveram visitando os parentes, mas não cansou de admirar e elogiar sua beleza, abraçando-a com carinho. O mesmo fez o tio, e depois sugeriu que ela tomasse um gostoso banho para limpar as lembranças da prisão. Havia comprado alguns quilos de carne e iriam fazer um pequeno churrasco no quintal, para comemorar.

Só então se lembraram que Suélen havia carregado apenas a roupa do corpo, e então as mulheres tiveram que voltar às pressas para o pequeno centro comercial do bairro, a fim de comprar um vestido, duas camisetas, uma calça que julgaram servir na menina, e também algumas calcinhas.

A tia de Danilo foi quem arcou com a despesa, e pelo seu entusiasmo, com muito prazer.

Quando Suélen saiu do banho, já estava com seu novo vestido, estampado de branco e preto, contrastando com sua pele loira, deixando-a mais linda do que normalmente já era.

Dona Helena secava-lhe os longos cabelos, enquanto a tia se ocupava da cozinha, preparando arroz, farofa, e outras guarnições para acompanhar a carne que já começava a exalar um aroma de “estou com fome” sobre o braseiro que o tio havia acendido.

Mas Suélen ainda era a menina quieta, cabisbaixa.

Danilo tentava animá-la, a qualquer custo.

– Você não acha que ainda é muito cedo? – perguntou sua mãe, num momento em que ele adentrava a cozinha para apanhar mais cerveja para o pai e o tio.

Suélen aceitou tomar cerveja, e com isso pareceu animar-se um pouco, mas não o bastante, pelos desejos do rapaz.

A tia, falando baixo no ouvido de Danilo, disse que a moça Cátia havia ligado duas vezes durante a tarde, e estava esperando um retorno.

– Não falei nada sobre aonde você tinha ido. – disse a mulher. – Não sei se podia falar.

Mas Suélen, talvez pelo seu estado de concentração, não pode deixar de ouvir as palavras da mulher.

– Você não vai ligar para ela? – perguntou a Danilo.

– Talvez depois. – disse ele. – Talvez nunca mais.

E enquanto a tia se afastava, com a certeza de que aquela era uma conversa que não lhe dizia respeito, Danilo explicava em poucas palavras que o seu namoro com Cátia já não tinha mais razão para existir.

Depois da carne, da cerveja, de alguns risos que conseguiram arrancar de Suélen, a muito custo, chegava a hora das duas famílias, ou três, se recolherem para os seus cantos, suas camas, seus sofás.

Os pais de Danilo queriam oferecer à menina a própria cama, julgando-a uma princesa cuja majestade não lhe permitia outra acomodação para dormir.

– Vocês se esquecem de onde dormi nos últimos meses? – perguntou então aquela princesa.

E então aninhou-se no sofá, enquanto Danilo se ajeitava num colchonete, no chão da pequena sala.

Antes de dormir, porém, Danilo não pode deixar de sentar-se ao lado do corpo de Suélen, olhar para seu rosto e sentenciar que ela deveria ser feliz, daquele dia em diante.

– Vocês brigaram por minha causa, não foi? – perguntou ela, enquanto recebia o beijo de boa noite do rapaz. – Foi por causa da história do namoro que inventei, não foi?

– Acho que não – disse ele. – Acho que não.

O domingo amanheceu de sol, em pleno inverno. Até parecia condizer com o momento de Suélen

As palavras de Suélen, perguntando se fora ela a causadora do fim do romance ente Danilo e Cátia, perduraram mais tempo em seu pensar do que ele realmente gostaria que perdurassem.

De repente, passou a perguntar-se se o fato da namorada estar saindo com outro não era realmente devido ao seu anunciado namoro com Suélen ou, mais que isso, à pouca atenção que ele próprio deu à namorada, enquanto tinha por si que a questão mais importante era resolver aquele mistério que rondou a vida de Suélen durante todo aquele tempo.

Cátia havia ligado.

Deixara recado para que ele retornasse a ligação. Mas no dia seguinte ele estaria a caminho da chácara com Suélen.

Talvez fosse melhor mesmo não dar atenção à namorada, como já havia se decidido a fazer antes.

Que ela ficasse à sua procura por quanto tempo julgasse necessário.

Afinal, se tinha outro, por que ainda procurava por ele?

Ou talvez fosse melhor rever Cátia, nem que fosse pela última vez, apenas para conversar e esclarecer tudo, perguntar a ela desde quando aquele outro fazia parte da sua vida.

Não devia ser pouco o tempo. – pensava -, para já estarem indo a motéis.

Ou talvez fosse apenas uma saída ocasional, sem maiores compromissos. Afinal ele também saíra com Suélen, sem compromisso algum.

Mas acabou se compromissando depois.

Ou não?

Antes de rumar para a antiga casa, de encontrarem-se com o motorista dos tios de Suélen, havia tempo para uma passada na casa de Cátia. Foi com essa ideia que Danilo dormiu, e foi com ela que acordou no dia seguinte, ainda cedo, ainda enquanto Suélen dormia, como dorme um anjo, no sofá ali à sua frente.

Conseguiu que o tio levasse a todos, inclusive Suélen, de carro, até a velha casa, enquanto ele fez funcionar sua moto e se dirigiu para a casa de Cátia.

Depois se encontrariam todos lá.

Queria explicar à menina que estava para passar uma semana fora, a última semana das ferias das meninas, já que Cátia parecia não ter mesmo condições de recuperar os meses perdidos na faculdade.

Mas em nada isso significava qualquer tipo de envolvimento seu com Suélen.

Quando chegou à da casa de Cátia, porém teve a informação de sua mãe de que ela não dormira em casa e sim na casa de uma amiga, com quem estava desde o dia anterior, pela hora do almoço.

Danilo não entendia então porque a insistência da namorada ao ligar duas vezes no sábado à tarde, se nem ao menos ela estava em casa.

Mas estava saindo, quando viu encostar um carro, conduzindo Cátia.

Era aquele mesmo seu colega com que a vira entrando no motel.

Parou na esquina e viu claramente quando os dois se beijaram, dando a despedida.

Não entendeu nada, mas também não voltou para entender.

Rumou para sua antiga casa e ainda teve de ajudar o motorista e outros homens das redondezas, a empurrar a van até fazer com que ela funcionasse.

Com tanto tempo parada, havia arriado as baterias.

Nenhuma das meninas quis entrar na casa.

A tia de Suélen as trouxera, junto com o motorista, deixou algum dinheiro com Suélen e também algumas roupas que, sob as ordens do tio haviam sido retiradas da casa, para serem dadas ou destruídas, mas que ela as conservara.

E desejou boa sorte na viagem.

O pai de Danilo dirigiu por todo o trajeto, como já estava acostumado a fazer, e há muito não fazia. Chegaram na chácara a tempo de aproveitar um almoço tardio, que os caseiros haviam preparado, quando avisados da ida do pessoal.

Depois do almoço, as irmãs pareciam querer recuperar o tempo perdido, o tempo em que estiveram distantes.

Danilo e os pais acharam por bem deixarem que elas matassem as saudades uma das outras e que conversassem tudo o que tinham que conversar.

Suélen parecia mesmo precisar conversar, com aquele seu semblante de tristeza e seu olhar sempre voltado para o chão.

Muito mais tarde, já quase ao anoitecer, é que saíram todos para um passeio, acompanhando o caseiro que estava a apartar duas vacas de seus bezerros ainda em fase de amamentação.

As pequenas queriam saber por que separar os coitados das suas mães e o homem explicava que era aquela separação que iria garantir o leite deles todos na manhã seguinte.

Depois subiram beirando o pequeno córrego, até atingir o pomar, que pela estação do ano, mal tinha algumas frutas temporãs. Mesmo assim, conseguiram colher alguns limões, que o Senhor Ricardo rapidamente separou para fazer uma caipirinha.

– Amanhã vou até o centro e trago alguma cerveja. – disse o caseiro. – Se precisarem de mais alguma coisa é só avisar.

O Senhor Ricardo aproveitou o momento para avisar ao homem sobre os acertos de salários, que estavam todos aqueles meses atrasados.

– A menina mais velha logo cuidará fisso. – falou ao homem.

E Dona Helena apresentou-lhe uma pequena lista.

Depois que o homem se foi, para sua casa. A mulher ficou a sós, com a menina Suélen. Vendo o semblante ainda triste da garota, não se contém em abraçá-la e a dizer palavras doces.

– Ô minha menina. Erga esse rosto. Está tudo bem agora.

– A senhora acha? Não está pensando o que todo mundo pensa de mim?

– E o que é que todo mundo pensa de você, meu anjo?

Suélen chora por alguns instantes, encostada ao ombro da mulher, e depois faz a pergunta que parece ser o maior martírio da sua existência.

– Eu não sou uma depravada, sou?

– Mas quem te disse isso, minha flor? Isso é coisa que você mesmo inventou. Ninguém pensa isso de você. Pelo contrário. Nós te amamos demais. Sabemos o que você passou. Aliás, eu me sinto culpada nisso. Talvez eu pudesse ter terminado com esse seu sofrimento há muito tempo.

– Eu pensei em acabar com tudo, já faz tempo. Pensei em ir à polícia, mas eles diziam que se alguém ficasse sabendo seriam capaz de matar a nós três e depois se matarem. Pensei em me matar, mas não tive coragem, e também isso não iria resolver a situação das minhas irmãs. Pensei em matá-los, pensei em comprar veneno. Se tivesse encontrado as fotos eu as teria destruídos e então poderia matá-los. Eu pensava muito nisso. Mas procurei pela casa toda e não encontrei. Eu não podia matar os dois sem antes encontrar as fotos, entende? Eu não queria que alguém as visse, que todos soubessem. Por isso é que nos últimos tempos eu só tinha essa ideia na cabeça; achar e destruir as fotos e depois matar os dois ou então fugir para longe com minhas irmãs.

Suélen dá uma nova pausa, ainda procurando o conforto do corpo da mulher, para depois olhos fundo em seus olhos.

– Eu tinha planejado matá-los. O que aconteceu naquele dia não foi planejado, mas eu já estava com a ideia.

– Mas você não deve se culpar por isso minha menina. Deixa eu te dizer uma coisa. Custou-me acreditar que tudo aquilo que o meu filho estava tentando descobrir e depois provar, fosse verdade. Principalmente depois de trabalhar tantos anos para os seus pais, sem nunca ter nada a me queixar deles. Mas agora que sei que é tudo verdade, posso te dizer sem nenhum receio de estar cometendo um pecado, que mesmo que tivesse sido tudo planejado, mesmo que você tivesse pedido ajuda de alguém para fazer o que fez, ainda assim você estava no seu direito. Qualquer outra pessoa teria feito isso muito antes. E você só fez mesmo pelo que aconteceu naquele momento, você estava fora de si.

Dona Helena toma um fôlego, para depois acrescentar.

– Você não tem nada do que se arrepender, meu anjo. E muito menos do que se envergonhar.

Abraçada a Dona Helena, Suélen coloca para fora tudo que estava entalado como uma bola de espinho em seu peito, sabe-se lá há quanto tempo.

– Eu queria fugir. – disse Suélen. – Se eu tivesse coragem de pegar o carro, teria fugido. Foi então que, naquele desespero em que me encontrava, sabendo que aquela seria mais uma…  foi então que pensei no Danilo. Acreditei que ele pudesse fugir comigo, me levar para bem longe. Naquela sexta-feira era dia de fazer todas aquelas coisas novamente, mas eu não queria fazer. Não queria fazer e também não queria que eles levassem Suzana a fazer. Já haviam comentado que estavam esperando ela fazer quatorze anos, igual fizeram comigo. Por isso eu queria que Danilo fugisse comigo naquele dia. Fiquei esperando por ele, mas só quando ele chegou é que percebi que ele não iria fugir comigo. Não tinha razões para fazer isso. Então pedi que pelo menos ele saísse comigo, que me levasse para algum lugar, que me fizesse voltar em casa só no dia seguinte ou, pelo menos, depois da meia noite. É que era sempre à meia noite que eles começavam com aquelas coisas, aquelas orações, que acendiam velas. Mas eu sabia que tudo aquilo era para me impressionar pois o que eles queriam mesmo era fazer aquelas coisas comigo, me fotografar, e depois dizer que se eu não fizesse mais iriam mostrar aquelas fotos para todo mundo, só para mostrar a filha que eu era. Eu não sabia onde eles escondiam as fotos. Então eu tinha pensado em matá-los. Mas naquele dia eu queria fugir. Chamei o Danilo e acabei até sugerindo ir para um motel, transar com ele, qualquer coisa, só para não ficar lá. A senhora entende? Ir para aquele motel foi apenas um meio que arranjei ali, naquela hora. Eu estava transtornada e qualquer coisa que me tirasse daquela casa naquele dia era um alívio, uma esperança.

A menina faz uma pequena pausa, para conter um soluço mais forte, e depois continua a falar, como se precisasse esclarecer tudo, para todos.

– Mas lá no motel foi tudo horrível. Eu queria agradá-lo para que ele gostasse de ficar lá comigo, mas eu não conseguia. Não conseguia namorar com ele, entende? Acho que nunca vou conseguir namorar alguém. E também eu sei que errei, pois ele tem namorada e eu não podia estar com ele. Nunca mais vou estar com alguém.

Nova pausa, novo soluçar, enquanto suas trêmulas mãozinhas apertam os ombros da mulher.

– Então, quando chegamos lá em casa, eles estavam bravos. O Danilo já estava indo embora quando ouviu os gritos, e voltou para ver o que estava acontecendo. Ele já tinha percebido que eu não estava legal, que havia alguma coisa errada. E então aconteceu tudo aquilo.

Dona Helena, olhando firme para os olhos da menina, deixa que ela fale tudo, da maneira que lhe convém. Sabe que é disso que ela está precisando. E estava certa. Suélen ainda tem um último nó a fazer dissolver do seu peito.

– Acho que tudo aquilo não foi tão acidental assim. Na hora eu senti tanta raiva, tanto ódio. Eu queria mesmo matá-los. Por isso eu não quis que o Danilo assumisse sua parte na culpa.

14

– E que culpa tem você, minha filha?

A última palavra expressa por Dona Helena, parece ter feito brilhar um facho de luz no rosto de Suélen. A menina interrompe suas lágrimas e esboça um pequeno sorriso, para depois fazer uma pergunta singela para a mulher.

– A senhora quer ser minha mãe?

– Sua mãe? – pergunta a mulher, entre lisonjeada e surpresa.

– É. – diz Suélen. – Não tem pais que adotam filhos? Eu acho que nós três poderíamos adotar vocês dois como nossos pais. Ou vocês adotam a gente. Tanto faz!

– Ih… atrapalhou tudo. – fez uma voz que entrava pela cozinha naquele momento. Era Suzana, acompanhada de Samanta. – Atrapalhou tudo. – repete a menina. Irmão com irmão não pode namorar.

– Que conversa é essa, moleca? – pergunta Dona Helena. – Quem é que não pode namorar?

– A Su e o Danilo. Se eles se tornarem irmãos, não vão poder mais namorar.

– Mas não somos namorados. – diz Suélen.

– Não são. Mas…

Interrompeu por aí, deixando que as demais mulheres entendessem o restante. Mesmo que quisesse continuar, porém, não teriam mais tanta liberdade, pois os dois homens entraram na cozinha com os limões, à procura da pinga que o caseiro dizia haver ali guardada.

Enquanto eles preparam a bebida, Dona Helena, avisando que também quer um pouco, arrasta Suélen para a porta do quintal. As irmãs já estão um tanto longe, cochichando uma com a outra, sabe-se lá o que. A mulher abraça então a menina e diz que ela já é sua mãe. Mas acrescenta.

– Mas nenhuma mãe gosta de ver uma filha triste e…

– Será? – pergunta Suélen, e Dona Helena percebe então que precisa achar um modo de consertar rapidamente a ferida em que acabara de mexer.

– Mães, não gostam, minha filha. Mães, não gostam. Desculpe se te digo isso, mas pelo menos serve para você entender que não deve se sentir culpada por nada. E livre do sentimento da culpa, você pode ser feliz. Essa é a condição que imponho para ser ou, para continuar sendo, sua mãe.

– Não sei se mereço ser feliz. – diz Suélen.

– Bom! – diz Dona Helena, com uma certa energia na voz. – Então este é um problema seu. Quando resolver ser feliz, me procure, que serei sua mãe.

Um copo de caipirinha, oferecida também à menina, para que ela se sentisse melhor, interrompeu a sentença dada por Dona Helena, que entrou com o seu copo na mão, a cuidar do jantar, que a esposa do caseiro já havia preparado em parte.

Depois da caipirinha e do jantar, passaram todos algum tempo na varanda, sem tocar no assunto que havia dominado o cenário naqueles últimos meses.

Depois foram dormir.

O casal num quarto, as três meninas em outro, e Danilo num terceiro.

Antes de se recolher, porém, na porta do quarto onde iria dormir Danilo, Suélen o abraça e fala com ternura.

– Acho que não me lembrei ainda de te agradecer.

– Já passou o ódio? – pergunta ele.

– Como é que posso te odiar? E além de agradecer, tenho também de te pedir perdão. Não é mesmo?

– Não quero nem agradecimentos e nem pedidos de perdão. – diz ele – só quero ver você feliz. Esse é o maior agradecimento que você pode dar, a mim, às suas irmãs e, principalmente, a você.

Beijam-se nas faces, mas percebem que estão sendo observados por duas carinhas na porta do outro quarto.

Afastam-se.

Ao fechar a porta, Danilo ainda consegue ouvir Suzana falando para a irmã que elas duas já estão acostumadas a dormir sozinhas, caso ela quisesse ir dormir no quarto dele.

Mas a matreirice da menina não sossegou.

Já no dia seguinte, no segundo dia ali na chácara, enquanto Danilo e Suélen conversam sobre o que poderia ser feito dali para frente. Suzana e Samanta foram ter com eles, com uma proposta colocada de modo nada sutil.

Danilo, depois de ouvir da mãe todas as palavras ditas por Suélen na tarde anterior, dizia à menina que assim como ele e seus pais a amavam e em momento algum a viam como uma menina depravada, todos iriam agir com ela da mesma forma. Dizia então que não passara de um grande exagero aquele seu medo de ser odiada e menosprezada por todos, aquele seu desejo de permanecer na prisão.

– Pode ser. – diz ela. – Pode ser que eu consiga ter amigos. Mas que tipos de amigos? Daqueles que me olham, imaginando o que eu fazia na cama com meus pais?

– O que eles faziam com você. Tem muita diferença.

– A primeira vez foi ali no quarto onde você dormiu. Sabia?

– Para que lembrar isso agora? Tem é que esquecer.

– Mas eu quero esquecer. Só que eu nunca vou conseguir esquecer e as pessoas também não vão esquecer. Eu nunca vou conseguir namorar com ninguém. Você sabe disso. E também ninguém vai querer namorar comigo. Quem vai querer namorar uma menina que…?

– Fica quieta! – Ordena Danilo. – Isso tudo é coisa da sua cabeça. E te digo mais. Se algum menino for querer pensar nessas coisas, nisso que te aconteceu, antes de namorar com você, então é porque ele não é digno sequer de tocar seu corpo. Se alguém gostar de você, vai gostar pelo que você é, e não pelo que te aconteceu, que aliás, não foi nenhum erro seu, e sim deles, dos seu pais.

– Mas quem é que vai gostar de mim. Quem vai querer namorar comigo?

– O Danilo. – diz a voz matreira de Suzana, aparecendo repentinamente, deixando perceber que ouvira pelo menos a última parte da conversa dos dois. Depois continua. – Ele pode namorar com você. É só você não adotar o tio Ricardo e a tia Helena como nossos pais. Assim vocês não se tornam irmãos e então podem namorar.

A menina logo se vai, mas deixa uma semente plantada.

– Você namoraria comigo? – pergunta Suélen a Danilo, evitando, porém, olhá-lo de frente, como se sentisse vergonha da pergunta que fizera.

– E por que não? – pergunta ele, como resposta à sua pergunta. – O problema é que nenhum de nós dois está em condições de saber agora se queremos ser namorados ou não.

– Isso é verdade. Eu gosto de você, sempre gostei, mas como um grande amigo. Nos últimos tempos, porém, desde aquele dia, você tem dominado meus pensamentos, mas eu não posso dizer que tipo de sentimento é esse, ou se é de fato algum sentimento.

– Você está muito abalada ainda para saber que tipo de sentimento é. Por isso é que não sabe responder. Do meu lado, também estou abalado. Tem uma história com a Cátia que você não sabe.

– Posso não saber a história, mas sei que foi por minha causa. Estraguei tudo para você, não foi?

– Não. Muito pelo contrário. Ela tem outro. Minha dúvida era saber se esse outro surgiu depois de você ter declarado que éramos namorados ou se já era coisa antiga. Até ontem de manhã eu ainda estava com essa dúvida. Ela havia me ligado duas vezes, como você sabe, mas só fez isso para ter certeza de que eu não iria aparecer de repente, na casa dela.

– Como é que você sabe?

– Antes de ir me encontrar com vocês, eu passei na casa dela. Você viu que até fui de moto. Pois então, a mãe dela disse que desde a tarde do sábado ela estava fora e que ia pousar na casa de uma amiga. Mas antes de vir embora eu a vi chegando, com um mesmo cara que antes eu a vi entrando num motel, um colega seu de firma. Os dois devem ter passado a tarde e a noite juntos. E ela ainda me liga, talvez na frente dele, apenas para confirmar.

– Mas você não tem certeza de que foi isso, tem?

– Talvez não. Mas também não tenho certeza se quero saber a verdade. Entende?

– Não. Por que você não haveria de querer saber?

– Pois aí é que está. Se eu ainda estivesse bastante apaixonado por ela, é óbvio que eu iria morrer de ciúmes e querer saber tudo. Não é mesmo? Mas acontece que isso parece não estar me afetando. Na verdade, só fui lá ontem porque ela havia ligado as duas vezes e estávamos de partida para cá. Achei que devia dar uma satisfação. Só isso.

– Acho que você ainda gosta dela, mas já não está querendo admitir.

– E por que não?

– Despeito!

– Despeito? – pergunta Danilo. – Despeito por quê?

– Por que você viu ela com outro. Não sou a pessoa mais indicada para falar dessas coisas, mas acho que quando isso acontece, deve ser normal ficar com bronca, não querer mais saber da pessoa, mesmo que ainda se goste dela. Entendeu?

– Pode ser. – ele concorda.

– Uma vez. – disse ela. – Bem antes… você sabe. Acho que foi logo que eu fiz 13 anos, por aí. Havia um menino na minha classe e já estávamos quase namorando.

– Quase namorando? Estavam ficando, então?

– Não. Nunca tínhamos ficado. Só nos olhávamos e estávamos sempre juntos. Eu só estava esperando a hora que ele fosse falar comigo, e minha colega vivia dizendo para eu ir falar com ele, antes que aparecesse uma outra.

– E você então foi falar com ele, pedir ele em namoro? Que menina avançada!

– Escrevi um bilhete. Mas no dia em que planejei entregar para ele, vi ele de mãos dadas com outra menina. Então fiquei com uma raiva danada e jurava para todo mundo que não gostava dele, que nunca havia gostado. Mas só eu sabia o quanto eu me remoía por dentro. Bastou eu saber que não havia nada sério entre ele e a menina, para eu voltar a ficar toda esperançosa novamente.

– Esse menino, por acaso, é um tal de Rafa?

– É! Como é que você sabe? Quero dizer… você leu, não é?

– Desculpe! Mas foi preciso.

– Nós chegamos a namorar um tempo. Namorico bobo, beijinhos, tudo escondido, eu com medo dos… – faz uma longa pausa. – Aí começou a acontecer tudo aquilo, eu não pude mais namorar com ele.

– Não pode ou não queria?

– As duas coisas. Eles me proibiam de namorar. E também, como é que eu ia namorar alguém… fazendo tudo aquilo?

Suélen ameaça chorar, mas Danilo a abraça e procura mostrar que agora tudo aquilo é passado.

– Você volta a estudar no ano que vem e te garanto que logo vai estar cheio de meninos querendo te namorar.

– Você podia estudar também. – falou Suélen, de modo um tanto surpreendente. Você faz vestibular e podemos estudar juntos.

– Juntos?

– No mesmo ano. Mas se fizermos o mesmo curso.

A conversa é interrompida pelas irmãs menores e pelos pais de Danilo, que anunciam a chegada da cerveja, trazida pelo caseiro e, para algum tempo mais, o jantar preparado por Dona Helena, em conjunto com a mulher do mesmo, sendo que Suélen fez questão que os dois também sentassem à mesa.

E assim foi, durante toda aquela semana. Todos procuravam agradar Suélen e isto até preocupava um pouco Danilo, que chegou a conversar com os pais a respeito. Achava que atenção demais iria surtir um efeito exatamente o contrário do desejado, pois ela poderia facilmente ser levada a perceber esse exagero e desconfiar de todos quanto à sinceridade dos gestos.

Mas aos poucos, no decorrer dos dias, entre os passeios pelo riacho, pelo pomar ou nas montanhas em volta, evitava-se tocar no assunto, e também a “paparicar” demais a menina Suélen.

Ela devia voltar a sorrir naturalmente, dizia Dona Helena, pelo amor à vida, que também aos pouco ela estava readquirindo.

E a semana na chácara estava terminando.

No cair da tarde, Samanta atendeu a um telefonema e depois gritou o nome da irmã Suzana. Enquanto uma entrava para atender, a outra saía para a varanda, cantarolando.

– Tá namorando! Tá namorando!

Suélen ficou curiosa e a menina explicou, à sua maneira.

– É o Beto. Faz tempo que ele está embaçando a Su. E ela tá paradinha nele também. Mas diante de toda essa confusão… Mas vai dar namoro. É só a gente voltar.

– Eu não queria mais voltar. – disse Suélen, olhando para a parte baixa da propriedade, onde o gado pastava e ruminava o capim. Havia ainda uma certa incerteza em seu olhar. Depois ela continuou: – Você e a Sa podiam voltar, irem para a escola, e nos fins de semana voltam para cá. O que acham?

– Mas onde a gente fica? Na casa do tio?

E todos entenderam que aquela não seria uma boa solução, mesmo quando Suélen argumentou que se ela também voltasse, iriam continuar com o mesmo problema, sobre onde ficarem.

A única certeza que tinham é que nenhuma das três queria continuar morando com um tio que além de, praticamente, manter as duas pequenas como prisioneiras dentro de sua própria casa, parecia também interessado em ver Suélen permanecer na cadeia, para que assim ele pudesse administrar o patrimônio da família.

O pequeno silêncio que se seguiu foi quebrado pela saída de Suzana do interior da casa e a voz de Samanta, agora acompanhada também da voz de Suélen, fazendo coro:

– Tá namorando! Tá namorando!

Danilo, e também seus pais, olharam com profunda expressão de contentamento aquela manifestação de alegria por parte da moça, enquanto a irmã do meio se punha em corrida atrás da mais nova, que deu a volta na casa, repetindo o mesmo refrão.

A semana na chácara estava terminando, mas a vida estava recomeçando.

E foi no jantar daquela sexta-feira, última do mês de julho, sob o efeito de uma latinha de cerveja que tomara, segundo o Senhor Ricardo, que Suélen declarou-se disposta a mudar seu modo de pensar e a partir para uma nova vida.

– Perdi um ano de faculdade. – ela disse. – Mas o que é um ano para quem tem toda uma vida pela frente, não é mesmo? Além do mais, descobri que tenho uma família maravilhosa. Duas irmãs a quem amo muito, e que me amam também, um amigo que se arriscou em tudo para me ajudar, até mesmo contra a minha vontade, e dois pais que poderão cuidar muito bem de mim e de minhas irmãs, como, aliás, sempre fizeram.

– Dois pais? – pergunta o Senhor Ricardo.

– Sim. Dois pais maravilhosos – disse ela, levantando-se e indo colocar-se atrás de ambos, com as mãos em seus ombros. Depois perguntou. – Por acaso o senhor não aceita ser adotado por nós três?

– Nós, sermos adotados? – pergunta ele.

E Suélen volta a falar, já com voz decidida, de quem sabe e pode resolver seus próprios problemas.

– Vocês, ou os senhores, desculpem, voltam a morar lá em casa. Mas com a gente e não na casa dos fundos. Não serão mais motorista e empregada, ou podem até continuarem sendo, tanto faz. Isso não importa. O que importa é que fiquemos todos juntos, sem a intervenção do meu tio. Aceitam?

– Não é tão simples assim. – disse o Senhor Ricardo. – Podemos muito bem ser vossos pais e isso será um orgulho muito grande para nós, pois sempre gostamos e cuidamos de vocês e até mesmo palmadas em vossas bundas já demos. Mas quanto a continuar trabalhando na casa, ou morando lá, como você sugere, isso vai depender muito de seus tios, de seus familiares. Não sei se eles iriam concordar.

– Mas quem são eles para concordarem ou não? – pergunta Suélen. – Em primeiro lugar, sou maior de idade e, pelo que sei, posso assumir certas responsabilidades. Mesmo que não puder, um advogado pode dar um jeito de nomear vocês como nossos tutores. E em segundo lugar, o que fizeram vocês de errado para que eles ou qualquer um que seja, se veja no direito de impedir que continuemos juntos?

– Vocês são a nossa família, agora. – completa Suzana.

E Samanta cochicha no ouvido de Dona Helena que vai ser a primeira vez que vê dois irmãos namorarem.

A noite caiu repentinamente e aproveitaram o ar fresco que balouçava as samambaias da varanda da grande casa. Danilo e Suélen e os quatro adultos conversavam, enquanto as duas meninas se divertiam com os insetos que insistiam em voar em torno da grande lâmpada que iluminava o quintal.

Voavam, batiam no vidro e caíam no chão.

As duas tentavam reanimá-los para um novo vôo, até que apareceram dois sapos, atraídos pela fartura de alimento e elas se assustaram e passaram a achar por bem não interferir no jantar daqueles bichos, preferindo então abrigarem-se no interior da casa, vendo televisão.

E fazia tempo que nenhuma delas se animava a estar em frente à televisão, de tanto ouvirem coisas ruim a respeito da irmã. Mas as notícias agora eram outras. A imprensa noticiava a libertação bem como a inocência da menina Suélen., a garota vítima de pais pervertidos.

Mais tarde todos se recolheram, com seus beijos de boa noite. Danilo também foi para o seu quarto, mas não teve tempo, como nos dias anteriores, de tentar imaginar as desventuras que Suélen havia vivido ali, há mais de quatro anos.

Era ela própria quem abria a porta e adentrava o recinto, olhando-o com um certo encanto, enquanto se preparava para falar alguma coisa.

O olhar de Suélen, parada no vão da porta, já não parecia o mesmo olhar cabisbaixo dos dias anteriores. Havia uma certa vivacidade naquele olhar. Não uma vivacidade de quem sabe ter o mundo girando em torno de si para lhe trazer felicidade, mas a vivacidade de alguém que sabe perfeitamente que esse mundo ficou um dia esquecido numa esquina qualquer da vida.

Esquecido, porém não perdido!

– Posso dormir aqui, com você? – pergunta ela, ainda de forma tímida.

– Dormir comigo? – pergunta ele, talvez surpreso.

– É! Dormir com você, transar com você. – disse, de forma já mais decidida, e não esperou que Danilo se refizesse da surpresa. – Naquele dia você queria que eu tivesse prazer, mas eu não quis. Estava nojento. Tão nojento como foi aqui mesmo nesse quarto.

– Eu estava nojento?

– Claro que não! Não era você, era eu, eram as lembranças. Mas agora eu quero ter uma chance de mostrar para mim mesma que não é nojento.

Sentaram-se na borda da cama, e Danilo tentou esclarecer algumas coisas.

– Escuta, Suélen. Lembra da conversa que tivemos, sobre sermos namorados? Nenhum de nós tem certeza…

– Não estou pedindo para você me namorar. Só estou pedindo para você transar comigo.

– Entendi. Você quer…?

– Quero experimentar, sim. Quero perceber que é bom, que eu posso fazer numa boa, sem sentir nojo, sem ficar lembrando daquelas coisas. Não precisamos namorar. Só se a gente se apaixonar depois.

– Mas e se eu não quiser?

– Então eu vou fazer com outro. Seu bobo!

Talvez fosse isso mesmo o que Danilo quisesse ouvir, para não ficar com a sensação de estar abusando do estado emocional de Suélen, não estar se aproveitando do que ela podia, talvez, naquele momento, ver apenas ele como um possível e eterno parceiro.

– Com qualquer um? – pergunta.

– Quem sabe! – diz ela. – Mas no momento só tem um menino aqui para eu poder fazer, experimentar.

– Pode ser. Mas esse menino não veio para cá preparado para isso. E pelo que imagino você também não.

– É mesmo! Não podemos transar. – diz ela. – Eu queria tanto. Foi aqui que tudo começou, de onde tenho as piores lembranças.

– Entendi!

– Mas eu espero até amanhã, lá em casa ou, então…

– Então o quê. Fale!

– Você não se importa de estar sendo usado novamente?

– Não. O que eu mais quero é ser abusado, por você. Mas não era isso o que você ia dizer.

– Era isso também. Quero te usar para descobrir que não é nojento.

– Claro que não é. Você vai descobrir isso, pode deixar. Mas você ainda não falou o que ia falar.

– Seu bobo! Até já sabe. Naquele dia você quis brincar e eu não deixei. Mas hoje eu quero brincar, igual aquelas brincadeiras que você…

– Que eu…?

– Que você me falou que fazia… que faz com a Cátia.

– Fazia. Fazia. E você quer brincar?

– Quero. Quero brincar bastante, mas tem uma coisa.

– Que coisa?

– Você não acha que eu devia ir falar com ela?

– Você falar com a Cátia… pra quê?

– Acho que ela merece uma explicação, saber a verdade.

Os dois deixam seus corpos caírem na cama, aos beijos, abraços e sorrisos comprometedores.

Danilo não deixou que Suélen se despisse repentinamente como estava acostumada a fazer. Mostrou a ela a delícia que era ele mesmo tirar peça por peça das suas vestes, aos pouco, no momento certo, enquanto beijava carinhosamente cada milímetro daquele seu corpinho.

Não ouviram, mas bem podiam adivinhar que no quarto ao lado, duas pequenas vozes entoavam um coro:

– Tão namorando! Tão namorando!

15

Suélen foi, sim, falar com a Cátia, contar a ela toda a verdade e pedir perdão por ter envolvido Danilo no seu desespero. Cátia soube compreender e, ato contínuo, explicou ao ex-namorado que o seu envolvimento com outro havia, sim, sido fato recente, por conta das dúvidas que ela vivia. Ambos compreenderam, no entanto, que suas vidas já haviam tomado rumos diferentes.

O inquérito sobre o assassinato dos pais correu por mais de um ano, até que Suélen foi condenada em primeira instância, para depois ser absolvida, sob o princípio da legítima defesa.

Danilo não foi arrolado.

Suélen não apenas não se desfez da casa, dizendo que as lembranças ruins tinham de ser superadas e não apagadas, como também fez questão de manter a nós todos juntos ou por perto.

Acreditávamos que havia acontecido uma superação.

Suélen e Danilo se casaram no ano de 2005 e no ano seguinte nos presentearam com uma linda criança, hoje com quase 12 anos, um sonho de menina, para quem ficamos muito tempo a nos perguntar se devíamos ou não contar a história da mãe.

Um dia ela vai ler essa história.

A ideia, os primeiros ensaios e a escrita deste livro se deram no decorrer do ano de 2017, mesmo ano em que nossa irmã Suélen partiu.

Seu corpo foi encontrado sem vida no laboratório de química da faculdade onde estava estudando, junto havia um bilhete pedindo perdão pela sua incapacidade de continuar vivendo, e que cuidássemos da menina.

Foram poucos os seus anos de (aparente) felicidade.

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